quarta-feira, 08 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

CONFLITO E APROXIMAÇÃO em Gonzaga de pai para filho

Não pretendo fazer qualquer tipo de propaganda ao filme, mas o mesmo me mexeu. E você sendo nordestino ou não poderá mexer também
10/11/2012 às 10:04
   Gonzaga - De Pai para Filho (2012), Brasil, Breno Silveira.Acima de tudo será um ato de coragem comentar sobre esplendorosa fita. Concordo com todas as críticas que li a respeito do filme: que ganhará a maioria dos prêmios nacionais e será concorrente ao Oscar 2013. 

   Porém a tempo de uma ressalva ainda: Xingu era para ter sido o selecionado esse ano ao “oscar”, não o palhaço como foi feito. Mas vamos ao que interessa que é o filme do Breno.

  Antes de tudo como mencionei será um ato de coragem resenhar o filme, pois como nordestino me encontrei por vezes como uma “história duplicada”, ou seja, por história vivida, em maior ou menor grau. Sou nordestino: filho de paulista com baiana, o oposto a Gonzaguinha: filho de nordestino com mãe carioca. 

   Talvez por isso a fita me tocou tanto. Entendo que o filme, mas que qualquer outra coisa fora feito como um tipo exorcismo por parte do diretor, não se importando com bilheteria ou se iria fazer mais sucesso que o filme Os filhos de Francisco, coisa que certamente não irá fazer mesmo, visto que a história é mais dramática que popular. 

   Acima de contar desentendimentos entre pai e filho à fita quis homenagear dois grandes nomes da música popular brasileira, sendo assim classifico tal filme mais como um documentário musical e cultural do qualquer outro gênero. 

   O filme aborda o Brasil desconhecido e pouco prestigiado chamado Nordeste da sua região. Mostra a trajetória do mito e criador dos ritmos musicais: xaxado e baião (Luis Gonzaga), paralelamente com a história do seu filho já criado e alfabetizado: Gonzaguinha, no Rio de Janeiro. 

   O alfabetizado veio bem a calhar para comentar tal película, pois o sonho do rei do baião era ser doutor, coisa que o filho Gonzaguinha conseguiu, apesar de muitos contratempos. Porém, ainda assim a relação dos dois nunca foi das melhores com os seus gênios diferentes: um da escola da vida e do “passar fome” (Gonzagão ), e o outro com a consequência da angústia de tudo isso passado pelo “pai”, alinhado as suas vivências e experiências pessoais. 

   Realmente não sei quem sofreu mais; tanto é que depois de um ano e nove meses do  pai falecer o filho foi ao mesmo caminho em um acidente de carro. Filho este que nunca fora de fato, por isso tamanha dificuldade no relacionamento. Gonzaguinha se apoiara muito na história de vida de sua vida mãe: cantora e dançarina bela que morrera ainda nova pela tuberculose.

  Se apoiava na hisstória da sua mãe que pouco tinha lembranças pelo motivo que  não tinha o apoio do pai, o que se faça justiça nunca deixou faltar nada para o filho, apesar da falta de amor paterno, coisa aliais que o Gonzagão não sabia o que era por ter tido um pai chamado Januário que respondia toda vez que ele lhe pedia benção: “de que deus te faça homem” e a posterior: de que deus te faça feliz”, quando o Gonzagão ingressará nas forças armadas brasileiras.

   Não pretendo fazer qualquer tipo de propaganda ao filme, mas o mesmo me mexeu. E você sendo nordestino ou não poderá mexer também, pois além da relação ou conflito abordado de pai-filho, é acima de tudo uma homenagem cultural desse continental país chamado Brasil.
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   Histórias só existem quando lembradas, de Julia Murat, 2012, Brasil. Realmente uma obra-prima, onde infelizmente só pode ser conferida em festivais, pois em salas comerciais tamanha genialidade não tem espaço. 

   A Julia Murat brinca com temas como: velhice, morte, vida, jovialidade, experiência, falta dela, alegria, tristeza como estivesse brincando com bolas de gude. Com locações em casa antigas de um interior brasileiro, a fita nos faz repensarmos em nossas vidas, em que rumos darmos a ela e como seguir com elas mais levemente, sem culpas e com mais convicção. 

   A simples, porém bela fita conta a história de uma jovem andarilha que decide passar alguns dias em uma cidadezinha do interior de algum canto desse Brasil, apostaria que seria em Minas Gerais, mas como a fita não divulgou tal informação, fiquemos no “achismo” mesmo. Porém isso é o que menos importa. 

   As relações pessoais e sócias dessa andarilha com a população local é que nos faz mitigar sobre a fita nada comercial. O que afinal vale: um diploma ou a simplicidade de uma vida onde as manias e o impiedoso passar do tempo é quem dita às regras? Eu saí do cinema sem saber responder tal simples, porém auspiciosa pergunta.

   Se não pararmos pra pensar responderíamos na lata: obvio que um diploma e tudo que ele fantasiosamente dá direito. Porém a fita é tão genialmente arquitetada no sentido de perceber as coisas simples da vida, como uma mania de uma pessoa que está preste a morrer ou a solidão de outra, que ficamos na dúvida se as melhores coisas são bens materiais de fato. A película é mais completa que essas indagações vazias e repetidas que faço. 

   A fita de um jeito peculiar instiga ao questionamento da existência humana. Sei que esse tema parece soar “piegas”, mas como a diretora aborda isso, sem sombras de dúvidas não se trata de nada “piegas”. Um filme de alma e para tocar nela ou ao menos despertá-la. Salve o cinema independente nacional, pois este ainda é muito enriquecedor.

   Não sei se é porque estou assistindo a uma cambada de filmes em um festival; filmes estes independentes e geniais em sua maioria, escreva-se de passagem, que as fitas ditas ou descritas como comerciais passam mal por minhas íris.

   Se fosse pra comparar fitas comerciais com independentes seria o mesmo de medir forças dos EUA com o Irã, ou comparar um pato ao molho francês a um PF da esquina da sua rua. É com esse “instigamento” é que vim “aquá” escrever e afirmar que o principal filme holiwodiano do momento é uma tremenda babaquice. 
Refiro-me ao James Bond e seu 007- Operação Skyfall, Sam Mendes, 2012, EUA . A fita antes de tudo tem a dura missão de homenagear o cinquentenário do filme e ao mesmo tempo tenta salvar a estória pra lá de batida. Desta vez ainda vemos um James Bond comedor, mas também amargurado pela traição de sua fiel e escudeira chefona. 

   Ademais percebemos um protagonista procurando uma figura materna, pois afinal de contas cinquenta anos de “comilança” não foi brincadeira. E por isso pela primeira vez vimos o James chorar ao tumulo dos seus pais. 

  O agente 007 se faz totalmente diferente do que estamos acostumados em vê-lo, como quase que um imortal. Desta vez ele tem costelas quebradas, alcoolismo, depressão. Porém ainda assim não perde a sua principal virtude: a coragem e a inteligência também. 

   Mas que um filme de ação este último 007 mostra um enredo bacana com um drama existencial do protagonista devidamente percebido e passado em seu roteiro. Um bom filme, talvez consiga salvar o agente e suas aventuras por mais algumas fitas ou anos, porém duvido bastante que isso se perdure por mais de uma década. Sobre o protagonista: é melhor trocá-lo, pois nem só de músculos o agente 007 fora feito, e os outros passados que o digam e se irritem com esse atual.