ter�a-feira, 07 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

A Bela que Dorme, Love Lace e Camile Claudel

Três bons filmes para curtir no final de semana
12/10/2013 às 10:50
A bela que dorme (Bella Addormentata ), de Marco Bellocchio. Itália, França, 2013. O tema central da eutanásia que o filme aborda já é em si só complexo, e ainda quando o diretor quer fazer um filme com dois gêneros ao mesmo tempo ( documentário e  drama ) eis que de fato o tema da eutanásia assim como o filme se embola de uma vez só. 

Além da confusão de gêneros o filme se permeia em diversas histórias paralelas que tem como fios condutores ( mas que nunca se ligam, ou seja, que não se encontram ) pessoas que estão ligadas a parentes ou amigos em estado vegetativo abrindo assim uma lacuna à pergunta: “ A eutanásia é válida quando a pessoa tem a vontade ou a consciência de que vai morrer ou não é válida?” 

Até o Papa João Paulo II entrou na história como exemplo pedindo que deixassem que Deus o levasse, ou seja, que desligassem os aparelhos que o mantia em estado vegetativo. Entretanto o personagem que fugia dos estereótipos dos outros era de uma viciada em que tentava se suicidar e um médico sempre a “salvava”, que em certa cena pergunta ao médico o porquê dele fazer aquilo com ela, a deixando sofrer no inferno de sua vida, e por sua vez secamente ele respondia que fazia seu papel profissional somente e não queria saber que dores existenciais a viciada carregavam. Esse diálogo já no fim do filme sem dúvidas foi o mais marcante, pois colocava dúvidas em quem teria a razão, ou o médico: por salvar uma pessoa que supostamente não sabia o que fazer e que não tinha pleno juízo dos seus atos, ou a viciada: que se defendia com o argumento de que tinha total certeza de que queria acabar com sua vida e sofrimento, Idéias e argumentos esses suposta ou tecnicamente parecidas com o tema da eutanásia abordado durante o filme. 

Ademais tínhamos uma mãe católica que era contra a eutanásia acreditando que Deus tiraria sua filha de um estado vegetativo, ou de um homem que era taxado como um desequilibrado por não ter apoio da sociedade por ser a favor da eutanásia de tanto ver sua mãe “morrer” junto com sua irmã em um leito de cama em estado vegetativo e respirando com auxilio de aparelhos. Se o diretor italiano quis colocar uma pontinha de dúvida sobre o tema da eutanásia, ele de fato conseguiu com a confusa e bela fita selecionada para o Festival de Veneza em 2012.
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   LoveLace, de Rob Epstein com Amanda Seyfried, Peter Sarsgaard , EUA, 2013; Trata-se da cinebiografia da maior estrela pornô de todos os tempos,Linda Lovelace, e que ainda por cima (ou por baixo) revolucionou as premissas sexuais do século passado. Entretanto o foco do filme é o da humanização dessa personagem, mostrando como uma menina que teve um filho cedo demais, (por isso o abandonou) adentrou-se no mundo da indústria pornográfica dos anos 1970 nos EUA. O filme tem o cuidado de mostrar os laços familiares da estrela da série de filmes chamados por “Garganta Profunda”, aos quais seus principais diálogos circundavam em a estrela ter o seu clitóris na boca e não na vagina fazendo até os mais experientes atores pornôs ejacularem antes do tempo previsto, tamanho era o dom da atriz. 

Porém a humanização da protagonista era o alvo do diretor, deixando de contar detalhes mais sórdidos da carreira dela. Além dos problemas com a mãe a atriz com cara de menina e jeito de mulher se casara com um maluco que só se satisfazia batendo, esmurrando a coitada, ora por ciúmes ou ora por viadagem mesmo. Ademais a fita mostra os sonhos da atriz que queria brilhar em Holliwoody fazendo filmes “normais”, mas isso não se concretiza pelo seu único dom: a sua “garganta clitorífera “. 

O filme nos mostra a redenção dessa mesma estrela com a publicação de uma autobiografia mostrando tão cruel era o mundo da indústria pornográfica e surras e roubos que ela levava de seu ex-marido. Em especial o filme não tem nada a transmitir, somente apenas mais uma estória de uma pessoa explorada pelo seu talento e principalmente ingenuidade, fazendo com que o filme se torne saudosista aos que tem mais de trinta anos que tanto ejacularam com os filmes intitulados como “Garganta Profunda”; Sem dúvidas o maior clássico do gênero em todos os tempos.
 
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Camille Claudel 1915, do Bruno Dumont, França, 2013.  A atriz Juliette Binoche vive um dos maiores desafios de sua carreira ao interpretar a escultora Camille Claudel quando ela vivia isolada em um hospício. O detalhe mais interessante do filme é que nas gravações em um hospício de verdade somente a atriz e a produção sabiam quem eram loucos e quem era ditos como “normais”. Esse bate-bola da protagonista em meio a esse “segredo” com as loucas do recinto, é que de fato dá toda a visceralidade do filme, e isso sem contar com a atuação estupenda e corajosa da melhor atriz francesa em atividade, que sem dúvidas é a Juliette Binoche, que se entrega de corpo e alma a sua personagem incompreendida, já que a todo tempo tentava provar que estava no hospício por pura e maldosa inveja do seu ex-marido ( o famoso escultor Rodin ) por ela ser mais talentosa que ele, ao menos é isso que comentam até hoje por ela ter sido internada compulsoriamente.

 A única saía, porém frustrada, era tentar que seu irmão a tirara-se de lá e provasse que sua irmã não era e nunca esteve insana de fato. Cartas e mais cartas eram escritas em vão pela exímia escultora para seu irmão tentar acreditar nela, porém o sacana prefere acreditar nas teorias do Rodin alegando que ela não estava conseguindo criar os filhos que tivera com ela. 

Obviamente depois de algum tempo e sem conseguir ter a chance de fugir, ainda internada e alterada psiquicamente com remédios punks que tomava ( porque ninguém é de ferro agüentar um hospício com todos afirmando que você era esquizofrênica por tanto tempo ), em certo ponto do denso filme a Camille Claudel ( repito: uma das maiores escultoras de todos os tempos e por sua genialidade de nascer em um tempo provinciano para a sua pessoa) começa a crer que tanto seu escroto irmão, assim como seu mais canalha ainda ex-marido Rodin, este que por sinal roubastes todos os louros da fama da Camille, pois se perguntares a alguém quem foi a Camille Claudel pouquíssimos saberão de quem se trata, todavia se a pergunta fosse quem foi Rodin certamente saberiam responder que foi um dos maiores escultores de todos os tempos. Louros esses; Repito: roubados de sua ex-esposa e mãe criadora dos seus filhos. 
Por fim, fora a aula de História que o filme conta e que não consta em nenhum ou em pouquíssimos livros de história da arte, o que presenciamos no profundo filme é a estupenda apresentação de sua protagonista: Juliette Binoche, que além de ser linda carrega literalmente a produção do Bruno Dumont ( diretor que tem nome de brasileiro, mas é gaulês e dos bons da nova safra francesa ) nas costas e faz o seu melhor personagem nas telonas em sua carreira num filme difícil, pois mexer com elementos como esquizofrenia, artes, injustiça, traição, amor, família e acima de tudo degradação humana em conseqüência de todos os itens citados anteriormente é somente para atrizes fortes e emocionalmente capazes com é foi a Binoche, tamanha a carga dramática e muita vezes sob-humana que a atriz teve de carregar para fazer o filme. E por isso, ou seja, pela capacidade altruísta e competente da atriz por se entregar de corpo e alma no personagem temos um filme forte, reflexivo de pensarmos até que ponto vai à maldade humana ou até que ponto podemos confiar nessa tal raça humanóide, pois as vezes penso que se existisse andróides e humanos ao mesmo tempo e no mesmo lugar, preferiria confiar nos andróides, ao menos estes sabemos o que esperar deles, já nós humanos: sinceramente, não tenho uma resposta concreta para isso, ou seja, se podemos confiar em nós mesmos ou não, e bem honestamente, acho que não podemos confiar em nossa raça. Super filmaço, super atriz: Um dos “Top Five” do ano.