quinta-feira, 26 de novembro de 2020

ANTOLÓGICA PEÇA O SERMÃO DO BOM LADRÃO

Padre Antonio Vieira
29/08/2009 às 07:24
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Furtam pelos modos optativo, conjuntivo, potencial, infinitivo e outros

  E-mail  recebido com trecho do sermão "O Bom Ladrão" do incomparável  Pe Antonio Vieira, como pregado agora na Catedral de Brasília. Com a ajuda das más línguas de hoje,  entendemos  o principal do sermão em estilo barroco do séc. XVII.


" Nas Índias, os governantes chamam-se sátrapas (Sat = assaz e rapio = eu roubo), porque costumam roubar assaz. E este assaz é o que especificou melhor S. Francisco Xavier, dizendo que conjugam o verbo rapio por todos os modos. O que eu posso acrescentar, pela experiência que tenho, é, que não só do cabo da Boa Esperança para lá, mas também das partes daqui, se usa igualmente a mesma conjugação. Conjugam por todos os modos o verbo rapio;


- porque furtam por todos os modos da arte, não falando em outros novos e esquisitos, que não conheceu Donato, nem Despautério.


- Tanto que aqui chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos antigos, é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo.


- Furtam pelo modo imperativo, porque como têm o mero e misto poder, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina.


- Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam; e para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos.


- Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem; e gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia sem vontade as fazem suas.


- Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito; e basta só que ajuntem a sua graça, para serem, quando menos, meeiros na ganância.


- Furtam pelo modo potencial, porque sem pretexto, nem cerimônia usam de potência.

- Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões.


- Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre aqui deixam raízes, em que se vão continuando os furtos.


- Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas; porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus auxiliares e as terceiras, quantas para isso têm industria e consciência.


- Furtam juntamente por todos os tempos, porque o presente (que é o seu tempo) colhem quanto dá de si o mandato;


- e para incluírem no presente o pretérito e futuro, do pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões e dívidas esquecidas, de que se pagam inteiramente; e do futuro empenham as rendas, e antecipam os contratos, com que tudo o caído, e não caído lhe vem cair nas mãos.


- Finalmente, nos mesmos tempos não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plusquam perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais se mais houvesse.


- Em suma que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar.


- E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e o miserável povo suportado toda a passiva, eles, como se tiveram feito grandes serviços, tornam a seus Estados carregados de despojos e ricos; e ele fica roubado, e consumido.


É certo que o Governo não quer isto, antes mandam em seus Ministros tudo o contrário; mas como as patentes se dão aos gramáticos destas conjugações tão peritos, ou tão espertos nelas; que outros efeitos se podem esperar dos seus governos? Cada mandato destes em própria significação vem a ser uma licença geral in scriptis, ou um passaporte para furtar".