ter?a-feira, 24 de novembro de 2020

40 ANOS TRIBUNA DA BAHIA: EMOÇÃO NO TÚNEL DO TEMPO

Jaciara Santos
25/10/2009 às 16:20


Depoimento da jornalista Jaciara Santos, repórter desde quando nasceu
Quando a Tribuna da Bahia nasceu, eu já estava mocinha. Era uma época de muitas incertezas, dúvidas existenciais e questionamentos, daqueles que os adolescentes sabem cultivar como ninguém. Ainda estava no ginásio (e os da minha geração sabem do que estou falando...), a universidade parecia estar a anos-luz de distância, mas eu já sabia: queria ser jornalista.

Ainda que minha mãe me quisesse doutora. E foi pelas páginas da Tribuna que viajei naquele sonho. Colecionava as crônicas dos escritores Ruy Espinheira Filho e de João Ubaldo (que, à época, assinava JU Ribeiro). Conservei-as até pouco tempo atrás, quando, numa dessas mudanças de rumo que a vida nos impõe, optei por me desfazer de papéis e vivências amarelados pelo tempo.

Como havia planejado desde a adolescência, me tornei jornalista. Fui trabalhar no extinto Jornal da Bahia, mas continuava a namorar a Tribuna de longe.  No começo dos anos 1980, por questões empresariais, os dois jornais se aproximaram fisicamente. O Joba se desfez da sede da Barroquinha, centro de Salvador, e passou a ocupar todo o primeiro andar do prédio da TB, o número 121 da Rua Djalma Dutra, ligação entre o estádio da Fonte Nova e o Mercado das Sete Portas. As redações eram distintas, embora as duas empresas compartilhassem alguns serviços, como forma de reduzir custos e prover a sustentabilidade. Eram anos difíceis aqueles.

Ser inquilino da Tribuna gerou alguns desconfortos para o Jornal da Bahia. A redação, que já era minguada, foi se esvaziando mais e mais com o êxodo de profissionais. Chegamos a criar uma espécie de código para comentar a saída de mais um colega: como a TB funcionava no terceiro andar e o Joba no primeiro, sussurrávamos que Fulano ou Beltrano estava subindo a escada... Em janeiro de 1987, eu também subi a escada.  E foram 13 anos no jornal que, muitos anos antes, havia fortalecido em mim a decisão de ser jornalista.

Não posso dizer que era "foca" - termo que designa o jornalista inexperiente quando cheguei à Tribuna. Não era. Os mestres Tasso Franco  e Jadson Oliveira, meus primeiros (e queridos) chefes de reportagem,  já haviam me ensinado o bê-a-bá, lá atrás, no Joba. Anízio Carvalho, o velho e sábio Anízio, assim como o gaiato Paulo Mocofaia e o enfezado Vigota - os três, fotógrafos de boa cepa - também já haviam feito a sua parte, me mostrando a importância do casamento entre texto e imagem, sem o estrelismo da geração faça-o-seu-que-eu-faço-o-meu, tão comum nas novíssimas redações. Então, repito, quando cheguei à Tribuna, já possuía certa experiência. Tanto que fui chefiar a equipe de reportagem.

Mas não quero falar de mim. Se revolvo essas lembranças, é porque elas me tomaram de assalto, durante a festa de comemoração dos 40 anos da Tribuna, no Teatro Castro Alves. Entrei numa espécie de túnel do tempo e me vi tomando café no boteco de Careca ou no Bar de Pepe, ambos em frente ao jornal. Quase senti o gosto da comida do Abaixadinho, engolida às pressas naquela pausa entre uma página editada e outra por editar.

Viajei no tempo vendo aquele documentário recheado de  depoimentos de figuras emblemáticas como o diretor comercial Chico Aguiar, meu bom amigo Chico, cuja dedicação levou o jornalista Alex Ferraz, o rei dos trocadilhos,  a cunhar a frase "feliz da Tribuna, que tem um Chico a guiar..."). Não pude deixar de me emocionar com a emoção do diretor de redação Paulo Sampaio, mesmo já o tendo visto chorar em situações anteriores... Quase não acreditei ao ver o superintendente Walter Pinheiro - o sempre polido, mas impassível "doutor Walter" - ler com indisfarçável tremor na voz um discurso que era, na realidade, uma despudorada declaração de amor à jovem balzaquiana Tribuna da Bahia...

Deixei a Tribuna há nove anos. Passava por um momento de mudanças na vida pessoal e encarei o desafio de singrar mares desconhecidos também no campo profissional. Não me arrependo, nem nunca pensei em voltar atrás. Mas não escapei da onda de emoção que permeou toda a cerimônia e que vi nos olhos de velhos companheiros, alguns dos quais tão afastados das lides jornalísticas, que nem jornalistas mais parecem ser.

 E é ainda tomada por esse turbilhão de sentimentos e não refeita daquela embriaguez de emoções que faço coro aos que cantam o parabéns a você para a Tribuna. Mas, como disse a cada um dos companheiros a quem abracei ontem na festa, tenho o orgulho e privilégio de dizer: em 13 desses 40 anos de história, eu e a Tribuna nos ajudamos a crescer.