quarta-feira, 08 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

O TEMPO E O VENTO, uma boa produção nacional

César deve morrer; Baseado na obra literária do fora de série dramaturgo inglês William Shakespeare e dirigido pela dupla Paulo e Vittorio Taviani, Itália, 2013
05/10/2013 às 10:48
 O tempo e o vento, do Jayme Monjardim, Brasil, 2013. É a produção nacional mais cara já feita com orçamento de uma bagatela de 12,5 milhões de Reais. E infelizmente tem tudo para não ter boa bilheteria por não se tratar de mais uma comédia nacional besta, mas sim de um épico - drama que conta a história do povo gaúcho, que queria ser independente do Brasil no século XVII com a famosa guerra Farroupilha como a sua principal revolta contra a recente republica brasileira instaurada naquela época de transição de um país colônia para um país metrópole. 

   O destino do filme parece que já estava traçado para fazer parte de uma suposta minissérie televisa, pois o seu diretor é autor de novelas e influente, e já antevendo que a bilheteria do seu belo e forte filme não seria sucesso entre o público ( isto porquausa do seu confuso roteiro, salvando o filme pela força da história em si baseada no livro do escritor Érico Veríssimo ), este diretor global já engatilhou um pré-contrato com esse rede de televisão para a produção de uma mininovela ano que vem já, provavelmente. 

    Quem se dispuser a conferir a fita de 120 minutos certamente sairá satisfeito e com “sangue nos olhos”, pois a atuação do Thiago Lacerda como um dos protagonistas mexe com as entranhas dessa geração do que não tem o que lutar ( até tem o que lutar, mas não luta de forma constante e regular que deveria para que de fato conseguíssemos mudanças concretas e definitivas ). O Lacerda faz o papel de um coronel que luta até o final de sua vida por seus ideais e suas terras.

    Para dar mais consistência a essa saga de coragem desse gaúcho a história é narrada durante duas horas, do início ao fim, pela melhor atriz do Brasil, que é a nossa querida e imortal Fernanda Montenegro. Esta atriz que faz o papel da fase idosa da esposa do capitão Lacerda e em seguida é muito bem continuada pela interpretação da Marjorie Estiano quando fez o mesmo personagem, mas na flor da idade. 

   Apesar de longo, o filme não se deixa cair na monotonia por possuir belas paisagens dos Pampas gaúchos, além de uma mega produção com um elenco de 111 atores e mais de 1000 figurantes fazendo as guerras por terras e poder daquela época de República, onde o Rio Grande do Sul fora pioneiro e único alias por lutar com suas próprias armas em punhos para ter sua independência custe o que custar e não ser mais um estado brasileiro. 

   Não é à toa que eles ainda se acham hoje “meio brasileiros - meio estrangeiros”. E sinceramente e sem inveja nenhuma ( talvez pura admiração somente ); Quem dera se fossemos e tivéssemos a garra e a coragem do povo gaúcho. Certamente a história do Brasil seria diferente, e pra melhor escreva-se de passagem.
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   Vocês Ainda Não Viram Nada ! , do Alain Resnais, França, 2013, com um baita elenco: Mathieu Amalric, Pierre Arditi , Sabine Azéma ,. Denis Podalydès , Anne Consigny , Anny Duperey , Hippolyte Girardot , Michel Piccoli , entre outros grandes atores franceses-Os melhores.

  Pois bem: li meia dúzias de críticas aliais, resenhas sobre o filme do êneaxagenário diretor e todas foram unânimes em esculhambar o pretensioso filme. Discordo de todos e achei o melhor filme que assisti esse ano até o presente momento, simplesmente genial e mostra que o diretor anda em boa forma e nada aposentado. 

   O enredo se envereda em mostrar a última vontade de um dramaturgo, que era juntar seus principais atores de suas obras a reverem a peça que fizeram ( Eurípedes ) por tanto tempo e gerações, mas agora por outro grupo teatral. Todos se reúnem na mansão do falecido e começam a ver a peça de uma forma total e inacreditavelmente diferente, moderna. 

  Tal mudança provoca nos antigos atores a vontade de voltar a interpretar seus papeis  e os fazendo assim temos agora duas interpretações da peça se mesclando e ora se complementando entre si, fato este que deixa o filme teatral, porém não perdendo sua essência em ser um filme. Talvez por isso, ou seja, por não entenderem este jogo de “teatro-cinema” e a pretensão de o filme ser drasticamente ( no bom sentido ) original, é que a classe critica cinéfila não adotou ou não entendeu de fato este brilhante filme. 

   O diretor deixa claro, e isso fica antes dos créditos finais quando ela aparece com um leve sorriso nos lábios, que de fato não tinha a pretensão de fazer um filme de fácil digerimento e tão pouco sem a consciência de que estava tentado fazer misturas ousadas com teatro e cinema. Sim: ele queria chocar e fugir da sua filmografia de arte mais lógica com: O Ano Passado em Marienbad (1990), Medos Privados em Lugares Públicos (2006), Ervas Daninhas (2009); E acho que conseguiu, pois pelo visto quase ninguém de fato entendeu. Azar ou problema de quem não enxergou a beleza desse filme.
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   César deve morrer; Baseado na obra literária do fora de série dramaturgo inglês William Shakespeare  e dirigido pela dupla Paulo e Vittorio Taviani, Itália, 2013. Não é porque um filme que ganha um dos principais prêmios do cinema ( Urso de ouro em Berlim ano passado ) é que esta obra seja necessariamente uma unanimidade, alias se tem uma coisa que o cinema encanta é esse seu lado dúbio, não exato onde cada qual pode ou não gostar da obra vista. 

   Particularmente não curti esse filme e claro, não achei merecedor a ganhar o urso de ouro no festival de Berlim, o principal da Europa  ( antes mesmo do famoso e mafioso dos últimos tempos pra cá por colocar o “merdético “ do George Clooney em sua cadeira de organizador do festival ano passado e ano retrasado indicando outro bosta americano: Steve Spielberg como principal organizador do evento em 2011, caracterizando assim como um festival de Glamour e produzido para a indústria perdendo seu foco artístico nos últimos tempos que era a sua principal característica. 

   Refiro-me obviamente ao excelente, extinto, artístico e experimental festival de Cannes, localizado na bela Riviera Francesa. Depois de algumas explanações engasgadas por essa indústria cinematográfica mundial que a cada dia castra mais e mais a liberdade dos diretores de cinema, agora explicarei o porquê de não ter achado o filme César deve morrer interessante, apesar de ter tido uma proposta legal que era pegar presos de uma cadeia de segurança máxima ( entenda isso como estupradores, assassinos e miseráveis dos mais altos escalões )na Itália e colocá-los a interpretar como atores reais a peça da traição de Brutus ao imperador romano Alexandre: O Grande. 
Óbvio que o jargão mais conhecido do texto dito pelo imperador traído aparece no final: “ Até tu, Brutus?”. Entretanto por mais que a idéia seja bacana, que é a ressocialização desses presos o filme em si é bem fraquinho e falta um pouquinho ( pra não dizer poucão ) de tudo, menos da vontade desses presos em atuarem, mas como estes não tinham preparação para isso, ou seja, não eram atores: Por isso filme fica fraco também nas atuações por mais visceralidade em que estes supostos atores tenham colocados em seus personagens da lendária história da traição do mais poderoso imperador romano de todos os tempos por um dos seus homens de confiança. Entretanto por mais vontade que tiveram esses atores ao filme, existe buracos em praticamente todos os aspectos do filme sendo que o buraco principal é o seu próprio fraco roteiro, este que poderia dar uma “mão” aos atores-amadores, e este não os ajuda em nada.

    Em suma e síntese final apesar de a idéia ter sido interessante e criativa, faltou direção de elenco para que o filme cativasse, e sincera e honestamente: Ganhar o festival de Berlim como melhor filme fora um tanto puxação de saco, só e  única exclusivamente para fugir dos filmes padrões que o festival sempre premiava dos últimos anos pra cá. Experimentações são e serão sempre bem vindas, todavia estas têm de ter qualidade para se firmar entre os grandes, e isso de fato não acontece no filme dos diretores italianos irmãos Paulo e Vittorio Taviani.