quinta-feira, 26 de novembro de 2020

A FESTA RELIGIOSA DE CORPUS CHRISTI CENTRADA NO MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO

Maria Clara Lucchetti Bingemer
02/06/2010 às 10:03

A festa de Corpus Christi -  do mistério da Eucaristia, do Corpo e Sangue de Jesus Cristo dados em alimento e bebida para a vida do mundo - nos relembra alguns dados centrais da fé cristã, da mística dela derivada e da teologia que sobre ela reflete.

Centrado no mistério da encarnação, o Cristianismo,  não menospreza o corpo, mas o inclui em sua reflexão e discurso e o situa em lugar proeminente ao refletir e falar sobre o mistério do divino. A experiência da Transcendência no cristianismo é a experiência de um Deus encarnado. Portanto, é uma experiência que passa pela corporeidade.   Fora deste dado central e indispensável, não há cristianismo.
 
Desde sempre, para o Cristianismo, não havendo encarnação, não existe igualmente  a possibilidade de a Transcendência assumir todas as coisas em seu interior e viver a história passo a passo, por assim dizer "na contramão" de sua eternidade.  Não havendo encarnação da Transcendência - mistério que a humanidade não pode alcançar por suas próprias forças, mas que a Revelação cristã atesta haver sucedido  na pessoa humana de Jesus de Nazaré, -   não é possível haver aliança entre a carne e o Espírito.  A Transcendência ficaria, pois, para sempre banida das possibilidades do pensar e do falar humanos.  
  
No entanto, ‘... o Verbo se fez carne', proclama o poema-prólogo que abre o evangelho de João (Jo 1,1s).  Desse Verbo, Palavra Transcendental e primeira, o evangelista dirá igualmente que " habitou entre nós" (v. 18), não somente no sentido histórico de Deus que se manifestou na pessoa de Jesus de Nazaré, mas também na dimensão da profundeza com que atinge a natureza humana: nosso ser é habitado pelo divino e se diviniza na mesma proporção em que se humaniza. A terceira pessoa da Trindade, o Espírito Santo, habita em nós e em nossa finitude e caducidade, em nosso corpo frágil geme e clama "Abba, Pai!" e pronuncia "Senhor Jesus".  Nada do que é humano, - e, portanto, corpóreo -  é estranho ao divino segundo o Cristianismo.  E toda nova descoberta e toda nova ênfase do pensar e do falar cristãos em termos de humanidade vêm não ameaçar sua identidade, mas pelo contrário, alimentá-la, nutri-la, fazê-la mais verdadeira.  Ao contrário, toda tentativa de escapar e minimizar a corporeidade e a carne  é tentação que descaracteriza a fé cristã,  em sua dinâmica histórica e encarnatória.
 
Confessar que o Verbo se fez carne e o Espírito foi derramado sobre toda carne implica, pois buscar a experiência e a união com a Transcendência que assim se comunica com a humanidade através desta carne e desta corporeidade, a partir da qual somente  é possível experimentá-la. 

A partir desta convicção central cristã de que o corpo humano é condição de possibilidade da encarnação e, sobretudo da experiência do divino, a festa de Corpus Christi adquire, aos olhos da teologia, uma luminosidade toda especial.  Esta festa nos recorda - como nos diz Frei Betto -  que o cristianismo é por excelência a religião da economia dos corpos, pois no batismo nosso corpo é lavado no Sangue de Cristo.  Na eucaristia, ele se nutre do Corpo de Deus.  No matrimônio, "numa só carne"os corpos se fundem no amor que transubstancia o carinho em liturgia e a sexualidade em fonte prazerosa de vida. 

A própria  identidade humana, pois, é a de ser espírito encarnado. Essa união entre polaridades aparentemente irreconciliáveis não deixa de trazer algum nível de tensão e conflito.   Essa tensão dolorosa e atribulada, mas não menos fecunda, é a de um espírito que deseja a comunhão com o divino metido numa carne que não é impedimento, mas mediação para essa comunhão.  Carne essa que, no entanto, ao mesmo tempo em que convida à comunhão,  relembra cruelmente os limites e os obstáculos da finitude humana, condição inelutável para o ser humano, convidado pelo Deus vivo por pura graça para ser parceiro de comunhão.

A mística cristã é, pois inseparável da corporeidade vulnerável e mortal que o próprio Jesus Cristo tomou em sua encarnação. Quanto mais profunda a união entre o ser humano e Deus, mais o ser humano se aprofunda em sua humanidade, pois é somente aprofundando-se nela que encontrará mais profundamente seu Deus.

A Epifania da Transcendência se dá  - em desejo doloroso e gozoso ao mesmo tempo - ao apalpar os limites da carne mortal e caduca e experimentar o desejo do infinito que habita todo homem que vem a este mundo. Nesta fraqueza é que brilha sua força e beleza. Neste limite se dá a presença Santíssima do Senhor Encarnado que adoramos presente nas espécies do pão e do vinho e que comungamos neste mesmo pão e vinho crendo que é sua pessoa mesma que nos alimenta e vai nos transformando nele mesmo. .  Nesta condição humana finita e mortal acontece a kenosis do Verbo que tinha a condição divina, mas a ela não se aferrou.  Assumindo essa kenosis numa vida de serviço humilde e gratuito aos outros, o ser humano se faz ele mesmo eucaristia, oferecendo aos outros seu corpo transubstanciado em Eucaristia para que o mundo creia e se alimente, para que não falte massa no forno, pão na mesa e vinho na festa.

Celebrando a festa do Corpo de Cristo estamos proclamando bem alto que Jesus Encarnado é o verdadeiro amor do qual os outros amores são pálidos reflexos.  Jesus que, no entanto se deixa experimentar nestes outros amores e não fora deles. Comungando o corpo de Jesus aceitamos então ser responsáveis pelo corpo dos outros e outras para que tenham vida e vida em plenitude.  A Eucaristia é sinal dessa união e desse compromisso inefáveis e revitalizadores.