quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O ARCEBISPO DE COCOS

Tasso Franco
06/04/2009 às 11:01

Foto: Foto: Secom MG
Dom Walmor e o governador de Minas Gerais, Aécio Neves
 

                De acordo com o Direito Canônico, um arcesbispo ao completar 75 anos de idade, deve, como fez o primaz da Bahia, dom Geraldo Majella Agnelo, nascido em Juiz de Fora, MG, em 19 de outubro de 1933, comunicar ao Sua Santidade o Papa a formalidade da aposentadoria. Isso não significa dizer que, na próxima semana, virá um novo arcebispo para a Bahia, até porque, dom Geraldo está em plena saúde e não haveria motivos imediatos para sua substituição.


               A propósito, em relação aos dois cardeais que o antecederam, Dom Avelar Brandão Vilela (1971/1986) e dom frei Lucas Moreira Neves (1987/1998), o primeiro faleceu em Salvador, aos 74 anos de idade, depois de padecer de problemas coronários; e o segundo morreu na cidade do Vaticano, de câncer, aos 76 anos, deixando a Bahia em 1998 por convocação de João Paulo II para ser prefeito da Congregação dos Bispos e presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina.


                Nesses casos, portanto, houve uma certa urgência da Igreja em indicar o novo arcebispo primaz, cajado que vem sendo empunhado por dom Geraldo desde 13 de janeiro de 1999, data de sua nomeação pelo papa, com posse canônica dia 11 de março. Não há essa necessidade prima da Igreja em fazer a substituição a já houve casos precedentes no Brasil, dom Evaristo Arns, e dom Eugênio  de Araújo Sales, este último ficando no cardinalato do Rio após 80 anos de idade, depois de ter passado na Bahia (1968/1971), e ser administrador apostólicos "Sede Plena" 1964/1968.


                Que dom Geraldo, assim Deus queira, tenha saúde para ficar mais tempo no comando da arquidiocese da Bahia, ainda que, como está no Evangeliário ninguém é eterno e transita-se na terra numa passagem. Daí porque, nesse passagem, fala-se numa primeira instância jornalística (não é palavra da Igreja)  que dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte, baiano de Coco, seria um nome cotado e à altura para assumir o arcebispado primaz da Bahia.


                Por coincidência ou não, dom Walmor foi consagrado bispo auxiliar de Salvador em janeiro de 1998 na catedral de Juiz de Fora, sendo oficiante o cardeal dom frei Lucas Moreira Neves. E depois é nomeado cardeal de Belo Horizonte já na era Dom Geraldo. É um bispo, portanto, que além de ser um dos mais destacados biblistas da igreja no Brasil, compreende e fala oito línguas, é contemporâneo, carismático e baianao. Há, portanto, um bairrismo confesso nessa crônica porque, até agora, desde que a Diocese foi fundada em 10 de novembro de 1549, pelo papa Júlio III, somente um bispo da Bahia assumiu o comando da Arquidiocese.


                Ademais, há o emblema de que dom Walmor é natural de Cocos. Estive em Cocos em 1986 durante a campanha política ao governo da Bahia. Pense, literalmente, no Cofins de Guimarães Rosa. A terra onde se pode dizer que o vento faz a curva. Naquela época, uma pobreza impressionante, chocante. Um interior da Bahia tão distante que as referências mairoes estavam com Minas Gerais, Goiás, menos com a Bahia. E foi nessa terra que nasceu dom Walmor, em abril de 1954, imaginem então o cenário, sem energia elétrica, sem saneamento, sem médico, a 1.000 km de Salvador, época dos caciques políticos Antonio Balbino e Juracy Magalhães.


                Os 11 primeiros anos de vida o garoto Walmor passou em Cocos. Em 1966, aos 12 anos de idade, ingressou no Seminário Diocesano São José, em Caetité, sertão da Bahia; transferindo-se para Seminário Arquidiocesano Santo Antonio, em Juiz de Fora, MG, para concluir o clássico (1970), seguindo com estudos de filosofia (1972) e depois na Faculdade Dom Bosco, de São João Del Rey. Segue para bacharelato em teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma (1977), mestrado em Ciências Bíblicas, Roma (1978/1980) com extensão no Instituto Bíblico da Universidade Hebráica, Jerusalém (1979) e doutorado em teologia na Gregoriana de Roma.


                Suas atividades pastorais e acadêmias estão vivenciadas em Minas, Rio de Janeiro e Bahia, aqui como bispo diocesano até que retornou a Minas como arcebispo de Belo Horizonte. Tem apenas 45 anos de idade e uma carreira promissora pela frente. Se chegar a arcebispo primaz do Brasil, imediatamente se agrega a congregação cardinalística que elege o papa, e passa a integrar, como aconteceram com dom frei Lucas e dom Majella com indicações e/ou citações para ser o papa.


                Nunca na história da igreja católica um latino americano sagrou-se papa. É tradição de 2000 anos que o cajado de Sua Santidade seja honrado por um europeu, de preferência italiano, sede da Cidade do Vaticano, dos seus principais institutos teológicos e das congregações, a base secular da igreja. Mas, tudo pode acontecer um dia, até um papa de Cocos. Seria a glória infinita.


                Enquanto essa glória não vem, a Igreja faria um bem enorme a Bahia se indicasse dom Walmor arcebispo primaz do Brasil. Seria o segundo baiano em tal função (o primeiro foi dom Antonio de Macedo Costa - 1890/1891) e Cocos entraria para a história da Igreja e, até de certo modo, na história da Bahia.