quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

SALVADOR 460 ANOS E A RUA CHILE

Tasso Franco
23/03/2009 às 07:47
   

            Salvador completa 460 anos de existência como cidade no próximo domingo, 29. Como localidade, considerando a data de instalação da Capitania Hereditária, a exemplo do que acontece com Olinda e Recife, seriam 475 anos. Mas, o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, por decisão dos seus membros durante o Iº Congresso de História da Bahia, em 1949, supondo-se data do IV Centenário da cidade, instituiu como oficial a data 29 de março de 1549, chegada da armada de Tomé de Souza, como data oficial do aniversário de Salvador.

            Leve-se em consideração, ainda, os primórdios do primeiro núcleo indo-europeu erguido por Diogo Álvares, o Caramuru, na Barra, aí por volta de 1525/1530, quando ergeu uma capela de taipa, coberta de sapé, na qual estava uma imagem de Nossa Senhora da Graça. Desta não se tem nem vestígio. A atual igreja da Graça, onde está sepultada Catarina Paraguaçu, é posterior a essa data embora se confunda uma coisa com a outra.

            Segundo o historiador Cid Teixeira existem três capelas originais na Bahia do século XVI, sendo a mais antiga a de Nossa Senhora das Neves, erguida por Bartolomeu Pires, em 1552, na Ilha de Maré; a igreja de Nossa Senhora de Escada, subúrbio ferroviário de Salvador, a mais antiga da cidade, erguida em 1556; e a igreja de Nossa Senhora do Montesserat, erguida por Garcia D'Ávila.

            As outras quatro consideradas mais antigas - Sé de Cal, primitiva de Nossa Senhora da Conceição, de Nossa Senhora d'Ajuda e Nossa Senhora da Graça - não existem vestígios e não se enquadram dentro do que estabeleceu o Concílio de Trento. Daí que, como modelos originais ainda existem as capelas de Escada e do Montesserat. O padre Manoel da Nóbrega, quando aqui chegou com Tomé de Souza, rezou missa de Corpus Christi, em 13 de junho de 1549, na capela de palha d'Ajuda, e esteve na Barra (na área da antiga casa de Clemente Mariani) visitando a capela de N. Senhora da Graça.

            O que é vale, abstraindo-se essas considerações para entender um pouco a história de Salvador, registra-se como oficial para se comemorar o aniversário da cidade, a chegada da Armada de Tomé de Souza a Baía de Todos os Santos, 29 de março. Ainda que Tomé não tenha desembarcado na antiga Vila Velha do Pereira  (erguida pelo donatário Francisco Pereira Coutinho no atual Porto da Barra) neste dia, e o núcleo central da cidade só começou a ser construído em maio de 1549, pelo traçado de Luis Dias, é o 29 de março a data oficial.

            Em 1549, o mestre de obras Luis Dias concebeu num platô a Praça Quadrada (atual Praça Municipal e/ou Tomé de Souza) onde seria erguida a fortaleza em estilo clássico renascentista, com acessos restritos na linha Sul (à direita do palácio), na linha Norte em direção da Porta de Santa Catarina (Misericórdia). A cidade do Salvador nasceu mais fortaleza do que cidade protegida pelos baluartes de São Jorge, São Tomé e São Tiago, em direção ao mar, a parte vulnerável a invasões.

            Sua formação original nessa mancha matriz continua até os dias atuais com as ruas transversais ao palácio, do Tira Chapéu, Vassouras, Ajuda, e a expansão que se processou nas linhas Norte/Sul e em direção a Baixa dos Sapateiros, ao longo dos séculos. Pois dito assim de maneira geral, sem entrar nos detalhes e na influência que a obra de Vitrúvio exerceu na concepção do projeto, já que perdemos para Recife/Olinda a condição de cidade mais antiga do país (inconcebível), perdemos, também, a condição de possuir a rua mais antiga do Brasil numa cidade.

            Ora, ora; a Rua direita do Palácio, rua dos Mercadores, se for levada ao pé da letra histórica nasce na concepção do projeto de Luis Dias e assim foi erguida sendo a mais antiga do país. Mas, infelizmente, através da lei 577, de 16 de julho de 1902, uma homenagem da Câmara Municipal à esquadra da Marinha de Guerra do Chile, que havia desfilado na cidade, e, na época, era a terceira maior do mundo, apagou-se a história de 453 anos, num provincianismo sem precedentes e sobrevive até hoje nessa condição.

            Salvador, portanto, exige essa reparação. É inconcebível uma situação dessa natureza. A Câmara de Vereadores precisa revogar essa lei 577 e devolver à cidade sua Rua Direita do Palácio, assim como deveria colocar no Largo da Graça o nome de Catarina Paraguaçu; na Praça Colombo do Rio Vermelho, o nome de Diogo Álvares, o Caramuru. Só lembrando, em 2002, a cidade se deu ao ridículo comemorar os 100 anos da Rua Chile! A continuar nessa tese, em 2102, vão comemorar os 200 anos da rua mais antiga do país, a cidade completando 560 primaveras.