ter?a-feira, 18 de junho de 2019
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

O Rasta do Pelô, o decreto das baianas, o bozó e as eleições

Rasta está preocupado com o decreto do prefeito ACM Neto cobrando taxas diferenciadas para tabuleiros das baianas
05/12/2015 às 14:55
  Sou do tempo em que Jorge Amado, Waldeloir Rego, Vivaldo Costa Lima e/ou Godofredo Filho ligavam para um prefeito pedindo para não mexer no ponto de uma baiana do acarajé que era mesmo que uma lei. E ninguém se sentia ofendido com isso. Pelo contrário, até elogiava, e às vezes divulgava para mostrar que a autoridade era compreensiva com as baianas.

   Agora, o prefeito ACM Neto, bem intencionado, disciplina mais uma vez os espaços ocupados pelas baianas e a Prefeitura exige o uso dos trajes típicos, asseio nos tabuleiros e produtos de boa qualidade. Tá certo. Uma passarinha de má contexto é dor de barriga na hora, no mínimo. Há casos, públicos e notórios, de infecções intestinais.

   Mas, desconheço desde tempos idos e são milhares de baianas vendendo seus quitetos nas ruas de Salvador, praças, quiosques, espaços cobertos, shoppings, etc, alguém que tenha morrido por ter comido um acarajé, completo que seja, repleto de pimenta.

   No mais, acontece com os 'gringos' - turistas estrangeiros e paulistanos - uma caganeira ou ardor na boca e outras partes del corpo.

   Ainda falando do tempo de mestre Pastinha, de Leal Engraxate do Pelô, de Sandoval do Bandolim e de João da Matança e seu violão naquela época só existiam as baianas do acarajé. 

   Baiano do acarajé é coisa nova, de uns vinte ou trinta anos pra cá, diante da modernagem que tomou conta do mundo. Aliás, diga-se de passagem, é a única profissão ainda não regulamentada que os homens invadiram os espaços das mulheres, embora alguns deles se comportem mais como 'baianas' do que como 'baianos'. Faz parte.

   Nem sei se o pioneiro da fila foi Gregório. Pero, se não foi, pelo menos tornou-se o mais famoso. Hoje, existem vários 'gregórios' à frente de tabuleiros.

   A baiana, no entanto, não só a do acarajé, mas, sobretudo a do candomblé, é o símbolo da Bahia. O ícone da terra mater. E ainda é, em certo sentido, o símbolo mais representativo do Brasil. 

   Internacionalmente falando, fora aquelas sambistas do Rio com bum-bum de academia com 99% das partes de fora e peitos silicionados que aparecem em alguns folhetos e propagandas da Embratur, é a baiana que simboliza o Brasil.

   A Bahia é a terra mãe do Brasil e as baianas, desde Carmen Miranda, ganharam esse 'status' internacional. Falo da baiana autêntica, de saias e batas brancas, torço, colares do povo de santo, xangrim nos pés, e não essas baianas 'árvores de Natal' que a gente vê por aí em propagandas da Bahiatursa, no cata-níquel do centro histórico e em festejos mis.

   Essa baiana colorizada é uma invenção. Nao se vê isso nos cultos do candomblé. Mas, paciência, já se integraram ao folclore. Ainda não existem os 'baianos árvore de Natal' mas eles não demorarão de aparecer.

   Então, o prefeito Neto, faz certo, mas dos meus tempos de Jorge Amado pra cá, algumas baianas que eu gostava de comprar acarajés já se mudaram por força das alterações na cidade, outras partiram para o outro mundo e a vida vai seguindo. 

   Gostava de uma que ficava ao lado do Palácio Arquiepiscopal, de Chica no Quiosque de Amaralina, de uma negona enorme que atendia a gente ao lado do Oceania quando o bar do Oceania tinha alguma atração, de Dinha no Rio Vermelho e doutras que me falham a memória.

   Mexer com baiana é complicado. Passei na Cantina da Lua para comer um arrumadinho na festa de Bárbara, a santa predileta dos baianos, a Iansã do candomblé, e vi a força das baianas,

   - Viu que beleza passaram por aqui os andores - comentou Márcia Dendê, a garçonete de pernas lustrosas que me atende.

   - Não só ví como acompanhei e rezei para mandar esse 2015 para as calendas com suas crises e impedimentos.

   - Minha tia é baiana do acarajé lá no Pernambués e não gostou desse decreto do prefeito querendo cobrar mais por seu tabuleiro, queixou-se.

   - O prefeito tá certo. Tabuleiro maior, tem que pagar mais; menor, paga menos. É igual a qualquer negócioi, falei.

   - É, mas ela votou nele, a familia votou nele, e isso tem que ser levado em consideração tanto que ela vai procurar o 'nosso' vereador - não disse o nome - para pedir uma dispensa da taxa, sob pena de não votar mais nele, em 2016, e ainda colocar uma pemba no caminho - comentou.

   - Sua tia tá até certa em pedir ao vereador, porque nesse mundo da política tudo é possível. Se igreja não paga imposto, se tempo evangélico não paga imposto, se terreiro de candomblé não paga imposto, o certo é que as baianas também não pagassem, porque elas são filhas de santo e até sacerdotisas, agora, querer colocar um bozó no caminho do prefeito tá errado - frisei.

   ​- Será um bozó de leve, um bozó autosutentável.

   Parece até que você andou falando com Badu, o intelecutal de bigode, o qual proprôs um levante de baianas contra o decreto, para usar termos tão sofisticados.

   - Eu! não! Eu falo é com Godó, com Preto Véi, com Clarindo Silva, com padre Lázaro, com Badá, com João Jorge do Olodum, comgente do povo.

   - Então se é assim, onde aprendeu esste tal de bozó autosustentável.

   -  Aprendi com sua sabedoria, com os novos temos de ativismo e valorização da mulher, daí que aquele bozó a antiga, de galo preto e velas já era.

   - E esse novo bozó faz algum efeito? - questionei.

   - Se faz! O prefeito que se cubra, senão o socialista Manassés ganha a eleição.