quinta-feira, 26 de novembro de 2020

BENÇÃO DE MÃE HILDA AO ILÊ NA DITADURA MILITAR

Antonio Jorge Moura
22/09/2009 às 11:23
: AGECOM
Corpo de mãe Hilda sobe a Ladeira do Curuzu conduzido por filhos de santo
 Foi uma mostra da força e da pujança do povo de santo. Assim se deve definir a cerimônia de sepultamento do corpo físico de Mae Hilda, no cemiterio Jardim da Saudade, em Salvador, depois que ele saiu em um ataúde pelas ruas do Curuzu.

  "Nos preparamos há anos para este dia, mas nunca acreditamos que ele chegaria", disse a diretora cultural do bloco Ilê Aiyê, Arani Santana, durante o enterro. Seguem agora mais sete dias de rituais e homenagens, o axêxê, no terreiro Ilê Axé Jitolu, que ela comandou por 71 anos na Ladeira do Curuzu, bairro da Liberdade.
 

  Mãe Hilda estava internada desde o último dia 7 no Hospital Unimed, em Lauro de Freitas, com problemas cardíacos e pneumonia. Morreu na manhã de sábado, dia 19 e teve o corpo físico velado em casa. O governador Jaques Wagner esteve no velório, deu apoio à família e lamentou a perda da ialorixá, principalmente pelo trabalho social que realizou no bairro. Às 8h30 o caixão foi fechado saiu de casa acompanhado d e cantos em iorubá que evocavam os orixá.
 
  As entidades seguiram na frente do cortejo que subiu a ladeira até a entrada do Curuzu, um trajeto que normalmente é feito em tempos de alegria, quando Mãe Hilda abençoava a saída do Ilê no sábado de Carnaval.


  "Hoje, os orixás seguiram a frente, integrando minha mãe à sua última morada", explicou Vivaldo Benvindo, diretor do Ilê e um dos seis filhos biológicos de Mãe Hilda. Durante a passagem do cortejo, formado por aproximadamente 100 pessoas, todas vestidas com o branco de Oxalá, moradores do bairro chegaram à porta das casas, mas o silêncio respeitoso só era quebrado pelo canto em iorubá.

  As reações eram de choro, palmas e silêncio. Cada morador fez a sua homenagem à vizinha mais ilustre da rua. Em frente à Senzala do Barro Preto, sede do bloco e centro cultural que ela ajudou a fundar, os tambores soaram com apenas batidas fúnebres.


  "O que será do Ilê Aiyê? É uma pergunta que nós estamos fazendo", comentou Arani Santana. "Ainda vamos nos reunir para definir como será daqui pra frente. Mas uma coisa é certa: o trabalho não pode parar", completou Vovô, filho e presidente do Ilê.
 
  O corpo de Mãe Hilda foi sepultado no cemitério Jardim da Saudade sob salva de palmas, cantos e muita dor. Além de seus filhos biológicos e de santo, também acompanharam o adeus representantes de outros terreiros, do movimento negro e autoridades. Entre elas, o prefeito Henrique Carneiro que decretou luto oficial de três dias, deputados federais e secretários de Estado e do município. Todos saudaram e homenagearam  a ialorixá.


  A pujança da cerimônia fúnebre me remeteu ao inicio dos anos 70 do século passado, em plena ditadura militar pos-64 e primórdios do processo de organização do Movimento Negro da Bahia, quando Mãe Hilda deu sua benção a um grupo de jovens idealistas do Curuzu para que formassem um bloco afro exclusivo de pessoas negras, de cor, como se dizia na epoca. Entre esses jovens, além do filho Vovô, estavam o vizinho Apolônio e Tosta Gentil, militante do nascente MNU.

  Semanalmente se reuniam na Cantina  da Lua, de Clarindo Silva, onde tinham discussões homéricas com jornalistas como eu, Remulo Pastore, Tasso Franco, Daílton Mascarenhas, o radialista Silvio Mendes e outras figuras da área.


  Em função dessas conversas e dos debates acalorados que tínhamos propus a meu chefe de reportagem na sucursal do Jornal do Brasil, jornalista Victor Hugo Soares, uma pauta sobre o Carnaval Negro da Bahia. Gilberto Gil já estava engajado no resgate do Filhos de Gandhi. Moreno, filho de Caetano Veloso, já havia composto o hit em homenagem ao Yle. Entrevistei Caetano e ele definiu a opção exclusiva do Ylê pelo povo negro como Racismo  Anti-Racista. A matéria foi publicada pelo famoso Caderno B do JB.


  Toda vez que me refiro a esse período me lembro de uma prima que nasceu no Largo do Tanque, morou na Ladeira de São Cristovão, perto da escola Abrigo do Povo, e tinha vergonha de ir ao shooping dos anos 50 do século XX, a Rua Chile das Duas Americas e da Slooper. Com medo de passar pela vergonha de ser discriminada porque era negra .
   O racismo era forte na Bahia e esse fato explica porque Mãe Hilda deu sua benção aos jovens do Curuzu para criar o Ilê exclusivo do povop negro. Ela, sim,  foi  uma  revolucionaria em plena ditadura. E não precisou pegar em arma de fogo. Suas armas foram os orixá.


  Frequentávamos os ensaios do Ylê quando eles ainda aconteciam num terreno cedido por um morador do Curuzu, vizinho a casa de Mãe Hilda. Andavamos pela Liberdade de boteco em boteco sem medo de ser assaltado. Lembrei isso a minha amiga Arani Santana  enquanto ela chorava sua orfandade e do povo do Ilê.

  Salve Mãe Hilda! Salve o povo negro do Ilê! Força Vovô