segunda-feira, 24 de julho de 2017
Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA analisa livro AMIZADE É TAMBÉM AMOR

Um livro prazeroso sobre crônicas do cotidiano com alta dose de humor
13/05/2017 às 20:28
 Ler o gaúcho Carpinejar é sempre um imenso prazer. O autor é um dos mais espirituosos do país e tem tiradas incríveis, creio, únicas entre os escritores nacionais. A sua verve é de uma criatividade que não há limites na abordagem dos temas mais complexos, aos do dia-a-dia. Aliás, diz-se que o mais diciil num autor é extamente tratar do dia-a-dia, das coisas que nos cercam. Parece fácil, mas, o fácil, o comum, o que nos acompanha a toda hora parece-nos tão óbvio que não seriam atrativos. Mas, são. Na pena de Carpinejar o fácil vira pérola.

   Um dos seus livros publicados pela Bertrand Brasil intitulado "Amizade é Também Amor" (287 páginas, R$35,00) é como diz o autor que assina sempre Carpinejar, mas chama-se Fabrício Carpinejar, prêmio Jabuti 2012 com 'Volúpia: O Vento Doido da Esquina',  "os amigos se completam, são as melhores conversas nas horas boas e as mais divertidas nas horas dificéis". 

   São com esses adágiois que Carpinejar compõe o "Amizade é Também Amor" com algumas observações na orelha dando conta de que "amizade é ter alguém para comemorar o seu sucesso, longe da inveja e do olho grande".

   Não é sensacional! Eu acho e compartilho o sucesso desse premiadissimo autor gaúcho, universal, brasis, e que nos brinda a cada livro com textos deliciosos, agradáveis, e que nos faz entender um pouco mais o prazer da vida. 

   "Amizade é a liberdade de falar e de falhar. Não tem ninguém ao lado controlando os seus erros e censurando as suas palavras", ensina o autor. Melhor posto, Carpinejar não ensina nada; ou ensina tudo a depender do que seu ponto-de-vista de agregar alguns dos seus pensamentos como afetivos. 

   Entendo assim e guardo alguns desses 'ensinamentos' ou 'pensamentos' dessa forma, como práticas a ser adotadas. Óbvio, sem nenhum compromisso de seguí-los, ou quem sabe, incsoscientemente seguindo-os.

   As coisas boas estão aí para isso. Para os leitores apreciarem e se tornarem fãs, seguidores. 

   O autor, no entanto, não faz qualquer sinalização nessa direção. É um livre pensar e aceitar o que narra em "Amizade é Também Amor" e nas dezenas de textos pequenos e extremamente objetivos. Carpinejar comenta desde o prosaico 'Banho de Caneca' a 'Expectativa e Esperança', cada qual que tire suas conclusões e interprete seus textos, escritos em linguagem bastante compreensível, como quiser, como achar melhor.

    E até, se for o caso, também escrever suas experiências do dia-a-dia da vida já que todos as têm em maior ou menor quantidade.

   Os textos de Carpinejar se postos, por exemplo, numa sala da aula, tem matéria para todo o ano letivo tanto são os pensamentos e argumentos. Que tal analisar a expressão "Éramos obedientes pela submissão do tempo" dito pelo autor em "Silêncio de Inverno", na sua Caxias do Sul na época de escolar. 

    É dele o complemento: "Nenhum professor mantinha a turma quieta, nenhuma tarefa, nenhuma voz autoritária, nenhum castigo; apenas o inverso rigoroso do Rio Grande do Sul".

    Brilhante e diferenciado da vivência aqui do Nordeste onde o inverno só existe em áreas do Sudoeste do Estado. Imagina-se, pois, a interpretação de um texto dessa natureza entre alunos da estufa Salvador. 

   Capinejar é isso, o cotidiano, o saber colocar no papel aquilo que parece improvável à literatura. Há textos sobre o 'parafuso', 'papelão', a 'mãe no cinema' , o 'incêndio', 'a francesa', temas tão simples e tão complexos. Tente aí você escrever algo sobre o parafuso. Ele está em nossas vidas em centenas de peças e engrenagens. Agora ponha isso no papel como texto literário.

    Carpinejar consegue. Tanto que seu livro "Amizade é Também Amor" lê-se quase num fôlego só, o leitor ávido por virar a página e encontrar adiante uma surpresa. Cada texto é diferenciado do outro, embora, no conjunto trata-se de um mosaico interessante da vida e também da morte. 

   "A morte tem seus seus segredos de amor, sua coragem parece ser a negar de si mesma" ou "A morte também é humana e incompetente". Eu mesma nunca tinha apreciado observações tão sarcásticas com dona morte uma vez que, na interpretação do autor, "A morte nem sempre mata - é a gente que não tem capacidade de provar as suas distrações invisíveis.

    Esse Carpinejar é humor em altissima dose do soberano pensar. 

   "A grande diferença entre a amizade e o romance é que a primeira não exige exclusividade. Você pode ter vários amigos e nenhum o acusará de infidelidade. E cada um será amigo de uma maneira, de um jeito especial, para algum assunto e especialidade", confessa.

   Carpinejar é isso em "Amizade é Também Amor", uma lição em cada página.