quarta-feira, 08 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

COSMÓPOLIS: o fim do capitalismo e a vida numa limusine

Cosmópolis é um filme interessante e mostra a vida de um nerd e a obsessão ao trabalho e a tudo numa limusine
11/05/2013 às 19:36
 Cosmópolis. David Cronenberg, França, Canadá, 2012 com Robert Pattinson  O capitalismo já não existia, ou quase estava no fim, nesse futurístico ano na cidade de Nova York. Um executivo queria cortar o cabelo no outro lado da cidade, porém isso não é possível perante o caos instalado com o fim do sistema econômico. 

   O protagonista da produção é o mesmo da saga Crepúsculo, porém nem de longe o lembra e ainda bem. Trata-se de um dos poucos milionários ainda existentes e com menos de trinta anos. Trata-se também de um nerd total onde fizera sua fortuna acordando e dormindo em cima de telas de computadores. 

   Intrigante é como o diretor Cronenberg descreve a sua vida. Com ele tudo é feito em sua limusine, desde negócios, consultas psiquiátricas, urologistas e até sexo. Sua vida se reduz a sua limusine e ao grande caos com o fim do capitalismo. Ele, no entanto se mostra numa capa protetora a todo esse caos instalado pela cidade, e essa capa é a sua limusine e sua grana.

    Cosmópolis além de ser demasiadamente instigante pela frieza de seu protagonista, e também de certo  modo enigmático a propor um personagem central tão desprovido de sentimentos, porém ainda assim com uma capacidade de nos prendermos a pensar o que ele pensara durante todo aquele tempo em que queria atravessar a cidade para cortar o cabelo. Seria uma bobagem dele, já que tinha um barbeiro há dois quarteirões donde ele estava? 

  Acho que não, o fato de ele querer atravessar a cidade para cortar seu cabelo explica de certa forma o último respiro do capitalismo naquela fictícia época, pois para o capitalismo não se pode existir medidas de limites, mesmo sendo impossível alcançá-los, como o protagonista queria cortar a porra do cabelo do outro lado de uma cidade totalmente tomada pela anarquia da quebra do regime econômico. 

  Muitas as idéias que nos geram percepções em que o diretor emprega ao filme como, por exemplo, o rato ser o símbolo anticapitalista visto em praticamente toda a fita ou a certeza do prodigioso protagonista do mundo financeiro em que estão querendo vê-lo morto assim como o seu sistema estava indo. Existem filmes que somos intimados a conferir pelo nome do seu diretor e esse não foge a regra.
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   Somos tão jovens, Antonio Carlos da Fontoura, Brasil, 2013. Dos 20 aos 40 ele queria ser músico. Dos 40 aos 60: cineasta top, e dos 60 a diante seria escritor. Um plano de vida nada monótono. Esse plano era de um tal artista que certamente influenciou seu modo de pensar e agir se tiver menos de quarenta anos ou mais que isso visto que inteligência e poesia são atemporais. Refiro-me ao principal compositor e cantor que o Rock nacional já produziu: Renato Russo.  

  O filme é uma homenagem a sua pessoa dando seus primeiros passos na caminhada que iria fazer a fim de se tornar um ícone da musica brasileira. De origem Punk Rock (Sex Pistons ) e influências do filósofo francês Rousseau, Renato Russo vivendo em Brasília em plena ditadura militar se descobre que não é mais um jovem que só quer saber de beber e fazer bagunça: ele quer fazer a revolução e da sua forma a faz, tanto é que até hoje quando queremos citar ícones culturais nacionais ele é um dos primeiros nomes lembrados. 

   O filme em si é uma catarse de canções engolidas pelo tempo que ao ouvi-las em tela grande o filme se torna um show com todos cantando as canções que tanto embalavam os dias de adolescência de muitos. A produção lembra uma que vi dos primeiros anos de carreira do John Lenon ou dos anos de adolescência dele ( da qual não lembro o título ), enfim uma homenagem digna do homenageado e quem ganha o prêmio ou presente é quem confere cantando do inicio ao fim ao filme-musical. Destaque para a incorporação do ator Thiago Mendonça fazendo o papel de Renato Manfredinni Júnior ou Renato Russo.

   No fim do mês tem mais uma produção com Renato Russo e sua Legião Urbana com o filme da música Faroeste Caboclo que certamente será mais uma catarse sonora para se berrar nos cinemas.
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 A carta, Jay Anania,EUA, 2012. Procurei no Google alguma coisa a respeito do filme e não achei nada. É compreensível não ter tido nenhum cristão ou não, escrito algo sobre o denso drama. Permitirei-me resenhá-lo mesmo sabendo que a tarefa não será uma das mais fáceis, mas como já dizia meu falecido pai: “ Quer moleza: vai pegar no p... de fulano”.

 A estória se permeia e se desenvolve em ensaios para uma peça teatral onde a sua diretora passa por problemas mentais, esquizofrênicos para ser mais preciso, na feitura do roteiro da peça e posteriormente falando o que cada ator faria ou interpretaria. O filme ou a esquizofrenia, visto que o foco principal da idéia do diretor é se aprofundar numa crise de uma pessoa que era aparentemente normal e de uma pra outra pifa ou pira. As cenas são como um esquizofrênico vê o mundo, ou seja, distorcido, querendo que tudo aquilo que ele pensa que vê seja verdade e por isso mente pros outros e pra si próprio: o que é o pior de tudo. 
Ela escreve as estórias da peça e depois muda de acordo com a sua loucura. Por exemplo: certa cena no filme uma jornalista aparece para entrevistá-la e a diretora teatral quando vê que não tem o controle de si nessa bate papo normal, “enxerga” a tal jornalista morta e se surpreende quando ela liga no dia seguinte para continuar a entrevista. O mundo dessa doença é um mundo a parte e confesso que embrulha o estômago no simples ato de ver um filme com o tema, imagino a dureza que deve ter essa doença ou de pessoas próximas viverem com tais. 

Existem os esquizofrênicos que não tomam remédio, que acham que se seguram sem nada, e é exatamente isso que acontece no filme com sua protagonista. Nesse jogo de “bola e gandula” as pessoas que vivem ao seu redor e não percebem a doença vão penando, se deixando destruir por uma pessoa que está sem limites e que, no caso do filme, não sabia em que estado estava. Um carma que acontece na vida de muitas pessoas e eu tenho de ser honesto e escrever isso: sinto muito por esse peso há quem carrega esse fardo, algo de ruim essa pessoa deve ter feito em outra vida passada para merecer isso. Um filme difícil e tenso, mas é um bom laboratório sobre a patologia descrita e de certa forma com um bom roteiro e fotografia.