quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

A CULTURA NACIONAL E A DENTIÇÃO NA VELHICE

William Chagas
26/03/2009 às 18:21
Ilustração
O século XXI não admite a imagem da dentadura postiça posta no copo com água
  A imagem do vovô ou da vovó colocando a dentadura postiça dentro de um copo de água em cima da mesinha de cabeceira da cama não tem nada a ver com o século XXI. Até meados do século XX era plausível, embora o envelhecimento não seja exclusividade dos tempos modernos.

  Mas só nos últimos anos que se tornou comum visível numa sociedade que se declarava jovem e de jovens. Hoje os idosos formam um grupo diferenciado que requer um olhar diferente do restante da população, principalmente porque eles podem ter consigo doenças que interferem na sua qualidade de vida .

   Aspectos odontológicos da velhice, como cáries, diminuição de saliva, falta de dentes, etc têm que ser visto e tratado de maneira integral junto com outras áreas (medicina, nutrição, fisioterapia e terapia ocupacional) considerando a sua saúde como um todo, já que os problemas dentários podem comprometer todo corpo humano.

   A Gerontologia tem um desafio primordial: o foco das preocupações deve ser para além das doenças e problemas relacionados ao envelhecimento; gerar conhecimentos para entender as alterações progressivas não-patológicas, biológicas, sociais; e como elas influenciam o status funcional dos indivíduos.

   O objetivo deste conhecimento deve ser o envelhecimento com qualidade de vida. É imprescindível fornecer ao idoso um engajamento pleno na vida, através da manutenção e intensificação das funções físicas e cognitivas, incluindo as atividades produtivas e as relações inter-pessoais.

    O processo de envelhecimento brasileiro é o maior desafio para garantir os atuais e futuros níveis de bem estar da população. Essas peculiaridades requerem especial atenção na formulação de políticas sociais destinadas a garantir as condições mínimas de bem estar aos idosos no Brasil A saúde bucal tem sido relegada quando se discute saúde da população idosa.

   A perda total de dentes ainda é aceita pela sociedade como algo normal e não como reflexo da falta de políticas preventivas voltadas principalmente à população adulta.

  A maioria da população idosa brasileira tem dificuldade de acesso aos serviços odontológicos devido as suas condições sócio-econômicas, aliadas à escassez de serviços públicos disponíveis.

   A cultura da nossa sociedade criou a "dentição desnecessária na velhice". A maioria da população idosa não costuma freqüentar os consultórios dentários e quando o fazem é para extração de um dente que não tem mais solução. A saúde bucal é relegada a um plano secundário em idosos.
 
    Mais do que aparente descaso dos idosos para com o tratamento dentário existe na verdade uma série de aspectos que interferem na realização do tratamento. Aspectos culturais, psicológicos, sociais, econômicos e outros são alguns fatores que interferem na saúde bucal do idoso, prejudicando-o na sua qualidade de vida.

    Numa visão gerontológica, o Odontogeriatra tem que atuar com outros profissionais, pois muitas vezes pacientes apresentam problemas cognitivos, temporários ou permanentes, depressão, demência dificultando a comunicação do Odontogeriatra com o idoso. Deve-se buscar um diálogo claro com o paciente idoso, entendendo suas expectativas o que aumentará significativamente o sucesso do tratamento.

   O profissional da odontologia deve se ater a observar não tão somente o meio bucal, mas também para o aspecto geral do paciente, seu estado postural, como se locomove o tônus facial, complementando com uma boa investigação do seu histórico de saúde. Existe o chamado ciclo mastigatório que é constituído por uma série de movimentos dos alimentos dentro da boca antes da ingestão.

    A participação dos dentes é fundamental, pois além de cortá-los, depois triturá-los, tornando mais fácil a ação da saliva sobre o bolo alimentar. A mandíbula, único osso móvel da face, ao fazer passar o bolo alimentar diversas vezes sobre as superfícies dos dentes reduze-o à forma semipastosa que é necessária para o início da digestão.
 
   Estas movimentações não são de forma aleatória; seguem ciclo: os alimentos são apreendidos, dilacerados, triturados, adquire forma pela ação da língua, músculos e bochechas, antes de ser ingerido. Um idoso que apresente total ou parcialmente sem dentes terá dificuldade no trabalho do bolo alimentar, obriga-o a procurar outros alimentos mais adequados à eficiência mastigatória agora existente, a maioria com conteúdo proteico crítico ou muitas vezes inexistente, o que torna ainda mais graves os casos de debilitação observáveis.

   Promover a saúde significa estarmos aumentando a qualidade de vida do indivíduo, ou seja, proporcionando ao mesmo a sensação de ausência de dor, equilíbrio psíquico e social além de melhoria da auto-estima. Uma boa saúde oral influencia algumas dessas metas, pois elimina dores orofaciais, melhora a mastigação, facilita a ingestão/digestão de alimentos adequados para a idade, e comunicação, aumentando a auto-estima e diminuindo o número de doenças.

  Observa-se que os idosos que são reabilitados com próteses têm um aumento de sua auto-estima, o que lhe proporciona uma maior convivência social, afastando-se muito das depressões que são causadas pelo isolamento. A Odontogeriatria será a especialidade do futuro na odontologia. Colaboram alguns aspectos estratégicos, tais como englobar quase todas as especialidades da odontologia, além de atuar em uma faixa etária em franca ampliação. Por outro lado, exige-se do Odontogeriatra conhecimentos extras de psicologia e relacionamento humano além de entrosamento entre colegas da área de saúde - médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas e outros profissionais, prestando assim uma maior atenção ao idoso.

    As múltiplas alterações sociais, fisiológicas e patológicas comuns à senescência de âmbito bucal, demonstram a necessidade do profissional da Odontogeriatria ter amplos conhecimentos na área de Gerontologia. Para que se possa atingir um atendimento odontológico que supra as crescentes necessidades da população de idosos, os Odontogeriatras devem ser conscientes de seu papel no esclarecimento da importância da manutenção do sistema estomatognático, associado às condições de equilíbrio biopsiquicosocial, sem perder de vista a individualidade de cada idoso.