50 ANOS DO CINEMA BAIANO

Oscar Santana
15/11/2008 às 12:21

Luiza Maranhão durante filmagem de Barravento (Foto/Div)
   Era o dia 23 de maio de 1957, quando, depois de um planejamento artesanal, quase familiar, sim, porque já éramos uma família depois de tanto pesquisar juntos, dois jovens obstinados iniciam as filmagens de "Redenção", o primeiro filme baiano de ficção e longa-metragem. O pioneirismo chegava vestido de "Igluscope" última palavra em tecnologia do cinema, com lentes anamórficas fabricadas por nós mesmos - Roberto Pires e eu nos laboratórios da ótica Mozart, do pai de Roberto.


  Em cinco de setembro de 1958, concluímos o danado, com o apoio na co-produção, de mais dois jovens - Elio Lima e Braga Neto. E, somente no dia 6 de março de 1959 se deu o lançamos em avant-premier, nos cines Tupy e Guarany, hoje Glauber Rocha. Seu custo foi de CR$ 3.000.000,00 (três milhões de cruzeiros), confirmado na época pelos jornais.


  Sua renda: Cr$ 1.350.000,00 (Um milhão, trezentos e cinqüenta mil cruzeiros) nos dois cinemas. Nossa participação na renda líquida foi de Cr$500.000,00 (quinhentos mil cruzeiros) que nos permitiu devolver prioritariamente, alguns recursos de terceiros. Foi produzido pela Iglu Filmes, com recursos próprios dos quatro sócios, cada um com 25% da produção. Redenção se pagou com o lançamento nacional.


  Durante os anos que se seguiram, realizamos, produzimos e co-produzimos cerca de oito filmes: Redenção, Barravento, A Grande Feira, Tocaia no Asfalto, O Caipora, O Pistoleiro, Abrigo Nuclear, Yawar Mayu e O Mágico e o Delegado, quase todos, com exceção de O Pistoleiro, para o qual levantei e paguei trezentos mil cruzeiros de empréstimo, junto ao Desembanco, foram realizados com recursos próprios; meus, dos meus parceiros e dos próprios filmes.


  INVESTIMENTOS

  Se somarmos as oito produções a um custo médio em cruzeiro de Cr$ 3.000.000,00, teremos um investimento privado, feito por nós produtores e simpatizantes, da ordem hoje, de R$ 24.000.000,00, extraídos de nossas economias e da crença de amigos como Rex Schindler, Moacir Carvalho, David Singer e outros, na perseverança de nossa arte. Rex, ainda ativo se orgulha até hoje.


  Diante desse esforço, desses investimentos, da sinceridade criativa e do trabalho duro, eu, um remanescente do grupo, chego a pensar que com o nosso cinema, novo para a época, estaríamos para a Bahia, assim como João Gilberto e sua bossa nova, está para o Brasil.


  Mas não, estamos esquecidos. As nossas realizações, rebeldes, atrevidas, provocativas, ensejaram e inspiraram transpirações e investimentos novos, capazes de alimentar outras produções. O nosso esforço obstinado abriu espaço e caminhos mais arejados, para outros inspirados cineastas da terra, os quais eu me orgulho de ter visto florescer.


  Hoje, 50 anos depois, do grupo somente eu permaneço "no ramo", ininterruptamente, e na Bahia. Braga Neto voltou do Rio faz algum tempo. Elio abandonou a atividade e Roberto faleceu faz algum tempo, depois de uma longa temporada no Rio e em Brasília. Glauber Rocha criou asas vigorosas e correu mundo, levando sua genialidade as últimas conseqüências.


AMOR A BAHIA

Muitos daqueles que batalharam comigo pelo cinema na Bahia, se foram daqui. Eu fiquei, por amar demais minha terra e por considerar que alguém do grupo, teria que manter acesa na Bahia, a chama do cinema. E com a mesma obstinação ousada do começo, ajudei, sempre que possível, com incentivo e apoio material e até crítico, a nova, já não tão nova assim, geração da qual fazem parte Edgard Navarro, Pola Ribeiro, Fernando Belens e Sérgio Machado, mais recentemente.


A tentativa é de voltar ao longa-metragem, já que realizei mais de 800 documentários e curtas-metragem, entre aquela safra de longas e agora. Através da nova produtora Osccar Studios, fiz duas incursões para o longa Brasilianas, junto ao Fundo de  Cultura do Estado da Bahia, ambas sem sucesso.


A justificativa oficial recebida, é que o projeto não se ajusta às diretrizes do Fundo, e sim do Edital. Numa atitude contraída e a contra gosto, pela primeira vez decidi concorrer ao Edital para o prêmio anual de R$ 1.200.000,00, tentando competir indevidamente com uma nova geração de cineastas que deveria ter um nicho próprio, com menos dificuldades burocráticas, para mostrar seus talentos.


O cinema baiano, apesar do nosso pioneirismo, apesar do meu sentimento incentivador, tem padecido nos últimos 50 anos, com a falta de um apoio mais destemido dos governos da Bahia e do Brasil.


Não podemos nos deixar acostumar a soluções provisórias; não podemos nos habituar à inadimplência involuntária, diante das propostas rotineiras e incompletas de antigos governos. Diante desta realidade experimentada, é que ouso dar estas sugestões:


Um estado como a Bahia, com tamanha riqueza temática e exuberante plasticidade e com tantos cineastas talentosos, pode e deveria aplicar sem medo de errar, R$5.400.000,00 anualmente na arte cinematográfica, ou seja: 3 prêmios de  R$-1.800.000,00 , podendo colher resultados surpreendentes para o Estado. No entanto, em nome da sobrevivência do próprio cinema, nós cineastas, precisamos também colocar algum otimismo temático em nossos trabalhos, mesmo quando nos ocuparmos da temática social.


  O POVO BRASILEIRO

O povo brasileiro está cansado de ser visto, no cinema brasileiro, como o pior povo do mundo, sabendo que não é.


Com a solução de três prêmios anuais, sendo um deles destinado a realizadores iniciantes, dois poderiam ser destinados a cineastas com experiência anterior em longa-metragem, o que poderia garantir a continuidade da produção para cineastas formandos e formados.


O premio para cada um dos três projetos não deveria ser inferior a R$ 1.800.000,00, com liberdade orçamentária prevista para uma expectativa de R$3.600.000,00 por filme, sendo os cinqüenta por cento restantes captáveis no mercado ou com outras entidades, decisão que evitaria a chamada "síndrome do patrocínio inicial" que atualmente ataca muitos patrocinadores, descrentes na conclusão dos filmes.


Não podemos desesperançar esses jovens que saem anualmente das faculdades de cinema na Bahia. Não podemos coloca-los no mesmo patamar dos aprendizes de circo, que depois do aprendizado de alguns malabarismos, só lhes restam os penosos e deprimentes semáforos da vida.

Porque não há circo para trabalhar, como, pelo horizonte oferecido até agora, não haverá cinema para se fazer, talvez, através do castrador filme de baixo orçamento.


Desobrigado por decisão como cineasta, de tentar "consertar" o Brasil através do exclusivo filme denúncia, acredito agora que o cinema precisa do cinema, para se fazer fluente como arte e quem sabe como indústria, e aí sim, mandaremos recados críticos mais eficientes, para um público bem maior, realmente nosso e não do cinema norte-americano.


Precisamos de um cinema mais otimista tematicamente, para não só lamentar a existência de nossas mazelas sociais, mas, também, afirmador, do que temos condições de criar e realizar no país e, principalmente, num Estado de gente alegre, solidária, e que exerce  estas qualidades, num cenário belo e instigador.


Depois do pioneirismo, dos recursos gastos, do talento bem ou mal injetado no cinema baiano nos últimos 50 anos, sou obrigado a ter inveja de outro baiano, que pelo sucesso nacional e internacional merece espaço na história. Cinquenta anos, dois momentos, duas realizações culturais brasileiras importantes. A bossa nova de João Gilberto e o cinema novo nosso, o então inédito cinema baiano.


Ele com uma vantagem, a de precisar somente do violão e do seu talento como compositor. Nós, Oscar e Roberto, precisamos do talento, e mais três milhões de cruzeiros para inaugurar nesta terra, a sétima arte do longa-metragem, "Redenção". Um filme simples, experimental, inovador tecnicamente como a primeira canção de Gilberto.


Pela primeira vez me sinto com vontade para pleitear alguma coisa do Governo do Estado. Preciso fazer Brasilianas, uma comedia com "humor sério" para em novo esforço, tentar revigorar o cinema da Bahia pela via da aceitação do grande público. Lamentavelmente, o edital em vigor é excludente para um orçamento de R$ 3.351.754,88 (três milhões, trezentos e cinqüenta e um mil, setecentos e cinquenta e quatro reais e oitenta e oito centavos).


Estou fora, por força da formatação do edital que limita a dois milhões os orçamentos participantes, limitação que não se justifica, uma vez que o concurso  já prevê um limite, no aporte do próprio Governo.


Como posso eu ter orgulho de ser pioneiro? Como posso eu ter orgulho de ter ajudado a tantos aspirantes ao cinema? Como posso eu ter orgulho de ter formado, na área de cinema e vídeo, mais de cem bons profissionais que passaram pela Sani Filmes, nos últimos 47 anos e estão no mercado?


Como posso ter orgulho de tanta contribuição material, humana e financeira no campo da arte cinematográfica, se não consigo, ao menos competir para realizar Brasilianas, o filme com o qual pretendia comemorar os 50 anos dessa contribuição obstinada, ao cinema da minha terra?



Oscar Santana

Cineasta