segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

Mulher do Rasta não teme crise e vai para temporada em Paris Céu convoca amigas para estud

Céu convoca amigas para estudar francês e diz que só acredita em São Cristovão e o no ex-vereador Cristovão Ferreira, o pai do pobres autêntico
21/02/2016 às 20:07
Passado o Carnaval, quando trabalhamos muito no Pelô, decidimos eu e dona Céu Mangueira, minha santa esposa, descansar uns dias em Caixa Pregos, na ilha de Itaparica, na casa de um amigo comum e tomamos banho de mar a vontade, curamos os calos dos pés de tanto trabalho carnavalesco e de uns pulos que demos atrás do trio de Tyrone Cigano curtindo a música preferida de Céu, "Sabonete de Motel", bebemos algumas cajuroscas no bar de Nélson Colombiano em Berlingue e agora estamos de volta ao batente. 

   Emergente classe C, se vocês não sabem, é quem mais sofre com essa crise medonha que inferniza nosso país, o desemprego a cada dia aumentando, turistas ficando a cada ano mais escassos no Pelô, e nem adianta ficar fazendo shows com Xarope, com Bahia System, Lazzo Matumbi, Ederaldo Gentil e Márcia Short porque só quem comparece é a baianada que, quando muito toma uma cerveja e dois cravinhos, portanto, consome pouco. 

   A situação tá periclitante e com essa ideia maluca de Céu querer passar uma temporada em Paris, acho melhor era repensar essa situação porque ela não é servidora do TJ, daqueles 124 que ganham mais de 100 mil capilés por mês como revelou doutor Eserval sem papas na língua, não é do Cerimonial da Casa das Leis, não é parente do conselheiro Souza, nem de Dr Zéu, dois endinheirados que conheço, daí que acho melhor ela se contentar em ir na Rua da Bélgica, aqui no Comércio da Cidade Baixa, por sinal com muitos casarões desabando, ou se quiser um lugar mais sofisticado ir ao Boulevard Suiço, nas imediações do Campo da Pólvora que faz o mesmo efeito de Paris.

   Se nós não temos o Champes Élysées temos o Campo Grande que é outra boa pedida pra passearmos e quero saber se Paris tem um Porto da Barra, tem uma praia igual a da Boa Viagem, um por do sol igual ao do final de linha de Itapuã, se tem a negra Jhô, se tem o acarajé de comadre Balbina de Iansã, se tem a Cantina da Lua com a simpatia de Sêo Clarindo, o qual me vende fiado de vez em quando, se tem o salão de Adréa Lady Lú, de sorte que minha missão é convencer Céu a desistir dessa ideia de ir a Paris o quanto antes. 

   Para isso, claro, consultei nosso conselheiro Badu, o Intelectual de bigode, o qual, para minha surpresa apoia a proposta de Céu e ainda me deu uma reprimenda.

   - Deixa de ser atrasado e contribua com a sua esposa para ir a Paris, aquilo é que é cidade e não essa que você mora aí onde o povo mija na rua e em toda esquina tem um batuque, uma lavagem - comentou direto de Brasília.

   - Epa! Se você quiser elogiar Paris, tudo bem. Agora, querer esculachar Salvador aí não dá. Aqui, mijava-se nas ruas e os homens faziam 'terra' nas mulheres nos ônibus, mas, hoje, tá melhorando, tá todo mundo civilizado, inclusive já temos até metrô 'calça-curta'.

   - Como assim, civilizado! Acabo de ler na imprensa que estão abrindo um 'puteiro' no Rio Vermelho, bairro recém reformado pelo alcaide, inquiriu.

   - Nada disso que V. Exa. falou. É uma casa de espetáculo noturno de 'streaptease' como tem em Paris, em Buenos Aires, o 'corre nu' em São Paulo, as 'boqueteiras' nas Baleares, na Espanha, mas, é tudo privê, não é na rua, nem na praça da Dinha pra o público ficar olhando - dissimulei afirmando que vai lá quem quer.

   - Se dona Céu for passar uma temporada em Paris com certeza ela irá ao Bataclan, ao Moulin Rouge - amaciou Badu.

   - Meu nobre, se estou lhe consultando para v me ajudar a tirar essa ideia de Paris da cabeça dela, lá vem você falando em Moulin Rouge. Daqui a pouco v vai querer que ela vá jantar no Plaza Athenée. A coisa é séria. A crise nos atingiu em cheio. Estou igual ao governo federal promovendo contingenciamento, cortes no nosso orçamento, enxugando despesas. Estamos na base do inhame seco, sem margarina - ponderei.

   - Nesse caso, salvo se v conseguisse um empréstimo com dr Zéu ou com outro caixa alta daí, a viagem poderia ser realizada.

   - Esqueça. Estamos igual ao Brézil, para usar uma expressão do tempo dos holandeses na Bahia, na abstinência total, salvo de sexo porque dona Céu não pode ter mais filho e esse Zika não nos mete medo. Digo mais, aqui em casa tem umas muriçocas que nem aquela raquete da ministra consegue matar uma delas - frisei.

   - V poderia sugerir a presidenta usar essas muriçocas para matar as mosquistas da dengue e congêneres - sorriu Badu.

   - Para de esculhambação nobre Badu. Vou dizer a Céu que V. Exa. também desaconselhou a viagem, não de todo, é verdade, mas adiando para um tempo melhor - comentei.

   - Certo. Diga isso a ela. E mais, se meu candidato dr Cristovão for o novo presidente do Brasil vocês vão ver o pulo que este país vai dar. Quarenta anos em quatro - assegurou o conselheiro.

   - Você tá falando daquele camarada da educação que fala igual a Gilberto Gil uns prolegônimos que ninguém entende?

   - É ele mesmo. Vai dar Cristovão na cabeça - garantiu.

   Bem, o certo é que, quando cheguei em casa tinha argumentos para tentar fazer com que Céu dessistisse da viagem a Paris. Cheguei à noite todo serelepe, saco de pão embaixo do braço, cantarolando o samba da Mangueira em homenagem a nossa Bethânia, e comentei com Céu que havia falado com Badu e ele sugeriu esperar passar o pleito de 2018, esperar uma melhora do Brézil (esnobei em francê arcaico) para ela concretizar sua viagem, lembrando que vinha aí Cristovão para presidente.

   - Não tem Cristovinho nem Cristovão, o único São Cristovão que acredito é aquele padroeiro dos motoristas, e o meu querido vereador (que Deu o tenha, benzeu-se) Cristovão Ferreira, o pai dos pobres, não esse malandro que tá aí dizendo dizendo isso, e eu minha amiga Tati Pão já providenciamos um professor de francês para aprendermos o básico dessa língua, vamos convidar Rafa Enfa, Beatriz Cigarrinho, Rita Motobike e Tina Copo para também participar do curso para reduzirmos os custos, e vou por que vou a Paris.

   - Mas, com que capilé. Você não tá vendo a crise batendo na nossa porta e na dos outros, o ovo de páscoa já reduziu o tamanho, o papel higiênico tá com menos dois metros, o pão tá fôfo, sem massa. Veja essa aqui que trouxe - mostrei.

   - Não quero saber. Em Paris vou comer baguetes e chocolate da Suiça e consumir papel higiênico de Londres. Não sou eu que vou esperar uma melhora deste país porque já tenho quase 50 anos esperando por isso e nada de chegar.

   - Tenha paciência. Com Cristovão, nosso conselheiro Badu vai ser ministro daí que pode arranjar uma boca livre e aí, iremos nós dois para Paris.

   - Não vou esperar nada. Vai ser neste 2016 e pronto. Daqui a pouco eu parto pra outra galáxia, como diz doutor Benjamin Sax, 'para os anéis de Saturno", e não saio da Caixa D'água. Au revoir