quinta-feira, 26 de novembro de 2020

40 ANOS DA TRIBUNA DA BAHIA E AS MÁXIMAS DE QUINTINO DE CARVALHO

Antonio Matos e Paulo Brandão
24/10/2009 às 16:20
Foto: Ilustração
Ninguém sabe com precisão usar ponto e ponto e virgula. Portanto, está abolido o segundo.

Honesto, exigente, espirituoso, irônico, cuidadoso, bem humorado, 100% profissional. Era assim Quintino de Carvalho, na chefia da Redação da Tribuna da Bahia, desde a Escolinha TB, em meados de 1968, até 1971, quando um câncer o matou precocemente aos 42 anos.


Eis aqui, algumas de suas máximas:


"Repórter não pode morar em Itapagipe", dirigindo-se ao repórter de Política, Ivan Carvalho, que chegara atrasado para uma pauta e no tempo em que Itapagipe era longe.


"Osório Villas-Boas não é o homem mais importante do futebol baiano  ? Então, vocês precisam ter o telefone da casa do Osório, do escritório do Osório, do quebra faca do Osório, da amante do Osório..."
, durante uma reunião com os integrantes da Editoria de Esportes, numa época em que não existia celular.


"Lázaro não está doente, Lázaro fica enfermo"
, criticando a maneira formal do Editor de Fotografia, Lázaro Torres, falar.


"Quem é o Nininho do dia ?",
perguntando quem era o repórter que estava substituindo Antônio Matos - cobrindo o treinamento da Seleção Brasileira, no Rio - na chefia da Editoria de Esportes, numa escala de revezamento emergencialmente criada.


"Ninguém sabe, com precisão, quando se usa vírgula e quando se usa ponto e vírgula. Portanto, a partir de hoje, nossos textos não terão mais ponto e vírgula"
, falando para os alunos da Escolinha TB.


"Porra de via de regra. Pelo que sei, meu filho, via de regra é vagina"
, irritado com a insistência de um repórter em colocar nas matérias termos e expressões não permitidos pelo manual de Redação e num período em que regra era sinônimo de menstruação.


"O burro é ele e já está identificado"
, extremamente contrariado com um repórter policial, que narrara o atropelo de um burro e, em vez de escrever que não se sabia de quem era o animal, colocara que "até então, o burro não fora identificado".


"Nosocômio um cacete. Se minha mãe adoecer, eu não vou querer interná-la em nenhum nosocômio"
, reclamando de um outro repórter da Editoria de Polícia, que teimava em chamar hospital de nosocômio.


"Paulinho, você que é poliglota, vá resolver este problema, porque este alemão, que veio instalar a rotativa, arranha um inglês e os peões daqui da oficina mal português falam",
determinando que o repórter esportivo Paulo Brandão, que sabia bem inglês, servisse de intérprete para o técnico estrangeiro, que viera montar o maquinário importado pelo jornal.


"Vou ficar muito aborrecido se você me chamar de ancião, quando eu envelhecer. Bote na cabeça que, num texto jornalístico, velho é velho ou, no máximo, velhinho, jamais idoso ou ancião"
, advertindo um recalcitrante repórter da Geral.


"Puta que pariu... Você vai fazer a cobertura de uma passeata desta e não coloca uma linha sequer sobre o quebra-quebra da Polícia com os estudantes, na Ladeira de São Bento"
, apontando, para um iniciante repórter da Geral, onde deveria estar o lead da matéria.


"A noiva do Jaílson é colega de trabalho da Dona Amenaide, mãe do Wellington. Imagine que idade tem esta moça",
surpreso com a informação de que o repórter Jaílson Farias estava definindo a data do casamento.  


"Cadê Cavalão ? Será que foi preso de novo ?"
, preocupado com a ausência na Redação de Zé Sérgio Gabrielli, editor de Economia e hoje presidente da Petrobras, ativo participante do movimento estudantil no final dos anos 60 e início dos 70 do século passado.


"Precisamos acabar com este provincianismo de, aqui na Bahia, se chamar todo mundo de doutor. Nos textos da Tribuna, somente terá tratamento de doutor o médico e, mesmo assim, se ele estiver no exercício da profissão"
, orientando os alunos da Escolinha TB, numa época em que poucos brasileiros tinham curso de doutorado.


"Se o jornal sair hoje, amanhã a gente representa na Justiça contra Carlinhos, para ele dizer os nomes dos cronistas esportivos que estão em seu bolso"
, demonstrando que a Tribuna da Bahia não seria omissa em relação às comentadas declarações do presidente da Federação Baiana de Futebol, Carlos Alberto de Andrade, de que tinha jornalista da área de Esportes na folha de pagamento da entidade.


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 (Frases resgatadas por Antônio Matos e Paulo Brandão, jornalistas fundadores da Tribuna da Bahia e que trabalharam com Quintino de Carvalho).