quarta-feira, 08 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

CINEMA: Odeio o dia dos Namorados, passe longe

Veja também comentários sobre Argo, Benn Affleck, EUA, 2012; e Killer Joe – Matador de aluguel, William Friedkin, EUA, 2011
23/06/2013 às 15:27
Argo, Ben Affleck, EUA, 2012. Depois de quatro meses do filme ser premiado como melhor do ano no Oscar, venho resenhá-lo. Demorei um tempo, pois ainda hoje não concordo que ele tenha sido o melhor filme do ano, acho que o prêmio estaria mais bem entregue se fosse para Amour do austríaco Hanneke que ganhou somente como melhor fita estrangeira. 

   Coisas da indústria do cinema americano e por isso não podem levar tão a sério tais premiações. Trata-se de uma fita de cunho político, verídica é fato, porém mais uma vez exalta uma vitória estadunidense perante o mundo e deixa de lado detalhes técnicos ou um roteiro mais qualificado para a estatueta do Oscar de melhor filme de 2013.

   O local era o Irã numa onda de protestos contra os EUA no solo muçulmano e com seu ditador dando o tom do ódio contra o Tio Sam. O cerco estava se fechando contra o pessoal que trabalhava na embaixada norte americana da capital Teraã. O grupo consegue se deslocar para a embaixada canadense, local este bem mais seguro de ficar pra não morrer, porém também por pouco tempo, pois os terroristas já tinham algumas pistas de que os norte-americanos estavam escondidos em algum local ainda em solo muçulmano.

    Eis que no calor da urgência surge uma idéia um tanto quanto excêntrica de um membro da CIA, interpretado pelo seu diretor Ben Affleck, que era inventar a feitura de um documentário que abordava a cultura Iraniana e com essa desculpa retirar os membros americanos que se encontravam escondidos na embaixada canadense, pois a essa altura a embaixada dos EUA já fora completamente destruída pelos rebeldes com a frustração de não ter encontrado ninguém.

    Mas as coisas não seriam tão fáceis assim, ou seja, pegar um avião dos EUA ao Irã e lá chegando ao aeroporto pedirem a liberação de uma equipe de filmagem para fazer um filme lá. Seriam necessários documentos que comprovasse que tal documentário seria positivo ao país e até um trailer do filme para acobertar a mentira sem que os iranianos descobrissem o real motivo do documentário. 

   A primeira parte fora feita em solo americano arrumando os argumentos necessários para que o diretor Ben Affleck entrasse em solo iraniano, que de apesar da desconfiança dos alfandegários do aeroporto de Teraã, acontecera. Já em solo inimigo o agente da CIA disfarçado de diretor de documentário teria outra missão: Explicar aos "prisioneiros americanos" o seu plano maluco do documentário onde cada um teria um nome falso e uma função no documentário e alteradamente mudados facialmente para não dar bandeira à polícia iraniana, visto que era pessoas marcadas para não sair daquele país com vida por questões políticas de os EUA se intrometerem em assuntos que não eram de sua ossada, mas isso não vem ao caso agora. 

   Com um alto teor de suspense, principalmente na cena final do aeroporto, a vulga equipe acaba por sair do solo hostil. Agora é muito fácil saber o porquê desse filme dirigido por um ator ter ganhado o Oscar: por questões políticas de puxar a sardinha para o lado do país do prestigiado festival, como já mencionei anteriormente. Imaginem se o filme contasse a estória dos milhares de civis iraquianos que morreram na guerra contra Saddam Hussein; Certamente não iria nem concorrer ao prêmio por mais que a obra fosse boa.
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    Killer Joe – Matador de aluguel, William Friedkin, EUA, 2011. A trama é inteligente, instigante e politicamente incorreta: o que faz toda a diferença. A estória é a seguinte: por dividas com o tráfico de cocaína; o tal do Chris tem uma idéia mirabolante: matar sua mãe e receber o seguro de vida em nome da sua irmã única e caçula. Para isso Chris contrata um matador de ofício, o “ Killer Joe”. 

   Basicamente esse é o enredo do filme, porém em matéria de sétima arte afirmar que básico é de fato raso ou simples é no mínimo uma temeridade. Fato este onde a sinopse engana o melhor filme dos cinemas do Brasil atualmente. A estória é tão engenhosamente armada que nos seus primeiros quinze minutos de projeção pensei: “Putz, mais uma merda americana, onde só irá ter tiros e nudez pela censura de 18 anos”. 

    Ainda bem que nada disso acontece, o filme é pulsante, ativo dos seus décimo- sextos minutos adiante até a cena final onde cada personagem tem sua função definida na agradável trama que por certos momentos lembra ao estilo do diretor Tarantino, porém com um pouco mais de inteligência e objetividade. Temos um pai alcoólatra e uma esposa bonita e meiga, uma menina quase altista por não ter amigas e ficar no seu quarto e por fim o seu irmão envolvido com entorpecentes, isso sem falar do Killer Joe.

    O roteiro é tão meticulosamente encaixado que se uma cena for contada é bem capaz de dar alguma pista do final da trama. O que posso adiantar são seus personagens mais um pouco. A menina caçula tem um papel importantíssimo no filme como um todo, mostrando quando o homem quer virar bicho ele vira e vice-versa também. 

    O seu irmão mais velho mostra como a vida urbana é de fato, ou seja, como o cotidiano pode nos detonar. O pai dos dois, por sempre estar bêbado mostra em seu silencio um peculiar modo de acompanhar aquelas catarses de situações de uma forma distinta e por incrível que pareça, consegue perceber as coisas mais lucidamente do que os outros personagens. Se tivéssemos que dar algum título a esse pai o daria como o psicanalista da família apesar de toda sua insanidade e inutilidade comportamental, porém não emocional. Sobre sua linda e meiga esposa, como já lhe diz o ditado:“ ânus de bêbado não tem dono”, e nem perereca de mulher de bêbado. 

   Sem comentar sobre a personalidade do matador Joe de aluguel e sua desprovida forma de ver a vida e as pessoas; como meramente produtos descartáveis, e por o ator ( Matthew McConaughey) ter se saído tão bem não fica difícil de acreditar na sua forma de pensar. Pronto: parei por aqui, senão darei pistas demais ao melhor filme do ano assistido, ao menos por esse que voz escreve. Detalhe que o filme é de 2011 e chegou agora por terras tupiniquins: Antes tarde do que nunca para produções desse quilate.
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   Odeio o dia dos namorados , Roberto Santucci, Brasil, 2013. É uma comédia para as grandes massas brasileiras, provavelmente um blockboster nacional, ao menos tem tudo para isso. Trata-se da estória de uma publicitária linha dura e ranzinza interpretada pela Heloísa Périssé.

   Roteiro: Nada contra o titulo do filme, pois também acho a data uma chatice pura, mas da história do filme para com seu titulo: não tem nada a ver uma coisa com outra, fora o fato de no inicio do filme a protagonista falar: “Odeio dia dos namorados”. Depois disso o que se vê é uma “estória do além”, ou seja, de vida-pôs morte com sua protagonista tendo flashbacks de toda sua vida, desde sua primeira transa com o excêntrico Batata até os dias de publicitária odiada por todos seus subordinados. Flashbacks estes guiados por seu ex-sócio que falecera por um infarto fulminante em plena campanha do hospital do coração da cidade, fazer o quê: coincidências se sucedem.

    Trama: O filme se configura nesse momento de transe onde não sabe se a protagonista se salvará de um acidente de carro ou não. A partir desse instante surgem os insights das coisas que ela fez mal e deveria consertar.

   Relação amorosa: Com esse titulo teria que ter uma, óbvio. E esta se sucede logo após a adolescente protagonista nos anos 1980 perder a virgindade para o Batata e conhecer um CDF que já era apaixonado por ela. Com uma boa atuação, apesar do roteiro não ajudar, Daniel Boaventura faz o papel de um gerente de marketing que em determinada hora pede os serviços da agência de publicidade de sua ex-namorada juvenil e ainda eterna paixão dele.
Depois de 20 anos sem se verem, apesar de morarem na mesma cidade que era São Paulo, a paixão do gerente de marketing volta à tona vendo sua paixão não correspondida na época em que se dançava como os Menudos, Dominó e para os mais exigentes Ultraje a Rigor e onde ainda se cortavam os cabelos masculinos a moda sertaneja do Chitãozinho e Xôrorô ( eca!). Porém trabalho era trabalho e os dois tinham que fechar aquela conta ( que era a serenata do amor: um bombom de chocolate que descaradamente entrou como um puta merchandise no filme praticamente todo ). Nesse entrevero da reunião para fechar o negócio acontece o tal acidente com a protagonista e então os insights já citados.

    Desfecho: Já vou contar o final pra ninguém perder seu tempo vendo esse filme: ela não morre ( infelizmente ). E não morrendo consegue resolver seus problemas pendentes financeiros e amorosos. Enfim: por uma ou outra coisa o filme não casa muito bem com seu título, fora o fato da história passar em 12 de junho. Ademais percebo uma melhora em qualidade das fitas nacionais em todos os sentidos, porém não um e o mais importante: os seus roteiros; Continuam péssimos. Roteiristas argentinos, por favor, venham nos ensinar como se faz isso, estamos precisando.