quarta-feira, 08 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

Uma história de amor e fúria, boa animação nacional

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13/04/2013 às 11:44
 Pieta, Ki-duk Kim, Corréia do Sul, 2013. Existem certas circunstâncias em vida que são de fato irremediáveis. Esse é o tema central do drama vencedor do leão de ouro do festival de Veneza em 2012 e que chega agora em nossa cidade para conferirmos.

   O drama é de uma mãe que reaparece depois de 30 anos a fim de “salvar” ou somente conhecer seu filho; este que o deixara ainda com o cordão umbilical em uma típica depressão pós-parto e com o argumento que era deveras imatura na época do acontecido. 

   Com 30 anos de idade qualquer cidadão, ou a sua maioria, já tem sua personalidade formada, e o filho a tem, e de fato forte (a sua personalidade), trabalhando como um agiota onde quando seus miseráveis clientes não tinham dinheiro para pagar uns juros de 10 vezes mais das suas dividas os seus corpos vinham como forma de pagamento, aleijando-os e pegando o dinheiro de seguro de vida para cobrir a divida.

   O filme sul-coreano é seco assim como é o seu povo que de uma hora para outra estouram e depois voltam com aquele ar de superioridade espiritual típico dos povos "de olhos puxados". 

   O drama coloca em xeque o quanto vale o valor do dinheiro e o que ele provoca. As respostas são: raiva, inveja, rancor, ciúmes, infelicidade, ira, mentira; Enfim tudo de ruim que existe no homem é porquausa do dinheiro, mas como viver sem ele, eis a pergunta que fica no ar do merecido filme ganhador do festival de Veneza ano passado. Por ironia ou coincidência o protagonista ( apesar de mais magro ) é bem parecido com o ditador norte-coreano Kim Jong-un( cinéfilo assumido ) que assusta o mundo hoje ameaçando lançar mísseis na Correia do Sul, Japão, Havaí nos Estados Unidos e tudo que estiverem próximos deles. 

  Coincidências ou ironias a parte o ar visceral do seu protagonista envolve e mexe até com os mais céticos no tocante a relações familiares e a maldade humana. Como escrevi no inicio: tem coisas na vida que não tem volta, talvez um certo “ acertamento” de coisas que fizemos mal ou não fizemos, mas a vida é linear e contínua sempre, isso de fato nunca mudará: o curso natural e contínuo da vida que implica em causas e conseqüências mais cedo ou tarde. Um filme com um teor de sensibilização raramente visto e merece todos os prêmios que ganhou, apesar de corrermos o risco de ficar pensando nele durante um bom tempo.
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   Uma história de amor e fúria, Luiz Bolognesi, Brasil, 2013; É uma bem feita animação nacional tanto no tocante ao seu roteiro assim como também em sua fotografia animada. 

   Descrever a animação como uma poesia utópica, sem redundâncias, não seria exagero, principalmente pela qualidade da animação nunca produzida em solo brasileiro, onde um guerreiro índio tupinambá é escolhido para salvar o Brasil dos anos 1500 até o futuro ano de 2098. O índio tupinambá acompanha a chegada mortal dos navios portugueses com seus canhões estupendos explodindo crânios de franceses que já aqui estavam mexendo com nossas índias.

   O guerreiro, que sempre quando falecera virava-se em um pássaro para reencarnar em outra pessoa, pois bem: e tudo por um único e nobre motivo: sua amada Janaína, narrada pela veluda voz da Camila Pitanga, onde esta também por várias épocas narradas do filme se reencarna de modo que os dois sempre se acham em toda a estória animada.

   Por volta de 1827 no movimento da Balaiada no Maranhão o índio tupinambá, narrado pelo Selton Melo, se troca de pássaro para um balaieiro homem simples do campo onde encontra a Janaína, e esta por sua vez se encontra com o corpo de uma semi-índia sensual. Os dois casam e tem duas filhas, mas isso não é o mais importante porque através de batalhas sangrentas o Zé do balaio, seus vaqueiros valentes e Janaína formam o que viria a ser o cangaço com Lampião e Maria Bonita como ícones cem anos mais tarde. 

  O índio volta a não ser pássaro e sim gente por volta de 1968 em pleno golpe militar no Rio de Janeiro, e claro por causa da Janaína: uma corajosa mulher que luta contra a ditadura ( vi a Dilma na primeira passagem da personagem ).

   Repressão vai e vem, assim como ditadura e democracia embutidas prisões e torturas , o imortal tupinambá "morre" novamente e volta a ser pássaro ( pois no inicio do filme ainda em sua tribo ele toma um alucinógeno e o seu cacique diz que ele será imortal e voará para todo o sempre vendo e tentando salvar o Brasil desde que Portugal chegou por estas terras).

   Em 2098 o pássaro acha Janaína novamente como uma prostituta, onde esta vale 500 Yens chineses à noite. Depois de mais de 550 anos de existência o índio cansara-se de tentar defender o território brasileiro, de modo que só queria saber de  Janaina e o Brasil que se já era carta fora do baralho, onde a água era para poucos no planeta, como em 1500 seu cacique previra e o mandara para essa missão.

   A Janaína na verdade se desfaça de garota de programa e como de costume se reencarna como uma terrorista às avessas a fim de seqüestrar o presidente da única fonte de água potável do planeta e assim salvar o mundo da falta de água ( em 2098 a água era mais cara que uma dose do melhor uísque ).
Uma animação curta, 74 minutos, porém de forma sucinta conta a hitória do nosso país e prevê como ele ficará se ficarmos de mãos atadas esperando que “Felicianos” e outros babacas falem por nós. Parabéns ao cinema nacional e ao diretor pela pioneira animação de ponta.
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   Com poesia do inicio ao fim, Cazuza: o tempo não para, co -dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho, Brasil- 2004; que de tantos jargões e frases a serem seguidas, frases sábias por sinal, a fita é protagonizada pelo Daniel de Oliveira incorporando o nosso verdadeiro herói nacional: Cazuza, o poeta number one of Brazil contemporâneo.

    Caetano disse ( ou Caretano ) e assino embaixo. A fita diz pra que veio e faz um remix da vida do cantor poeta que brincava de ser feliz vivendo. Em determinada cena Cazuza já aidético que fazia uma farrinha com seus amigos e numa boa curtindo o final dos seus dias com alegria é interpelado, interceptado pelo seu pai que lhe diz: " Chegam dessas festas, esses seus amigos são uns vermes, nenhum presta, quer o seu bem, você não percebe isso?". 

   Cazuza responde: " eles não prestam, eu também não presto e você ainda mais por não nos entender”. Os dois se abraçam e fazem dessa cena uma coisa reflexiva, iluminativa e antes de tudo poética.

   Um filme que exalta a vida e obra de um dos principais compositores brasileiros e por isso vale ser conferida, visto que sempre reprisa em tevê aberta.