sexta-feira, 30 de outubro de 2020

CORTEJO AO BONFIM VIRA PAGODÃO CARNAVALESCO

Tasso Franco
14/01/2011 às 15:08
Foto: BJÁ
Bicicleteiro perdido na multidão na largada da festa, sem saber onde formar
  O cortejo da Lavagem do Bonfim, uma das manifestações da cultura popular baiana mais antigas, vai passando por transformações ao longo dos anos, o que é absolutamente natural, mas, o que é grave, perdendo alguns valores da cultura popular espotânea, aquilo que emana do povo sem a necessidade de apoio ou orientação governamental. As baianas, por exemplo, muito bonitas, são pagas (em sua maioria) pela Bahiatursa, inclusive na confecção de alguns adereços.

  Teve até um episódio insólito, na época de ACM, em que a Casa Militar do governador colocou algumas dessas baianas fepens (PM femininas), o que causou um mal estar enorme. Hoje, também o que não existia no passado recente, os políticos e o governo do Estado emolduram a festa em seu cortejo com balões publicitários e/ou de protestos, como foram os casos em 2011, do Terra de Todos Nós e os do PMDB falando que a Bahia continua pedindo paz. Pelo bem da cultura deveriam ser abolidos.

  Também neste 2011 desapareceram os animais (jegues e cavalos) do circuito por determinação judicial através de representação de uma ONG. Desde os primórdios, quando a festa tinha o percurso entre a Ribeira e o Bonfim, aguadeiros levavam jegues com barris d'água para lavar a igreja, ainda em seu interior. Não há notícia nesses 260 anos da festa que algum jegue ou cavalo tenha morrido devido maus tratos na Lavagem do Bonfim. Paciência: determinação judicial se cumpre. 

  Pena que a Prefeitura, através da sua Procuradoria Jurídica, não tivesse entrado com recurso junto a um desembargador sintonizado com a cultura popular para derrubar liminarmente a decisão. A Prefeitura, como se sabe, passa por momentos difíceis e o prefeito JH sequer compareceu a festa, precedente raro desde a época em que o chefe do executivo municipal, ao longo dos anos, marcou sua presença.

  Outro detalhe: os bicicleteiros estavam completamente perdidos na multidão. Não houve a mínima organização na saída do cortejo, inclusive o bloco do governador formando distante da Basílica da Conceição da Praia quando o normal é adjacente ao tempo. Na largada pareciam dois cortejos: um na parte alta da Conceição; e outro na parte baixa rente ao quartel da Marinha, em frente a escultura de Mário Cravo Jr. Encontrei bicicleteiros (vide foto acima) perguntando onde era a formação.

  O cortejo, ademais, virou um grande pagodão carnavalesco. Só em 2011 foram 33 entidades inscritas pela Saltur, inclusive uma delas (Bloco Bola Cheia) usando cordas no modelo carnavalesco, uma coisa tão absurda e restritiva que Senhor do Bonfim tremeu em seu altar no alto da colina.

  Tudo bem que o evento seja mais profano do que religioso, e desde que participo dele na década de 1960 até os dias atuais, sempre foi assim, com conotação mais profana do que religiosa, e, no início dos anos 1990 até trio elétrico participava. A Saltur deve abolir essa prática. Uma coisa é credenciar um grupo de samba, um grupo de pagode, uma burrinha, um grupo de nigrinhas, agora, bloco carnavalesco é demais.

  A diversidade cultural popular espontânea da festa foi para o espaço. Ví raríssimos exemplares. E eram tantos no passados que davam um brilho todo especial ao evento. Lembro de um bicileteiro que enfeitava sua bicicleta com uma miniatura da Basílica do Bonfim, um primor, vestia-se com sua melhor roupa e estava todos os anos no cortejo. Tinha um bandolinista solitário que desfilava numa carroça. Tinha o cavaleiro do jaleco branco. Nada mais acontece.

  A festa do Bonfim deve incorporar novos valores, é verdade, mas, a cultura popular precisa ser preservada.