sexta-feira, 30 de outubro de 2020

ONDE ESTÃO NOSSAS RAÍZES E DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Isa Lorena
20/11/2010 às 08:06

Foto: TN
O samba é produto Brasil organizado por descendentes de africanos

Para compreender quem somos, precisamos primeiro entender de onde viemos. Quais histórias compõem a nossa própria história, quais foram as lutas dos nossos antepassados, quais os seus anseios e princípios. Novembro, mês da consciência negra, foi instituído como o momento de repensar os fatos, a etnia, as origens, enfim, toda essa cultura que nos cerca e classifica. Envoltos numa atmosfera de conceitos máximos tais como o capitalismo desenfreado e o declínio de antigos valores morais, surge a necessidade do seguinte questionamento: afinal, onde estão nossas raízes?


Foi em 20 de novembro de 1665, que Zumbi, considerado quilombo maior dos palmares, foi assassinado. O líder revolucionário representou a maior e mais importante comunidade de escravos das Américas. No período da escravidão, os negros fugitivos se escondiam no meio das matas e as comunidades alí agrupadas, eram chamadas de quilombos, que representaram uma das formas mais contundentes de resistência e combate à escravidão. E em quais matas se escondem os negros hoje, ou ainda: que negros ainda se escondem em matas fechadas?


Há alguns anos, o poeta gaúcho Oliveira Silveira sugeria ao seu grupo, que o 20 de novembro fosse comemorado como o "Dia Nacional da Consciência Negra", pois era uma data "mais significativa para a comunidade negra brasileira", do que o 13 de maio. "Treze de maio traição, liberdade sem asas e fome sem pão", assim definia Silveira o "Dia da Abolição da Escravatura" em um de seus poemas. Então em 1971, o 20 de novembro foi celebrado pela primeira vez, e a idéia se espalhou por outros movimentos sociais de luta contra a discriminação racial.


Muito se pesquisa e se constrói sobre o assunto. A UNESCO iniciou em 1999 um Projeto intitulado Tráfico de Escravos e Escravidão, dentro do Programa Memória do Mundo, que vem tornando possível a identificação da informação e da documentação existente no mundo em relação à escravidão e ao tráfico de escravos. Em Salvador, assim como em outros municípios do Estado, acontece durante o mês de novembro, uma série de comemorações e homenagens aos líderes negros que fizeram da história, base aliada para grandes lutas, armadas ou não.


A socióloga e coordenadora executiva do Ceafro, Vilma Reis, afirma que o racismo continua fazendo parte da sociedade, fazendo com que a escravidão seja "reeditada" todos os dias por atitudes conscientes ou inconscientes. O Ceafro é um Centro de Estudos Afro-Orientais da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, criado em 1959 para o estudo, a pesquisa e ação comunitária na área dos estudos afro-brasileiros, e das ações afirmativas em favor das populações afro-descendentes, bem como na área dos estudos das línguas e civilizações africanas e asiáticas. "Não é fácil ser negro em uma cidade que diz que ser negro é feio", afirma Vilma.


Pesquisas recentes divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) e pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) mostram uma realidade mais precária enfrentada pelos negros no mercado de trabalho, em comparação com a enfrentada pelos não-negros, quando se consideram dados como as taxas de desemprego, a presença nos diferentes postos de trabalho e os valores dos rendimentos, entre outros. Mas se analisarmos com maior cautela, podemos perceber como esta realidade vem se transformando a cada dia, em diversos setores da nossa sociedade. Uma vitória de todos, é preciso ressaltar.


De onde vêm nossas raízes? A pergunta não deve nunca se calar. E mais que isso: precisa proliferar pelas escolas, ecoando nos ouvidos das crianças e jovens que compõem essa nação. Por que conhecer mais a Europa do que a África? Por que não olhar para a nossa história sob os olhos dos escravos, entender suas revoltas e as consequencias delas? Como discutir reparação social fora do contexto histórico? Como deixar de lado anos e anos de lutas e conquistas?


Somos um país miscigenado, um povo inclassificável, como cantou Arnaldo Antunes. E nos beneficiamos todos com a grande herança cultural que nos foi trazida pelos escravos africanos, herança essa de relevância indescritível para os nossos costumes de ontem e de hoje, com elementos que agregam nosso cotidiano, seja através de crenças, seja através das palavras, dos modos de ser e agir, de estar no mundo, de olhar para ele.  


Dos porões dos navios negreiros, veio o samba, o candomblé, o carnaval, o sabor forte de nossa comida; crenças e hábitos que em nós estão intrínsecos e que faz de nós um povo único, de raça única, brasileira. E como diz o Caetano, "O coração, que é soberano e que é senhor, não cabe na escravidão, não cabe no seu não, não cabe em si de tanto sim: é pura dança, sexo, glória... E paira para além da história".