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Colunistas / Cinema
Diogo Berni

O Carteiro (fita nacional) retrata época sem a internet

O Carteiro, de Reginaldo Farias, é uma fita que mostra a vida antes dos novos meios de comunicação
20/04/2013 às 11:39

 O filho do outro (Les Fils de L´autre), Lorraine Levy, 2013; É um filme francês que retrata histórias de personagens fora de sua região: refiro-me a Israel e Palestina. 


   Se não fosse trágico o roteiro seria cômico, porém como a fita é densa, até por questões territoriais e religiosas e adentrando-se em questões políticas por conseqüência. A troca na maternidade de dois bebês de famílias desses dois países “muy amigos” é o tema principal do filme.

   O detalhe é que eles e suas famílias ficam sabendo quase duas décadas depois do suposto engano. Quem fora criado para ser judeu agora com a notícia não pode nem servir as forças armadas israelenses a fim de copiar seu pai e o deixar orgulhoso do "filho", este que por sua vez queria mesmo era ser músico.

   E do outro lado da fronteira quem era muçulmano agora era visto como traidor pelo irmão e pai palestino. Uma coisa não se pode deixar de escrever: sangue é sangue e isso não tem como mudar, pois é coisa de DNA . 

   No filme o judeu que tinha sua família palestina era um ávido vendedor de sorvetes e sabia vendê-los por ter sempre um sorriso no rosto, e por outro lado o muçulmano que pensava que era judeu tinha mais um ar artístico e poético perante a vida o fazendo dele uma pessoa mais sensível e leve do que em comparação aos outros, ao menos aos outros israelenses amigos seus. 
 
   Ademais o filme tem o mérito de mexer com esse conflito desse dois países ou religiões de uma forma bastante agradável, e de fato saímos do cinema pensando que esse problema não é tão difícil e histórico quanto parece, porém basta assistirmos a qualquer telejornal para voltarmos à realidade novamente e perceber do que nos foi conferido é pura e mera ficção.
   
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   O carteiro, Reginaldo Farias, 2013; é um longa nacional de boa qualidade cuja principal influência é a Machadiana. A história se passa em um pequeno interior do Rio Grande do Sul mostrando a vida de um intelectual e inteligente carteiro caipira. 

   Depois de 20 anos Reginaldo Farias volta a dirigir um filme e se vê que ele não perde a mão fazendo um poético e simples longa roteirizado, escreva-se de passagem, pelo seu filho Márcio Farias, que faz ainda o papel  de um delegado de poucas atividades e com uma paixão perdida ao tempo. 

   O protagonista é um outro Farias: o mais novo (Cande Faria). Inicialmente o papel seria feito pelo seu roteirista-ator - Marcio Farias, mas por um altruísmo profundo e pela consciência de que estaria velho demais para o papel deixou este para seu irmão mais novo estrear nas telonas, e com bastante brilho e competência, escreva-se de passagem. 

   A história é a seguinte: Quando chega uma nova mulher nas redondezas, o Victor ( o carteiro ) se acachapa de paixão de modo que abri as cartas que seu namorado as envia do Rio de Janeiro para a nova moradora da cidade e começa a boicotar o romance distante.

   O filme é de época, pois não existia internet ainda de modo que o único meio de comunicação para quem não estava por perto era a boa e velha carta escrita a mão ou a máquina de datilografia. A fotografia do filme é toda em particular de uma beleza simples de que só uma cidadela de interior teria e os seus personagens vão nessa mesma toada de descompromisso com tarefas ou do politicamente correto, pois por aquelas bandas quem de fato manda é o seu tempo ou o passar das horas desapercebidas, silenciosas, porém cheias de mistérios . 

   Com esse ar interiorano de “não ter nada pra fazer” o tal carteiro, que tem um coração enorme ( do tamanho dos livros do Machado de Assis ) vai abrindo as cartas dos habitants e não somente da sua edipiniana namorada. 

   Mas ele não abre as cartas por pura curiosidade, abre porque acha que não está fazendo nada de mal e segundo porque acredita no amor, no poder de conciliação dos pares separados da cidade. Com esse objetivo as cartas vão sendo abertas e as causas e conseqüências vão acontecendo. 

   Para quem estava 20 anos sem dirigir um filme o Reginaldo Farias está mais que de parabéns pela poética, engraçada e inteligente obra produzida, e claro que o fato de ele ter sido rodado no clima cinéfilo do estado gaúcho ajuda a obra como um todo e além disso a fita nos permite que nos aproximemos mais com o universo do eterno Machado de Assis, isto que por si só, já vale ser conferido.
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    A hospedeira, Andrew Niccol, EUA, 2013; Apesar de não parecer é um baita filme de ficção cientifica. Do mesmo diretor e roteirista da Saga Crepúsculo (Andrew Niccol ), a trama é vivenciada em um tempo futuro onde a raça humana na Terra fora exterminada por seres parecidos com nós, porém extraterrestres que explicam a nossa exumeração em massa via para proteger o planeta, visto que nessa época futurista nos matávamos uns aos outros por ganância e poder, coisas de terráqueos como eles mencionavam.

    Por essas e outras que a raça humana fora dizimada, porém alguns poucos conseguem se esconder e sobreviver do agora planeta Terra inóspito e hóstil.

    A trama é bem trabalhada no sentido da mensagem que o filme quer passar por parte dos extraterrestres que é: “ Nós só exterminamos vossas senhorias porque vocês estavam fazendo isso já e de uma forma lenta então aceleramos o processo e instalamos na Terra um certo grau ético em todos os sentidos: sejam esses políticos, sociais ou outros para que esse lugar se torne um lugar mais confiável e com almas boas “.

    Porém para isso é necessário que os humanos virassem um deles, ou seja, era instalado um chip na pessoa e automaticamente seus olhos mudavam para um branco transparente e quem não tivesse esses tais olhos cheios de design eram ainda terrestres. E de fato tem uma singularidade, quase uma bipolaridade vivida dentro de uma garota que tinha ela humana ainda viva internamente e fisicamente, porém já com um chip instalado em sua cabeça, a fazendo assim como A Hospedeira e a protagonista da fita ficto-científica.
A diferença dela perante aos outros que já estavam robôs era o fato de que ela ainda não perdera a esperança de encontrar seus parentes e isso a fez ter duas vozes, dois sentimentos: o da razão – de cumprir as tarefas do seu chip hospedeiro extraterrestre, e o da emoção: que faz com que a garota ainda tenha esperança em reencontrar suas pessoas amadas que ainda não saíram de sua cabeça e por isso continua viva, assim como um carrapato fica vivo em um ser vivo com sangue pra chupar.

    O filme, com esse ar destoante, histérico e esquizofrênico por parte dos diálogos internos de duas personagens em sua protagonista se torna de fato denso e confuso por vezes, porém ainda assim o filme tem seu valor em transmitir o valor das intenções do ser humano um para com o outro. Ademais a isso uma outra coisa bacana também a ser comentada é que quando nada mais vale ou se respeita entra a lei da sobrevivência onde só os mais fortes física e principalmente mentalmente sobrevivem. Fui pensando que iria ver no máximo um besteirol para dar medinho e conferi um filme denso e reflexivo, vale o ingresso.