quarta-feira, 08 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

AS SESSÕES e o tema sexual na vida de um deficiente

Três bons filmes para você assistir no final de semana ou quando quiser
16/03/2013 às 20:44
 As Sessões, Ben Lewin, EUA, 2013 -  É um excelente filme que nos escancara que limitações físicas são antes de tudo coisas das nossas próprias cabeças. A história verídica se baseia na vida de um jornalista e poeta (John Hawkes) que tem Poliomielite desde criança, comprometendo assim todos os seus movimentos motores, porém seu cérebro era intacto a doença e escrevia seus poemas e reportagem via boca. 

   Em determinada ocasião do romance solitário o jornalista é incumbido a pesquisar o tema do sexo para pessoas como ele. Ele seria devidamente pago para esse trabalho e por isso não soou como uma ajuda a si próprio para desvendar o tema. Desvendar de fato, pois com 45 anos de idade logicamente pela sua sensibilidade de poeta e incapacidade física (não literalmente incapacidade total física, se é que me entendem, pois invariavelmente o poeta se constrangia com os toques femininos das suas cuidadoras, deixando sempre suas cuecas meladas ).

   O roteiro do filme é tão deveras carinhoso com o personagem que de fato esquecemos que o seu protagonista seja um incapacitado, vemos somente um jornalista que carece de ajuda para se locomover e trabalhar. 
   
   Não é um ser que vemos com pena, pois seu senso de humor e sua inteligência não permitiam esse sentimento desprezível e pequeno que é a pena, e afinal de contas como lhe diz o ditado: “ Quem tem pena é galinha”.

   E nós estamos nesse plano para cumprir nossas missões , com os corpos e cabeças que nos deram ou não. Fato é que o protagonista mergulha a fundo e a seco em sua pesquisa a fim da descoberta do prazer sexual em deficientes físicos. Por ser virgem e para sentir o que os deficientes sexualmente ativos sentem, ele precisa de aulas teóricas para sua reportagem. 

  Aí que entra a personagem da Helen Hunt  como sua terapeuta sexual. O ser humano é mesmo criativo : nunca imaginaria que existisse uma profissão específica para iniciação sexual em deficientes, mas existe e que bom que existam pessoas que se doem assim para ajudar a terceiros. 

   Profissão curiosa, porém com um senso de bondade que nos desconcertam. Então as sessões foram começando, primeiramente a parte das carícias e depois o coito. Foram no total 6 sessões entre eles, onde nas quais as últimas chegaram a via de fato, ou via do coito, transformando o virgem jornalista de 45 anos em homem total. 

   Mas que um filme de superação , este mostra claramente que é válido ainda acreditar nas pessoas antes de desesperadamente se atirar na primeira igreja evangélica ou do gênero que aparecer.  O filme é leve do começo ao fim e mostra a religião, a igreja católica mas especificamente, no papel de um padre como melhor amigo do jornalista, sempre dando conselhos ditos como não cristãos.
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   O Voo, Robert Zemeckis , 2013 - É uma produção norte-americana cheia de dramas, culpas, loucuras e heroísmo. Destaque para a atuação de seu protagonista (Denzel Washington) que lhe rendera a indicação ao Oscar deste ano. Não que a premiação seja importante no sentido artístico de atuação do ator, mas como ele já era do meio juntou ‘ a fome com a vontade de comer’ pela sua visceral atuação de um alcoólatra comandante de aeronaves pelos estados e cidades dos EUA, ou seja, só para vôos domésticos. 

   O Denzel fazia o papel de um homem bem promiscuo, assim como é o meio da aviação de verdade, onde invariavelmente se encontrava bêbado e/ou cocainado com direito a noites regadas com apetitosas aeromoças, pois como já fora mencionado, o meio do trabalho ‘permitia’ tamanha liberdade. 

   O problema é quando a diversão fica maior que o compromisso. Fato esse que acabara acontecendo em um vôo turbulento devido a tempestades e tornados insanos em mais uma conexão doméstica. 

   Com exímia maestria o comandante consegue passar ilesa a sua aeronave desses percalços aéreos apesar de encontrar sem dormir e totalmente embriagado mais uma vez pilotando. 

   De tantos vôos que o protagonista faz sob efeitos etílicos que algum dia daria merda, e não deu outra: um desastre aéreo fictício que acabara com seis vidas, quer dizer quatro, pois dois eram tripulantes e por isso não contavam, e cento e poucos feridos, porém vivos em um pouso forçado devido não a embriaguez de seu comandante como era de se esperar, mas por um baita defeito mecânico que dera fim nos dois motores do avião. 

   O calcanhar de aquiles do comandante, além do alcoolismo era a sua lealdade perante seus princípios morais, seja como este o conseguisse ter devido ao seu estado de embriaguez permanente: em todos os dias e em todos os vôos que fizera. 

   A tal lealdade com a verdade ocorrera pela morte no acidente de uma das suas “ficantes” comissárias de bordo e por isso ele seria capaz de falar a verdade e ser preso para defende-la, apesar de já estar morta diga-se ou escreva-se de passagem. 

  E de fato foi isso que aconteceu: em um julgamento onde ele tinha tudo para se safar acabou sucumbindo e contando a verdade que bebera no dia do acidente assinando assim sua prisão, fato este que poderia ser ocultado e ele teria sido liberado das grades. 

   Mas por essa ação de sentido moral de confessar que estava bêbado no dia do acidente por 3 garafinhas de vodka, acaba ganhando mais que perdendo ainda assim preso por um acidente onde não tivera culpa alguma no cartório, pelo fato de que depois do julgamento e sua prisão decretada, ele enfim consegue recuperar sua vida: sua família e principalmente vira um ex-alcoólatra tendo sua recuperação nos A.A. 

   Fazer um resumo desse filme com uma frase seria a seguinte: Pessoas vêm e vão, assim como  as doenças (estas às vezes ficam mais que queríamos assim como algumas pessoas, mas relevamos), porém o que vale no final é uma consciência limpa e colocar a cabeça no travesseiro e dormir em paz. Um drama social de um homem com uma profissão um tanto quanto informal ou atípica, mas que não deixa de ser um recado para uma reflexão do que fazemos com nossas vidas ou o que deixamos de fazer com ela.
 
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   O plantador de Quiabos,  Jair Molina Junior, 2010, Brasil -  É um curta brasileiro premiado internacionalmente que mostra a vida de uma família típica rural onde a mulher tem a função de ordenhar vacas a fim da venda do seu leite,  e por sua vez o homem trabalha na agricultura catando, plantando e colhendo quiabos, mais especificamente duas caixas de quiabos todo dia, faça este dia chuva faça este sol, tenha-se safra boa ou não.

    Essa idéia de um número sempre exato, ou seja, duas caixas todo dia sempre por parte do agricultor me remeteu a outra idéia: a da padronização das pessoas no mundo globalizado de hoje. 

  No curta fica claro que o cara que usa um caro rural e o mesmo individuo que dirige um trator e esse mesmo ator se "triplica" fazendo um papel de vendedor em uma cidade de médio porte
. Esse exemplo amplia e justifica essa idéia de padronização de idéias e de comportamento das pessoas, onde estas sempre falam as mesmas coisas, tais como: “ Deseja algo mais senhor, quer o cupom fiscal com CPF ou gostaria da sua segunda via de sua compra senhor?”.

   Oras bolas isso enche o saco. Se dizem funcionários desse sistema sem dó e principalmente sentido fazem me ter a sensação de que viver virou uma coisa supérflua, ou seja, sua vida vale mais do que uma bala na padaria da esquina ou algo quase sem singularidade e originalidade. 

   A idéia a ser proferida no curta é esta: mostrar a padronização das pessoas, mesmo estas estando longinquamente em distâncias das cidades desenvolvidas. Fato é que a globalização chegou, e para ela ficar de uma forma agradável , nossa tarefa agora é : saber dosar o mostro dessa coisa que com certeza tem dois lados: o ruim, com a castração dos costumes e religiões dos seus povos locais (haja vista a primavera árabe ), e o lado bom: que é usar a globalização como instrumento de um mundo mais humano, mais igualitário e com menos guerras. Esse é nosso mundo agora e ganhará quem estiver preparado e alinhado com a famosa lei da selva : Só para os mais fortes ou para os mais cínicos.