quinta-feira, 26 de novembro de 2020

IDÉIA DO CONDOMÍNIO TERRA PROSPERA NA EUROPA

José Roberto Berni
17/08/2009 às 12:03
Foto: efe
Marketing política reorienta a carreira do presidente da França, Nicolas Sarkozy
  A idéia da União Européia é uma vitória da economia sobre a política. O euro é a moeda oficial em 27 países. Com a crise, até a Inglaterra já admite ter a libra desvalorizada sobre o que resta sobre o euro. Grossíssimo modo, o euro foi criado para enfrentar o dólar - uma decisão econômica, e não para criar uma única nação européia - o que seria uma decisão política.


   Isso talvez explique a grande abstenção nas eleições de junho para o Parlamento Europeu, um parlamento que ninguém sente como se fosse seu. Mais de metade faltou (56,5%) e no leste europeu a abstenção rondou os 80%. Isso significa que, apesar da moeda comum, as questões políticas européias não estão na agenda dos europeus. A política perdeu vigor a começar pelo sistema eleitoral que montou. Nessas eleições o eleitor de cada país vota na lista do seu partido nacional, que depois se junta a outros, numa espécie mal definida de conglomerados políticos que são os partidos europeus.


  Assim, o Parlamento Europeu ainda é uma realidade distante dos eleitores, apesar de tomar decisões que afetam o dia-a-dia de todos, especialmente em questões econômicas. Mas, ao mesmo tempo, o Parlamento tem poderes limitados, pois não pode tomar decisões que afetem a soberania de cada Estado-membro. A construção de uma futura constituição ou mesmo um estatuto que daria contornos jurídicos às instituições européias não foram temas tratados na eleição de junho. O bloco dos partidos conservadores manteve maioria sobre os sociais-democratas. O bloco dos partidos verdes foi o único que cresceu.


  Com a crise nas ruas, é possível que a economia continue a prevalecer sobre a política na Europa nos próximos anos.



  Depois da Comunidade Européia,
  vem aí o Condomínio Terra.


Política e economia são parceiros inexoráveis. A idéia do euro e da Comunidade Européia foi uma decisão econômica: juntos seremos fortes. A idéia da criação do Condomínio Terra seria uma decisão política: juntos manteremos a vida humana no planeta. Exagero? Infelizmente, não. A vida tal qual a conhecemos pode estar ameaçada.

A concentração de CO2 aproxima-se dos níveis a partir dos quais alguns impactos graves são irreversíveis. Uma nova era biológica seria inevitável e o ciclo da vida teria um novo início na Terra, bem mais simples que o atual, diz o cientista português Miguel Bastos Araújo, do Centro de Estudos Ambientais da Universidade de Oxford. Traduzindo: há o risco de voltarmos ao estágio das amebas.


A experiência da criação de uma instituição supranacional, como a Comunidade Européia, sem limites geográficos, com denominadores sociais, políticos e econômicos comuns, pode ajudar a estabelecer valores também para os benefícios proporcionados pela biodiversidade. "A dificuldade está em quantificar a importância dos serviços econômicos prestados pela biodiversidade e pelos ecossistemas", diz Miguel Araújo. Em entrevista à revista Visão, de Portugal, ele diz acreditar que "estamos perto de reconhecer o papel das florestas nas alterações climáticas". Ou, digamos, o valor econômico da preservação da Amazônia para o planeta, explicitado em moeda corrente.


Nós, brasileiros, deveríamos incentivar calorosamente a instituição do Condomínio Terra e o estabelecimento desses valores, antes que o façam sem nós. Cresce entre as nações a idéia que o direito à propriedade de algo que traga benefício para o planeta, como as florestas tropicais, inclui regras para assegurar a boa gestão dos recursos naturais. Se não tomarmos conta direito, cedo ou tarde o farão por nós.


A idéia do Condomínio Terra terá fortes contestações, pois implica em concessões de soberania e a criação de instituições de governo global - e aí a experiência da Comunidade Européia pode ajudar a avançar quadras no tabuleiro político internacional. As instituições européias têm poderes limitados, que não podem por em risco a soberania de cada país-membro. São instituições ainda em formação e podem servir de modelo para a constituição do Condomínio Terra. "Algo tão arrojado gerará resistências, mas não há outro caminho", prevê o cientista português de Oxford.



Pátria Basca e Liberdade


Essa é a tradução do slogan do ETA: Pátria Basca e Liberdade - no único idioma ibérico que resistiu ao latim. Como os gauleses da aldeia de Asterix, os romanos não conseguiram dominar a região norte da Espanha, onde vivem os bascos. Hoje, dois mil anos depois, a resistência, agora aos espanhóis, continua.


As duas últimas vítimas foram dois guardas-civis mortos numa explosão detonada por controle-remoto, nas ilhas Baleares, pérolas do turismo espanhol, no primeiro dia da abertura da alta estação. Política e economia - uma coisa não existe sem a outra. O alvo foi preciso: a Espanha é o segundo país que mais recebe turistas, depois da França, e o setor é responsável por 15% do seu PIB.


Dois dias depois do atentado, na porta do museu Guggenhaim de Bilbao, capital do país basco, simpatizantes do ETA distribuíam folhetos divulgando sua causa: a possibilidade de se tornar um país independente, "como en Irlanda o en Timor Este, si asi lo desea la mayoria". A argumentação é panfletária: El Pueblo Vasco reclama democracia y liberdad: poder decidir livre y democraticamente su futuro. No obstante, los Estados español y francés niegan tal possibilidad y recurren a la represión ... Sim, há um território basco na França, como há também um território catalão. (Para saber mais: http://www.ezkerabertzalea.info/.)


O governo espanhol diz que o ETA está no fim e que seus principais líderes estão presos. A batalha da opinião pública foi irremediavelmente perdida há 30 anos quando a organização optou pela estratégia de atos terroristas que já causaram mais de 800 mortes. A imagem pública da organização é a de um bando de pirados parados no tempo. Os jovens querem distância deles e apenas alguns mais velhos ainda falam no desejo de independência, no conforto de suas polpudas pensões e benefícios sociais.


Depois da morte de Franco, em 1975, o novo regime, em nome da unidade da nação, se viu obrigado a fazer concessões políticas e econômicas com a criação de regiões autônomas - umas mais ricas, como a Catalunha e o País Basco, vizinhos ao norte, outras mais pobres, como a Andaluzia e a Mancha, vizinhos ao sul.  Como conseqüência, hoje, bascos e catalães ficam com metade dos recursos distribuídos entre todas as regiões do país. E onde há dinheiro, há ambição pelo poder.



E agora, Sarkozy: hiper-presidente
ou presidente durável?


O índice de popularidade do presidente Nicolas Sarkozy melhorou depois do peripaqui que teve no último domingo de julho quando corria nos jardins de Versailles. Ficou dois dias no hospital, saiu de mãos dadas com sua senhora e um discreto curativo no pulso. Só a foto lhe garantiu alguns pontinhos, Carla Bruni tem ajudado muito nisso.


Enquanto o presidente descansa na casa de verão dos Bruni, no sul da França, os marqueteiros do Elysée trabalham sobre as duas hipóteses. Sarkozy seria capaz de manter o ritmo dos primeiros anos ou, como o próprio planeta, sua energia teria limites? Ou seja: manter o mito de "hiper-presidente" (correndo, viajando, se envolvendo em todas as decisões do governo, num esforço de modernizar o país) ou começar a cultivar um novo perfil (mais maduro, preocupado com o meio-ambiente e questões sociais) para disputar a reeleição em 2012. A própria desaceleração da economia global indicaria esse caminho. À falta de melhor designação, chamaram esse novo modelo de "presidente durável".


Segundo o sociólogo Denis Muzet, do instituto Mediascopie, o cenário de um presidente duradouro parece ganhar consistência, ao construir um novo discurso político, com a convergência da economia com a ecologia e com as camadas sociais mais carentes. Sem abrir mão das reformas, a agenda presidencial deixaria de ser do tipo ‘tudo-ao-mesmo-tempo-agora' a favor de um calendário com hierarquização de prioridades. Como disse ao Le Monde, Mr. Muzet aposta que esse novo paradigma será testado a partir de setembro.


Nicolas Sarkozy conta com um grande aliado para se reeleger: a incompetência da oposição. Os socialistas estão batendo cabeça desde que Ségolène Royal perdeu a eleição há dois anos por apenas três pontos percentuais. Houvesse hoje nova eleição, a diferença a favor de Sarkozy seria maior.


Greve de fome no restaurante
Chez Oscar, em Paris


Reportagem do Le Parisien mostrou uma cena rara: uma greve de fome de garçons e cozinheiros do restaurante Chez Oscar. Acampados na porta do restaurante, em pleno Boulevard Beaumarchais, reclamam de salários atrasados e acusam o gerente de insultos racistas e situações vexatórias. Eles agüentam, dizem, porque são imigrantes ilegais, apesar de quatro deles terem mais de cinco anos de casa. Há dias o gerente sumiu e o tal Oscar nunca apareceu.


Pra não perder um filé desses, a central sindical CGT produziu rapidamente o acampamento dos grevistas com colchonete, mesinha, megafone, água e cafezinho, além de passar o chapéu entre os transeuntes para "sustentar aquelas famílias até o fim do movimento". Como a notícia é da semana passada, é bem provável que a greve tenha terminado e o tal Chez Oscar tenha reaberto com os mesmos garçons e cozinheiros grevistas. O patrão precisa deles porque não há francês que queira ganhar o que ele paga, e eles precisam do patrão porque não conseguiriam coisa melhor.


O crescimento populacional da Europa se dá a base de imigrantes. Há 2 milhões de bolivianos na Espanha. Dizem que em Londres vivem 300 mil brasileiros para os quais são editados dois jornais semanais. A União Européia tem hoje 499,8 milhões habitantes, cresceu 2,1 milhões em um ano, sendo 1,5 milhão de imigrantes. A taxa de natalidade aumentou em todos os países, menos na Alemanha.



Vinho biológico: você ainda
vai experimentar um.


Comprei duas garrafas de vinho tinto feitos com uvas produzidas biologicamente, ou seja, de acordo com as regras da natureza, e convidei uma amiga ‘quase' enóloga para avaliar a qualidade da bebida. Ela deu nota 6,5 para um pinot-noir Pech-Rouge 2007 e nota 7,0 para um bordeaux Château de Lagarde 2008. Um sucesso, então, pensei. Em termos, esnobou ela, "ainda precisam de muito terroir".


Se levados a júri de especialistas é provável que as notas fossem menores. Afinal são vinhos relativamente baratos, de 15 euros a garrafa no supermercado. O interessante é que os vinhos biológicos estão ganhando mercado exatamente pela qualidade aceitável e pela produção ecologicamente recomendável.


Até os anos 50 os vinhos eram produzidos sem pesticidas ou produtos sintéticos. Não só os vinhos, praticamente toda a agricultura era biológica. Com o argumento de que seria necessário produzir mais alimentos para mais pessoas, a agricultura passou a depender de fertilizantes e insumos químicos, cada ano mais que o anterior. Por isso, os defensores da agricultura orgânica dizem que essa é uma questão de sobrevivência: a agricultura convencional é suicida, vai nos levar a um beco sem saída.


Monsieur G. Giniès é agricultor de uva e azeitonas há 60 anos em Piégon, sul da França, e desde 1990 é um produtor com certificação biológica. O período de conversão da agricultura convencional para a biológica foi de três anos. O controle do solo e dos produtos é feito anualmente pela organização Agriculture Biologique. "Nós protegemos os consumidores oferecendo produtos de qualidade que respeitam o meio-ambiente", diz Rémi Giniès, o neto que mantem a tradição da família. Eles vendem tudo o que produzem e conseguem rendimento maior que seus vizinhos: 4.500 litros por hectare.


Ibéria, ‘E pour si muove'


El País publicou em julho uma pesquisa que mostra que a idéia a formação da Ibéria ganha terreno. A união de Portugal e Espanha formaria uma nação com 57 milhões de habitantes e seria o país de maior território da União Européia. 40% dos portugueses apóiam a idéia de constituir uma nação com os espanhóis, 34% são contra e 18% são indiferentes. Do lado dos espanhóis, 30% aprovam a idéia, 30% são contra e 29% nem apóiam nem desaprovam.


El Barômetro de Opinión Hispano-Luso é o primeiro estudo sobre o que pensam sobre o assunto os cidadãos dos dois lados da fronteira, feito pelo Centro de Análises Sociais da Universidade de Salamanca. Comparando-se com pesquisa similar publicada em 2006 pela revista lisboeta Sol, há um avanço considerável em favor da união: há apenas três anos, 28% dos portugueses eram a favor e agora já são 40%.


A idéia já foi aventada, anos atrás, pelo escritor José Saramago, único Nobel que escreve em português. Ao comentar El Barômetro a pedido do El País, Saramago lembrou que foi acusado de perjúrio e traição à pátria quando propôs que se pensassem na idéia. "O futuro já está escrito, o que ocorre é que ainda não temos sabedoria necessária para lê-lo". Lembrou que Galileu foi obrigado a desmentir sua teoria de que a Terra gira em torno do Sol, mas que, ao fim da abjuração, sussurrou: E, no entanto, se move. "A frase tem aqui perfeito encaixe. Sim, Ibéria. E pur si muove".



      Refeições a 1 euro


A Espanha é o país da União Européia que mais cresceu na última década e como conseqüência é o país que mais sofre com a crise econômica. Cerca de 20% da sua população ativa está desempregada. É muita gente. O Estado paga salário aos desempregados durante até dois anos, mas isso está causando um enorme rombo no até então saudável tesouro espanhol.


Esse cenário de desassossego se reflete nas redes de supermercados. As redes tradicionais da França, da Espanha, de Portugal estão sentindo a invasão de concorrentes vindos da Alemanha, da Suécia, da Holanda, com produtos de marcas desconhecidas e preços mais baixos.


Para enfrentar a rede alemã Lidl, a rede francesa Carrefour lançou na Espanha uma campanha que sugere um cardápio de 1 euro por pessoa X 4 pessoas X 7 dias = 28 euros por semana por família. Na entrada das lojas há folhetos com os produtos da semana com os quais teoricamente é possível compor uma refeição a 1 euro por pessoa, incluindo batata, arroz, macarrão, verduras, legumes, conservas, ovos, carnes e peixes congelados, algumas frutas.


A única novidade no almoço da família é que vão acabar as sacolas plásticas para as compras. O governo espanhol quer reduzir pela metade o uso de sacolas descartáveis, num calendário progressivo até sua proibição definitiva. Cada espanhol consome 238 bolsas plásticas por ano, com tempo de uso médio de 15 minutos, mas cada sacola leva 400 anos para se integrar de novo à natureza. Na França tais sacolas já são pagas e os carrinhos de compras estão de novo na moda.



França e Espanha proíbem publicidade
em emissoras do governo


Nos últimos doze meses, os governos da França e da Espanha decidiram que as emissoras de televisão e rádio do Estado não devem ter publicidade comercial privada. Em ambos os casos, a iniciativa partiu do próprio governo. Em ambos os casos, o governo ampliou os orçamentos das emissoras com o que era arrecadado no mercado.


A pergunta que não quer calar é a seguinte: por que os governos da França e da Espanha afastaram os anunciantes privados nos veículos do Estado, enquanto o governo brasileiro faz exatamente o oposto, buscando verbas no mercado para as emissoras estatais?


Os governos europeus dizem que suas emissoras não devem concorrer com as privadas, nem pelas verbas, nem pela audiência. Ocorre que a maioria das emissoras públicas são líderes de audiência na Itália, Portugal, Espanha, França, Inglaterra, para citar os principais mercados. São emissoras que sempre tiveram orçamentos fortes, o que se reflete numa grade de programação que garante audiência. O mercado publicitário veicula comerciais nas emissoras públicas buscando exatamente esses altos índices de audiência. A partir de setembro não poderá mais, exceto os anunciantes com contratos até dezembro.


O governo brasileiro e os governos estaduais proprietários de rádio e televisão caminham no sentido oposto. Os veículos do Estado são estimulados a reforçar seus orçamentos com anunciantes privados, com a justificativa de compor uma programação com maior qualidade e penetração popular.


Os que são favoráveis à exclusão dos anunciantes privados nas emissoras públicas argumentam que isso fortalece a liberdade de expressão e garante ao povo informações isentas de manipulação.  Os que são contra usam o argumento exatamente inverso: trata-se do controle total do Estado sobre o conteúdo editorial. Os mercados publicitários espanhol e francês lamentaram, em nota, a exclusão dos anunciantes privados nos veículos públicos.