sexta-feira, 03 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

VIOLETA SE FOI AO CÉU, TROPICÁLIA E DELICATESSEN

Três bons filmes
06/10/2012 às 08:00

Foto: DIV
Violeta se fue a los cielos, Chile, de Andrés Wood com Francisca Gavilán
   Com um vasto número de documentários musicais vistos sobre o tema, Tropicália, do Marcelo Machado, Brasil, 2012 se esta obra não foi a melhor, está na lista entre os documentários mais éticos do gênero sem sombras de dúvidas. 

   Geralmente quando pensamos em Tropicália, que fora esta grande revolução musical na música brasileira, logo associamo-nos ao Caetano (ou Caretano ) e ao Gil. Todos os documentários que assisti do gênero, exceto este, de certa maneira sucumbe e acaba por “puxar a sardinha” para os dois artistas citados.

    Não sei se isso acontecia pelo fato de ser mais fácil associar tal movimento com os dois músicos que estavam na linha de frente do gênero musical novo, meio que “patenteando” de forma incorreta tal e pegando os "seus louros" do estilo ou da tal nova ordem de música produzida no Brasil nos tempos ditatoriais. 

   Fato é que sim: os tempos de ditaduras eram de realmente difíceis para a liberdade de expressão, e em se tratando de liberdade artística  então a censura se exponênciava consideravelmente. 

    Umas das partes do isento e por isso melhor documentário produzido a respeito do tema ou estilo musical abordado que mais chamou-me atenção foi quando “Caretano” e Gil em que já estavam exílados em Londres, entrevistados por um jornalista qualquer deram a seguinte explicação sobre o movimento:

    “A tropicália já não existe mais, foi apenas um movimento que existiu enquanto eu e Gil morávamos no Brasil, de modo que agora nós exilados de Londres, esse estilo obviamente não teria como continuar a acontecer ainda em terras tupiniquins", esquecendo totalmente de outros artistas ou grupos como Mutantes, Chico Buarque, Ritta Lee, entre outros.

    Aí é que entra o mêrito, ao menos para esse resenhista, deste documentário, que é por ter pontos de vistas diferentes dos vários outros filmes já produzidos sobre essa época ou esse estilo musical que tanto influenciou nossa cultura.

    O documentário não se restringe apenas a só limitar como os “pais” da Tropicália Gil e “Caretano”. O documentário tem a perpicásia e principalmente as provas para adentrar no tema e mostrar que mais influência dos artistas baianos citados, o movimento tinha por si só, ou seja, por suas próprias pernas e forças, estilo e estória própria. 

    Não podemos deixar de hipocrisia e falar que o movimento Tropicalista foi de todo nacional, ou seja, nasceu aqui com ideias dos nossos artistas, pois isso não é a verdade concreta. O mais sensato seríamos admitir que a Tropicália foi um movimento que desde sua origem sempre tivera influências fortemente pop de artistas internacionais, isso sem contar com uma “bebedeira”sem fim do blues e do jazz norte-americano.

     Enfim: como na natureza nada se cria mas tudo se transforma podemos classificar a Tropicália com um movimento sim, óbvio: de suma importância, tanto do ponto de vista cultural assim como principalmente político por suas inteligentes letras com duplos sentidos de que em sua maioria protestava contra a ditadura militar. 

    Agora falar que a Tropicália foi um movimento do inicio ao fim nascido e criado somente por artistas nacionais sem influências de artistas e situações políticas e culturais internacionais seria no mínimo uma mentira descabida.

     Mentira essa devidamente esclarecida pelo Tom Zé no programa do Jô (que escreva-se de passagem: um gordo hipócrita e insuportável, assim como tudo que tem e passa naquela emissora ou 95% das coisas de lá, ou seja, quase tudo, e isso eu sendo generoso.
     Temos como tupiniquins nos orgulhar do movimento tropicalista sem dúvidas, porém não foi essa “coca-cola toda” como a maioria prega. Um documentário musical profundo do movimento discutido em questão, enfim um documento ético e acima de tudo lúcido do que foi de fato o Tropicalismo dos “patentiadores” Gil e “Caretano”,ou não.
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Violeta se fue a los Cielos ou Violeta foi para o céu, Chile, 2012,do diretor Andrés Wood e incrivelmente protagizado pela Francisca Gavilán, é a cinegrafia da principal multi-artista do Chile. 

   Mas que abordar as estórias de vida da artista a belíssima produção tem a característica de através da vida da genial e temperamental artista, mostrar a dureza de uma vida regada a pobreza com direito a um pai caucasiano alcoolizado e uma mãe de origem indígena que por natureza ou por descuido acaba a sucumbir às vontades de um marido agressivo, artista e “vítima” das circunstâncias da vida. 

   Porém sua filha e protagonista do maior símbolo folclórico chileno não “engole” tão destemperamento de seu pai e de sua criação e cresce com essa angústia mal resolvida se tornando uma mãe relapsa. A poesia ela puxara do seu pai alcoólatra que sempre quando bêbado recitava lindos poemas. 

   O filme é bem feito, pois é um flash- back da protagonista desde sua infância até os tempos adultos ou dos seus tempos adultos até a infância. Porém a beleza da estória da protagonista supera qualquer forma equivocada de roteiro, pois além de cantora a Violeta Parra era poetisa, pintora, ou seja, uma multi-artista com seus trabalhos publicados no museu do Louvre, em Paris, e os "campau". 

   Fitas como essa que no Chile muitos consideram já como a melhor obra realizada naquele país é difícil colocar em letras, o único jeito ou solução para desvendar tal magia da vida dessa grande artista é assistir a esse filme, e com um lençinho ao lado como prevenção pela qualidade do que irá ver. 
       Como diz o ditado: “antes tarde do que nunca”, pois assim como eu, muitos não sabiam nem nunca ouviram falar de Violeta Parra, e esta é uma grande oportunidade para conhecê-la, sem dúvidas não se arrependerão.
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  Delicatessen, dirigida pelos geniais Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro, 1991, é uma fábula francesa de tempos difíceis, porém a estória não é tão descabida assim, ao menos a esse que vos escreve. 

   A fábula imagina (lógico, senão imaginasse não seria uma fábula) uma Paris devastada pela maldade humana, onde esta se manifesta principalmente por duas causas; primeira: pela ignorância e segunda: pelas circunstâncias ou não necessariamente nesta ordem. Pois bem, a fábula com ar circense e visceral ao mesmo tempo conta a estórinha de uma cidade que por não ter mais alimentos para seus habitantes, agora sobrevivem por abater aos mais desavisados, ou seja: uma terra onde o canibalismo era que reinava. 

   Ressalvo aqui que embora o tema e ações da fita tenham a ver com o canibalismo, em momento algum o filme se passa como trash, de terror ou mal feito. Pelo contrário, a fita se desenrola com uma doçura quase que inimaginável de um casal de artistas que tentam sobreviver perante tamanha calamidade humana. 

    O enredo é o seguinte: um prédio com vários tipos de personagens excêntricos dividem aqueles vulgos tempos de escassez alimentícia onde quem saia dos seus apartamentos à noite tinham um destino certeiro: a morte e o seu abatimento pelo fato de o síndico e dono do estabelecimento ser um açougueiro que ficava a noite inteira vigiando que entrava e quem saia. 

   Existiam também os trogloditas que eram sobreviventes dos canibais e que moravam na parte subterrânea daquela Paris caótica. De certo modo os tais trogloditas por terem de se esconder nos esgotos acabaram por ficar loucos, mas naquelas circunstâncias de vida onde a carne humana era o que mais se valia quem não era de fato insano? 

    Acho que não sobrava ninguém, talvez o casal de artistas que pela arte conseguia alguma sanidade naquele hospício onde viviam ou naquele prédio. Tive o cuidado de ver duas vezes a fita, porém pela genialidade do que me foi conferido confesso que ainda precisaria de ao menos umas três assistidas mais para total digerimento e compreedimento agudo da genial fita. O cinema apaixona por obras de arte como Delicatessen.