quarta-feira, 08 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

ATRAVÉS DA JANELA, uma boa produção nacional

Três indicações de filmes para nossos leitores no final de semana
15/12/2012 às 10:09
O exercício do poder, Pierre Schoeller, França, 2012. Imagine ter mais de 500 contatos e nenhum amigo? Com esta frase proferida pelo protagonista dessa fita é que adentraremos no mundo pessoal de um político de alto-escalão. 

  O tal era o ministro dos transportes francês e posteriormente ministro do trabalho. Já aviso aos interessados na película que trata-se de uma fita complexa e cheia de detalhes que se não estiverem ligados passarão “batidos” e acharão o roteiro longo e pouco agradável. 

  Mas não o é, esses pequenos detalhes desse homem poderoso, porém humano fazem toda a diferença. Aquele ditado em que diz que todo homem carrega o peso da cruz que consegue carregar é totalmente pertinente à estória do nosso político protagonista, pois as situações em que ele passa e vive realmente não é para qualquer um. Outro simples mortal no lugar dele já teria infartado. Atravessar o poder e contradizer os poderosos é para bem poucos e deve ser valorizado.

   O “humano, demasiadamente humano” de fato é uma antítese ao poder e a política, pois nesta área com essas pessoas a última coisa que temos de ser é humano, ou seja, emocional e sim deveras racional para não se dar mal, e é exatamente o contrário que nosso protagonista faz, ou seja, bate de frente com as principais autoridades políticas por não abrir mão da sua natureza “humana, demasiadamente humana”. Um filme que nos apresenta os jogos do poder, suas nuances e seus limites. Sem dúvidas um belo filme.
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As aventuras de Agamenon, Victor Lopes, Brasil, 2012; É digamos a criação de um personagem que era um jornalista que de suma ora uma vez ou outra este se assemelha e se torna familiar a todos.

 Com a surpreendente bilheteria de 836.184 ingressos o filme é uma grande sátira ao politicamente correto, onde antes de tudo temos um protagonista alheio ao que é certo ou errado seguir e por essa liberdade anárquica do protagonista é que tal filme conta com tantas celebridades dando seus nomes e caras a fim de homenagear o tal do jornalista star. Nomes como o ex-presidente FHC ( não confundir com THC ), a atriz Fernanda Montenegro entre outros.

 De roteiro se tem bastante pouco, de modo que vale a comédia e o estado de espírito de criação do Agamenon sendo visto em vários lugares e situações sempre se dando mal, claro. Com um elenco basicamente formado pelos integrantes do extinto Casseta & Planeta, por hora vimos por vezes não um filme, mas uma extensão ao programa televisivo mencionado. De qualquer modo se estiver disposto a não dar bola a um roteiro de adulto e não ser tão politicamente correto assim, a comédia nacional vale ser conferida.
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Através da janela, Tata Amaral, Brasil, 2000; É um drama meticulosamente tramado por sua diretora que conta a estória de uma viúva idosa com seu filho único. A estória é “edipediana”, visto que emoção e razão ou malandragem e carência se misturam nessa relação. A fita nos dá cenas de um baita comodismo por parte desse filho de seus trinta e pouquinhos anos que finge a mãe que procura emprego todo dia santo, porém na vera o job dele era outro e a mãe jamais imaginou o que seria, pois para ela com a sua fraqueza humana devido à prematura morte de seu marido o filho acaba por “ficar” e fazer o papel de “marido ausente”, e ele descarado e mau-caráter como é usa a mãe e se usa nesse jogo descabido onde não sabemos de fato quem é o marido, filho , mãe e esposa.

 Uma bela produção nacional cheia de requintes de pensamentos e interpretações do que são as convivências familiares depois de um certo tempo de convívio, ou seja, depois em que todos viram adultos de atitudes e naturezas. A mãe é genialmente vivida pela altiva e magnífica atriz Laura Cardoso, onde faz um papel de uma mulher confusa em relação a sua solidão, em perder seu filho e viver só, e isso com as consequências que essa solidão implica, ou seja, depressão, sem ninguém mais para passar literalmente a manteiga no pão todo santo café da manhã, onde não terá mais um literal peito pra chorar ou simplesmente abraçar ( nessa cena é que enxergarmos com clareza a relação “edipediana” entre mãe e filho ).

 Filho este que não sei se pela sua própria natureza sacana ou por querer tomar vantagens de uma mãe completamente quase “brôca” de tanta infelicidade pelas perdas da sua vida acaba por fazer todas as vontades do seu filho, que às íris deste que vos escreve é apenas um passador dessa relação pra lá de “Nelsonrodriguiana”. Culpados nessa estória existem? Não, não existem mesmo. 

O que existem são naturezas diferentes de mãe e filho que insistem em morar juntos: O filho pelo motivo da “prisão emocional parental” associado ao conforto que a supermãe dá ( como já mencionei: passa até manteiga no pão do desgraçado ), e a mãe por sua vez se sente bem com alguma companhia, pois sabe que a velhice chegou e todas as suas consequências , ou seja como já foi dito; pela depressão , pelo medo de envelhecer e não ter ninguém para cuidá-la e a carência de não ter ninguém para cuidar ou dar ordens, visto que a profissão da protagonista era de uma enfermeira aposentada. 

Uma fita nacional que se tivermos o cuidado e a sensibilidade de percebemos pequenos detalhes de seu roteiro veremos que questões complexas que abordam fatos familiares extremos ou atípicos podem ficar claros. 

O filme é bom, pois é uma fita que foge do estereótipo de que filmes nacionais vem sempre com roteiros fáceis e de certa forma palatáveis no sentido de entendimento fácil aos “ticos e tecos” dos espectadores que estão acostumados a ver os Tropas de Elite ( seja qual número for: 1,2 e agora 3,4, etc.) Uma fita nacional que vale ser conferida por sua punjância de roteiro, embora tenha minhas dúvidas que tal diretora realizadora tenha tido essa total compreensão do que fez, porém de resumo como material final se saiu feliz na produção que fez, por cagada, sorte ou qualquer nome que queiramos dar. Não posso deixar de reescrever a belíssima atuação da veterana atriz Laura Cardoso: praticamente carregou o drama nacional nas costas contracenando com um inexperiente ator, que era seu filho. Vale conferir pela atuação da atriz e seu roteiro pra lá de pesado