segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Filosofia Popular
Rasta do Pelô

Rasta confunde rolezinho de dona Céu com rolazinha do padre

Viu sacaneta! É a maldição de dona Céu.
04/02/2014 às 16:50
Estamos no período da alta estação. Portanto, bastante ocupados aqui no Pelô, eu vendendo minhas toucas e fazendo minhas tocatas com tamborim nos eventos pré-carnavalescos; e dona Céu atuando na cabeça das gringas fazendo tererê. 

   De sorte que, não tá dando nem tempo de comentar as últimas de minha senhôra, ainda assim, de tanto ouvir os turistas comentando sobre as "vaquinhas" que estão sendo feitas para pagar multas dos mensaleiros e até uma "vaquinha" pra contratar um atacante chileno para nosso glorioso Bahia, cujo "home" se chama Pinto, e como vocês sabem aqui na Bahia pinto soa como meio depreciativo e plural, porque também significa o "Bráulio" alheio, minha consorte sugeriu que a gente fizesse um apelo via Facebook, digamos assim, uma "vaquinha" pra reformar nossa casa na Caixa D'Água e se sobrar algum capilé fazer uma viagem ao México. 

   Como se sabe, esse pessoal emergente da classe média adora falar em Cancun, Mar Del Plata, Valparaiso, isso pra não citar Paris, Londres e terras mais longes. Eu astuciei o apelo da patroa e ponderei que poderiamos cair no ridículo.

   - Se a causa fosse justa, tudo bem, ainda daria pra encarar - argui.

   - E não é! Reformar minha casa, colocar uma banheira no banheiro, mudar o teto da sala de visitas que está com goteiras, trocar duas poltronas bichadas, tudo isso tem o maior sentido - respondeu.

   - Mas não é causa popular minha querida, não mexe com o social, não tem apelo coletivo, não é uma causa que envolva a transversalidade, apimentei.

   - Ih! Você tá parecendo aqueles comunistas chatos do PCdoB com essa conversa retrô! Por acaso ajudar um mensaleiro é causa social, camarada que surrupiou os cofres públicos! Contratar um jogador que se chama Pinto para nosso glorioso Bahia que já teve Beijoca isso é lá coisa coletiva! - emendou na resposta.

    - Mas uma casa é uma propriedade particular, minha e sua, dos nossos herdeiros e a gente pode passar por oportunistas e ainda servir de chacota, ponderei.

   - Que chacota! Vai colaborar quem quiser, quem achar a causa justa, nada será imposto de cima para baixo e nós vamos usar as redes sociais para prestar contas de todo o dinheiro a ser arrecadado e utilizado nas obras, ajuizou.

   - Me inclua fora dessa e se reúna com suas amigas, com sua tia Perfume, com sua amiga Andréa Lady Lú, com Tina Copo, com sua irmã Rilza Cervejão, com a estilista Zais Pinharada e resolvam a parada. Eu é que não vou me meter nisso, colocar meu nome honrado numa zorra dessas, porque tenho que tocar meu tamborim de cabeça erguida, frequentar o ensaio do Olodum de cabeça empinada, ir a Cantina da Lua de cabeça para o alto, e não ouvindo dischotes.

   - Eu vou me encontar com elas num rolezinho no Shopping Piedade e organizar tudo, seu capironga. Garanto que se fosse pra suas nêgas você faria qualquer esforço, destratou-me.

   - Que nêga! Minha nêga é você e mais ninguém. Pare com isso senão você não vai fazer "vaquinha" alguma e muito menos participar de "rolazinha", falei engrossando a voz.

   - Aí é você que está me destratando porque eu falei foi "rolezinho', de rolé; e não "rolazinha", que suponho na sua cabeça de minhoca, de rola.

   - Devo ter entendido mal ainda que, pra mim tanto faz como tanto fez, "rolezinho", "rolazinha" tudo isso são artificios pra vocês ficarem piruletando nos shoppings, tricotando a vida alheia, desfilando com seus saiotes curtos.

   - É pra quem pode. Temos direito de usar Louis Vuitton e Loubatain como qualquer madame, temos o direito de usar brincos folhas d'ouro e óculos Gucci como qualquer vip da Barra ou do Itaigara, e se você não pode, se vive ainda usando calça boca de sino é problema seu, emendou na tampa.

   - Sabe de uma coisa eu vou é trabalhar e você que resolva sua parada. Mandei-me para o Pelô e a caminho resolvi ligar para meu conselheiro Badú, o intelectual de bigode, e ele ao escutar minhas ponderações sobre a "vaquinha" deu foi risadas.

   - Deixa ela fazer compadre. Vai ficar até bancana colocar nas redes sociais "A Vaquinha de Dona Céu", isso dá samba, isso dá grife, pode ser que estoure nas paradas e vocês além de reformarem a casa ainda vão se deliciar em Cancún, comentou.

   - Cê tá louco. Isso pode dar cana, isso pode trazer complicações a nossa imagem.

   - Consulta doutor Zéu, fala com o conselheiro Souza, pondera, se cerca de gente poderosa que não dá em nada. Não vê o pai do Padilha tem uma ONG e um contrato na Saúde, na casa de ferreiro e com espeto de pau. E Dona Céu não vai forçar ninguém, não vai assinar contrato, é tudo voluntário, dá quem quer, colabora quem quiser.

   Fui ao trabalho e depois passei na Cantina da Lua para tomar uma gelada e ouvir a opinião da Márcia Dendê, a serelepe garçonete. Márcia astuciou o que lhe falei e achou que dona Céu estava certa, que "vaquinha" faz parte da vida nacional, ela mesma já tinha feito várias e um raid das moças para pagar um curso de auxiliar de enfermagem, e disse que eu deveria era abrir minha cabeça.

    Uma semana depois, achando que o assunto tinha morrido, dona Céu me falou que a sua "vaquinha" estava bombando na internet, que ela já havia contratado um marceneiro para consertar o telhado, tinha comprado dois sofás na Ricardo Eletro e só não aviou a banheira porque nosso quarto não dava para colocar o equipamento.

   Fiquei abismado. Mas, fazer o quê! A patrôa, de ousada, ainda disse que eu me preparasse porque se sobrasse capilé daria para a gente ir ao México, senão Cancún, mas, para um roteiro México pré-colombiano. 

   - E isso não vai dar cana? - ponderei.

   - Que cana! Estamos abençoados até pelo padre do IAPI. No rolezinho pra Jesus, que fomos todas prestigiar o pároco, falei com ele sobre a "vaquinha" e ele abençoou, disse que não havia nada demais e até pediu um adjutório para a Igreja, se sobrasse algum, firmou.

   - E você vai atender o vigário? - ponderei.

    - Vou. Prometi comprar uma imagem de São Expedito para ele e vou honrar meu compromisso, além do que, vou prestigiar todos "rolezinhos" a serem promovidos pelo padre, pondereu.
 Não sei se eu já estava tomando uns gorós, acho que havia ingerido três latões e soltei uma das minhas costumeiras asneiras, "cuidado com essas rolazinhas do seu vigário", balbuciei comendo uma moela com pão.

   Rapaz! Dona Céu tava com uns abacates que acabara de comprar no Merka & Vende e, quando levantei a vista, só vi que um objeto verde voador vinha em minha direção, ainda assim, deu tempo para me abaixar e abacate bateu no encosto do sofá fazendo a maior melança. 

    - Rolazinha do vigário você reserve para suas nêgas, trombetou.

   E nada mais disse, se trancou no quadro, e foi assistir o inicio da novela Em Família.

    Dormi foi no sofá vendo a série Era Uma Vez, da Record, e peguei no ronco. Sêo moço, lá pras tantas sonhei que estava no México numa daquelas muralhas e um guerreiro asteca decepava minha cabeça para dar de oferenda aos deuses. Pulei do sofá e me esparramei no chão.