sexta-feira, 03 de dezembro de 2021
Colunistas / Cinema
Diogo Berni

LA VIEJA DE ATRÁS É UMA LIÇÃO DOS HERMANOS ARGENTINOS

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23/06/2012 às 08:00

Foto: DIV
La Vieja de Atrás tem direção de Pablo Meza
  A   velha dos fundos (La Vieja de Atrás, 2012, com direção e roteiro do argentino Pablo
Meza) é uma coprodução Argentina-Brasil (leia-se Rio Grande do Sul) que tem como tema principal a solidão das pessoas. Não tem como não "pagar pau" para o cinema portenho, eles
são evoluídos nisso em comparação a nós e ponto final.

   Em especial em a Velha dos fundos mostra-se, ou melhor, escancara-se a faceta ou situação da humanidade contemporânea: o estar sozinho, e isso acontece por mais que estejamos rodeados de pessoas, pois a solidão a algo interno e só quem sente de fato na pele entende essas letras, e acredito que muitos sentem.
 
   Nessa fita conta-se a história de um estudante de medicina oriundo de uma pequena
cidade interiorana argentina chamada La Pampa que vai estudar na cidade grande,
Buenos Aires ou uma cidade qualquer argentina de maior porte, a fita não fala o nome da cidade em questão; se virando para sobreviver, e ademaia também mostra-se o segundo personagem do filme: a sua vizinha dos fundos em um prédio onde os apartamentos parecem ser mais cúbiculos apertados e caídos ao invés de cômodos dignos para se viver.

   A segunda personagem em questão é uma viúva espanhola aposentada de sangue caliente com um humor ácido, em que dá o ritmo ao interessante filme. É nesse despretensioso enredo que a estória desses dois personagens se cruza, ou seja, na solidão de pessoas em cidades grandes.

   Enquanto o estudante tímido de medicina fica sem grana para pagar seu aluguel à
rabugenta espanhola o convida para morar com ela com apenas uma única imposição: conversar com ela antes de dormir todas as noites para acalmar os seus nervos, que como uma boa espanhola sempre anda a flor da pele.
 
   De suma é mais uma aula do cinema argentino ao brasileiro por alguns fatores, tais como: pela forma, pela autenticidade, pela honestidade em não julgar o público em que vai
assistir como "retardados" (coisa que infelizmente acontece com a maioria e os
principais filmes nacionais); pelo poder em transformar o cotidiano em coisas prazerosas de assistir e por fim por entender e ter a sensibilidade em colocar em tela coisas que os espectadores se emocionem e saiam da sala de cinema satisfeitos, não por efeitos especiais ou cenas de violência vulgar, mas pela sinceridade em que uma estória simples e bonita mostra com um orçamento pequeno, escreva-se e passagem.

   Não é querendo menosprezar nosso cinema, porém já fazendo isso, mas filmes de baixo orçamento como esse batem de levada em nossas superproduções em que nada ou muito pouco tem a nos transmitir de significante. Acho que falta aos diretores brasileiros uma porção de ludicidade em suas estórias alinhadas a uma porção de genialidade, e isso os
argentinos tem de sobra.

   A melhor saída para o cinema nacional é primeiro: admitir que somos ruins nisso, talvez seja o primeiro passo a nos tornarmos menos piores do que somos, e olha que estou comparando a maioria dos filmes brasileiros a um filme mediano portenho, pois se for pegar um Top de lá, com certeza exterminaria todos "os tropas de elite" e as comedias medíocres que são feitas aqui.

   Como humilde e ousado resenhista cinematográfico tenho a petulância em dar um conselho ao cinema nacional: Se o orgulho não deixar admitir que somos bem piores que a Argentina nisso, que ao menos os principais cineastas deste país continental mirem seus olhos a escola gaúcha de cinema, pois essa sem medo de errar é a melhor que temos, e se a escola gaúcha for vista como "referência", aí sim teremos chances de um dia sair dessa mediocridade da maioria dos filmes que produzimos.

  Quando cito a palavra medíocre não coloco Walter Salles, Fernando Meirelles ( que é mais gringo que brasileiro, pois só faz filme em língua inglesa e não teve coragem para fazer a obra de Guimarães Rosa até agora, espero sinceramente que ele tenha e faça, pois será um filme de suma importância para nossa cultura ) e mais meia dúzia de cineastas alguns pernambucanos e outros gaúchos, e mais dois ou três espalhados pelo Brasil.

   Enfim, amadurecer nunca é tarde e o cinema nacional precisa acordar de sua incapacidade ou falta de coragem de fazer obras que fujam do padrão estético atual onde de suma a
única preocupação é cativar a classe C com comédias que nada dizem, mas que arrecadam. Para que o cinema brasileiro seja grande é necessário que pense grande, esquecendo um pouco se o filme vai ter bilheteria ou não, ou seja, precisamos de conteúdo, de cabeças pensantes nas produções para que um dia tenhamos uma sociedade crítica.

   Sou esperançoso e acho que um dia teremos orgulho do cinema nacional, mas essa maturação certamente levará algumas décadas, desde que o conteúdo cinematográfico seja levado a sério a partir de hoje. Quando escrevo: seja levado mais a sério, leia-se: Seja levado com menos interesse comercial e mais intelectual e cultural, pois é isso que o Brasil
precisa: menos porcaria e mais informação cultural de sua própria estória. E se quer rir, vá pra um buteco e encha cara, pois o cinema é uma ferramenta séria e muito mais poderosa do que um "Se eu fosse você" de um Tony Ramos da vida