quinta-feira, 26 de novembro de 2020

NEGO FUGIDO LEVA PRÊMIO DO MELHOR CURTA BRASILEIRO

Josias Pires
02/08/2009 às 20:23
Foto: Adenor Gondim
Representação folclória do Nego Fugido de Acupe, Recôncavo da Bahia
  (Por Josias Pires)

O filme Nego Fugido (Claudio Marques e Marília Hughes, Salvador, 2009) levou o prêmio de melhor curta brasileiro do Seminário de Cinema, realizado em Salvador na semana de 27 de julho a 1o. de agosto.

Em cena a presença de dois jovens "estrangeiros" (Leonardo França e Paula Carneiro) no espetáculo Nego Fugido, teatro de rua tradicional do povoado de Acupe, no município de Santo Amaro da Purificação. O jovem é um músico, toca acordeon, é branco; a jovem também branca aparece com uma câmera de vídeo registrando a manifestação popular. O jovem é ator; e decide participar da manifestação por dentro, pinta o seu próprio rosto com o carvão e o pinche que são usados para fazer as máscaras dos caçadores e negros fugidos da representação do Recôncavo da Bahia.


Montagem ágil, clipada, câmera nervosa, o filme capta a força colorida e lúdica do Nego Fugido e nos comove. O ator realça na sua atuação o traço servil do escravo: eles saem às ruas, amarrados, pedindo dinheiro as sinhás para comprar cartas de alforria.


Antes disso, ou seja, da cena com o ator no peditório, o filme problematiza a questão do pagamento sobre direitos de imagem. "Mas Sinhá, fique sabendo que pra filmar aqui tem que ter money, money sinhá!!", diz um Nego Fugido, armado, olhando para a câmara - ou seja, para nós espectadores. Um olhar arrogante, cheio de auto-estima e revelador de conhecimento que tem dos seus direitos.


Curioso é que a força da exigência para defender o direito de imagem não parece ser o mesmo que se vê na representação do peditório de rua, quando se suplica, humildemente, pelo dinheiro das iaiás.


- Assim não dá, isto tudo para representar este servilismo? Parece nos indicar a representação do ator branco que encena a crítica ao espetáculo do Nego Fugido.


A temática é relevante. Quem milita no campo do espetáculo popular sabe que a introdução do dinheiro para garantir apresentações de grupos tradicionais populares da cultura modifica a relação com a comunidade, com o folguedo (muitos chamam de brinquedo) e entre as pessoas que participam da sua realização. Não são poucos os grupos que deixaram de apresentar-se como um ritual, nas datas e circuitos/lugares tradicionais, passando a vender as apresentações para diversos interessados nos mais diferentes lugares. Contudo, deve-se considerar, no caso do Nego Fugido, que a montagem do espetáculo envolve o dispêndio de muitos recursos da comunidade, formada sobretudo de marisqueiros, pescadores, lavradores e pequenos funcionários.


A outra questão é que, em geral, o espetáculo popular reproduz também aspectos do imaginário do opressor. A busca da liberdade, o fim da escravidão foram processos complexos. Se as elites senhoriais tinham, muitas vezes, desprezo para com os negros, estes valiam-se das mais diferentes estratégias para sobreviver na sociedade escravista; até mesmo obter aliados entre os brancos. Alguns buscavam meios de integração e outros de ruptura.

Os que fugiam foram negros que prezavam a liberdade e estavam dispostos a morrer por ela. Ainda que, muitas vezes, negros tenham escravizados outros negros e que o servilismo impedia a tomada de consciência do valor da liberdade. O espetáculo do Nego Fugido, em que pese uma aparência de integração à ordem, na medida em que exalta também a figura da princesa Isabel, na verdade representa uma gama multifacetada de significados.


Quando a TV Educativa da Bahia esteve em Acupe, no final da década de 1990, para fazer gravações para a série Bahia Singular e Plural, a questão do dinheiro, evidentemente, esteve presente e foi colocada de pronto por D. Santa, a madrinha do grupo, a sua representante para assuntos diversos.

A TVE colaborou com d. Santa para a compra da indumentária, figurino e adereços do espetáculo. Ela argumentou sobre o volume de despesas para renovar o estoque de espingardas e pólvora, adquirir chapéus e roupas de couro, armas, alpercatas para os soldados, para o rei, para os caçadores, os produtos para as pinturas, as roupas dos meninos que fazem os negros fugidos e os meninos da música - enfim, é uma produção que exige mobilização grande e decidida.


Na época, entendeu-se que foi uma negociação correta, necessária, justa e adequada para a comunidade e para os interesses de registro da emissora.


O filme "Nego Fugido", de Cláudio Marques e Marília Hughes, busca dar conta deste tipo de relação e acaba por nos revelar um grupo que parece ter adquirido consciência viva sobre direitos de imagens, e faz questão de proclamá-la, situação que contrasta com a representação da época escravista, quando alguns negos fugidos saíam, humilhados, pedindo de casa em casa um dinheirinho para comer e ganhar alguma liberdade.



Cinema é câmera e ação.


O baiano-carioca Muniz Sodré foi um dos conferencistas da extensa programação de palestras do Seminário. Ele trouxe à baila uma instigante intervenção política, falando numa mesa sobre cinema e filosofia. Num pensamento lastreado na filosofia da práxis, Sodré lembra que o projeto político do Cinema Novo, que na sua vertente mais radical percebia a centralidade da revolução estética como única possibilidade de sucesso da revolução política, ajudou a apontar os limites da democracia parlamentarista liberal.


Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1962) e Os Fuzis (Ruy Guerra, 1969) buscam um projeto de transformação profundo da cultura brasileira, uma revolução política e cultural. Mas lembra Sodré que, depois da derrota da esquerda, da ditadura e do retorno à democracia prevaleceu, sobretudo com FHC, o peso do famoso "Centrão" na política brasileira. Peso que, infelizmente Lula e o PT ainda não conseguiram superar, como estamos vendo neste momento em Brasília e na Bahia.


Sodré refere-se a uma palestra de André Badieu, proferida há cerca de dez anos num seminário na UFMG, em Belo Horizonte, quando ele chama a atenção para as dificuldades de articulação entre os cidadãos/eleitores - as representações partidárias - e o Estado. Esta relação fundamental dá-se apenas na hora do voto. E isto é muito pouco.

A democracia liberal parlamentarista tem demonstrado com muita evidência os seus limites e tende a gerar crises como a que estamos assistindo neste momento, quando a mídia faz o desmonte da imagem de Sarney: é como se estivesse caindo de podre uma conhecida prática política colonial que se estendeu pelo império e pela república brasileira, ainda muito presente hoje. E sabemos que Sarney é apenas uma gota de água na ponta do iceberg


Se o desejo e o projeto coletivo dos eleitores não se transformam em plataformas de ação das representações partidárias, quais são os projetos que estas se engajam e defendem junto ao Estado? Estado que precisa, com urgência, renovar-se, mas está enlaçado em mil dificuldades para engendrar outras práticas. Como colocar no lugar de um circuito vicioso a ação construtiva de um círculo virtuoso?


Não se trata de suprimir as eleições, obviamente, alerta Sodré. Contudo, é preciso admitir que a democracia participativa é o melhor dos sonhos. Democracia radical, que construa o controle social sobre as instituições e as políticas, que retire das elites o privilégio da decisão sobre o Estado, que invista e libere a criatividade artística. Democracia que só teremos se for praticada, buscada, exercitada, vivenciada em todos os momentos da ação política e estética.


É uma luta revolucionária, sim. As mudanças que a maioria da população brasileira almeja - ainda que sem articulação política suficiente para fazer valer esse projeto imaginário - encontram partidos e Estado articulados em torno de interesses econômicos poderosos. É uma luta gigantesca. Em que medida o cinema político atual reflete sobre isso?


Lembra Muniz Sodré que o cinema brasileiro adquiriu alta qualidade técnica, mas adotou, em larga medida, a linguagem publicitária. Os filmes curtos e os documentários continuam sendo campos por excelência para experimentar a estética do cinema, buscar inovações de linguagem e alternativas, inclusive, ao grande cinema narrativo clássico.


Observadores do Seminário destacam a qualidade dos filmes curtos exibidos no certame. É sabido que a produção de filmes na Bahia tem crescido nos últimos anos graças a fatores como a existência de um curso de cinema e vídeo numa faculdade privada e, obviamente, pela facilidade atual de aquisição de equipamentos para captar e montar sons e imagens. Está se constituindo uma nova geração de cinéfilos e realizadores com potencial inventivo que precisa ser valorizado e já mostrou que tem méritos.


Do filme que ganhou o prêmio de melhor curta baiano do Seminário, Cães, deve ser ressaltada a sua qualidade artística, pela excelência da fotografia, da direção de arte, da atuação dos atores e pelo roteiro, inspirado em um conto do escritor mexicano Juan Rulfo, de tonalidade surrealista no meio da caatinga de Uauá, no sertão baiano, locação do filme.