quarta-feira, 08 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

A chocante bipolaridade em O Lado Bom da Vida

Em momento do Carnaval, três fitas para nossos leitores
09/02/2013 às 19:30
O lado bom da vida, David O. Russell, EUA, 2012. Por abordar um tema que ainda é tabu, que é a bipolaridade, a comédia dramática tem seus méritos não pela escolha desse tema, mas como este foi abordado e explorado.

    A fita é mais uma selecionada ao prêmio de melhor filme ao Oscar. Não sei se é pra tanto, e possivelmente não ganhará a estatueta, porém a estória como foi contada, essa sim vale alguns aplausos. 

   De todas as críticas que li a respeito do filme: todas são unânimes em concordar que a pessoa depois de ver a fita sai mais leve do cinema, e isto é fato. O filme cativa porque apesar de termos todos os ingredientes para um filme pesado e triste assistimos justamente o contrário, ou seja, um cara com bipolaridade que com seu otimismo e disciplina consegue se redescobrir depois de uma traição da esposa quando o mesmo surta matando o amante e parando em um hospital psiquiátrico.

  De alta do manicômio o protagonista tem de começar do zero e provar para todos e para ele mesmo que é um ser sociável, e medicamentado não daria problemas a ninguém. Remédios era uma coisa que ele realmente não gostava, pois o deixava lento e sem racioncio e por isso até agredir a mãe com seu destemperamento ele o fez, com direito a um tabefe no pai de saída. 

   Fato é que com todas as dúvidas perante ao seu juízo o cara segue em frente literalmente correndo como um lunático para não precisar de tomar os remédios. Numa dessas corridas diárias o bipolar encontra a outra protagonista do filme: uma mulher amargurada pelo fato de perder seu marido atropelado enquanto este ajudava a um terceiro a trocar o pneu do carro. Pode soar como sujo esse ditado, mas é a pura verdade, que é: “ pimenta no c... dos outros é refresco”. 

   E assim a mulher depressiva e estourada que dava pra todo mundo quando ainda tinha um trabalho consegue entender a situação daquele ser altamente sensível a tudo, que corria aleatoriamente para qualquer lugar todo dia para fugir de uma doença sem cura e que aos poucos ele vai aprendendo a conviver com isso. 

    A relação dos dois “loucos” foram começando, eles começaram a se ver, ela queria sexo, ele por sua vez não, pois tinha uma missão: recuperar a sua esposa. Nesse jogo de sensibilidade, bipolaridade e amizade constroe-se um romance que só nos antenamos a ele no final do filme com o cara se ligando quem era a mulher certa para ele no final das contas. Se vai ganhar o Oscar já é outra estória, mas o filme é bom e coloca em debate uma doença tão antiga e marginalizada que já estava na hora de alguém colocar aos holofotes.

   Outro fato interresante da fita é que a única a concorrer aos quatro principais prêmios para atores das estatuetas do Oscar: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Julia Stiles e Robert De Niro. Se algum deles vai ganhar já é outra estória também.
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   João e Maria: Caçadores de Bruxas ou Hansel and Gretel: Witch Hunters, EUA, Alemanha, 2013. Com a atual posição de maior bilheteria norte-americana a fita nos traz um conto de fadas e heróis ao avesso. Refiro-me a um João já crescido e uma Maria pra lá de atlética, pra não dizer gostosa. 
   Eles depois de crescidos não se parecem em nada com os mesmos que aprendemos a conhecer e admirarmos quando também éramos pequenos. De crianças ingênuas os dois passam a serem jovens adultos caçadores de recompensas.

    Caçavam bruxas e por alguns motivos: primeiramente pela recompensa, ou seja, pela grana que na época era paga com moedas de ouro ou o próprio ouro maciço em tabletes. Sem querer contar o filme, mas me antecipando em alguns detalhes que não tirarão a suposta ida ao cinema de você que lê, mas existia um outro fator ou objetivo para que os agora descolados e porque não dizer sanguinários João e Maria gostarem e correrem atrás desvairadamente de bruxas: que era os seus próprios passados, ou seja, suas próprias infâncias, que supostamente foram maltratados e atracanfiados por bruxas más. 

   O passado que os irmãos caçadores não sabiam é que eles eram filhos de uma bruxa também, porém a vossa mãe era uma bruxa boa, do bem, chamada de bruxa branca que se casara com um fazendeiro da localidade. Estes por sua vez acabam a dar cabo da própria vida ( ou darem cabo da vida deles ) a fim de salvarem os seus filhos: o Joãozinho comedor de bruxinhas boas e a Maria: a gostosona que não dava mole pra ninguém. 

   Quando descobrem seus passados os irmãos têm ainda mais motivos para exterminar todas as bruxas más da face da terra, ou seja lá qual planeta for que estivessem. A partir daí o que se vê são séries e mais séries de pura e bem feitas ações de briga entre os dois irmãos caçadores e agora vingadores pelas mortes dos pais com as milhares de bruxas más existentes. 

   O confronto final como não poderia deixar de ser fora com a bruxa que matara seus pais fazendo este encontro como a cena mais espetacular da fita , cheia de efeitos especiais e claro com muita ação com sangue nos olhos de ambas as partes. Um filme que está disponível em quatro versões: 2d, 3d, 2d dublado e 3d dublado, pegando algumas saletas dos multiplexs dos shoppings centers e com censura de 16 anos por ter algumas cenas de nudez e violência com direito a muito sangue e bruxas feias.
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    De pernas pro ar 2, Roberto Santucci, Brasil, 2012. Não é só na literatura que o pornô soft anda acachapando multidões. De uns dez anos pra cá as nossas maiores bilheterias nacionais segue o gênero literário do Cinquenta tons de cinza, porém com outro nome, mas estilo semelhante.

    Trata-se da nova chanchada nacional, substituindo a pornochanchada da década de 1970 ( haja vista que somente anos passado tivemos pérolas como Os penetras, E aí Comeu, o próprio de Pernas pro ar I, etc ). Nessa época eram produzidas fitas do gênero por causa da ditadura militar que castrava qualquer outro tipo de liberdade de expressão, e principalmente se fosse contra o seu regime. 
O que me constrange como brasileiro e impressiona que se passa a ditadura, os anos, e parece que estamos ainda a gostar ou assistir as mesmas coisas a quais não tínhamos outra escolha, pois agora temos e insistimos em ver os mesmo filmes “chanchados”, só que agora um pornô soft parecido com o livro Cinquenta tons de cinza  formando assim o “pornô soft moderno cinematográfico”. 

   Não sei se é preguiça em ler legendas ou colocar o cérebro para funcionar ao assistir a um drama, mas o fato é que com mais de 4 milhões de espectadores o filme da Ingrid Guimarães é o maior sucesso brasileiro em bilheteria de 2012, deixando outros bem mais interessantes como O som ao redor do pernambucano Kleber Mendonça Filho e outros bem atrás no quesito bilheteria.

   Ainda continuamos prisioneiros de perceber o que é bom para assistirmos e isso se passa muito além da escolha de um filme x a outro y, se passa pela formação do cidadão, ou seja, pela educação que ainda em nosso país não dá o valor necessário à arte e por isso não formamos cidadãos esclarecidos, mas sim robôs programados a sempre escolher um filme como é o De Pernas pro ar 2 para um entretenimento fácil e de pouca, para não dizer nenhuma, reflexão.