ter?a-feira, 21 de novembro de 2017
Política

MEMÓRIA POLITICA 3: Pedro Irujo e o bondinho voador.Campanha 1992 (TF)

Até hoje os projetos de Pedro Irujo que lançamentos em 1992 são reproduzidos por várias gestões
Tasso Franco , da redação em Salvador | 13/10/2017 às 10:07
Capa do livreto Pedro Irujo, administrador competente, campanha prefeito SSA, 1992
Foto: Reprodução
   Esta é a terceira matéria sobre a memória politica de Pedro Irujo, ex-deputado federal pelo PRN na onda Collor de Mello nos anos finais da década de 1980, recentemente falecido aos 86 anos de idade. Corria o ano de 1992. Eu havia concluido o projeto de transformar o Feira Hoje num jornal em formato standard e retornei a Salvador após a Micareta para seguir na assessoria de Irujo. 

   Marquei minha assinatura por conta própria e de confiança com Pedro como 'superintendente' do Feira Hoje e deixei o jornal sob o comando de Ricardo Araújo, o qual, de fato era quem vendia o produto.
   
   Lá um dia estavamos sentados na nossa mesa cativa do Baby Beef, cantinho do primeiro salão, com Balazeiro, Portugal, Cidreira, Lustosa, Diego, Luiz Pedro, e Pedro numa de suas tiradas imprevisíveis manifestou o desejo de ser candidato a prefeito de Salvador. Ora, nós que já o conhecíamos há algum tempo, sabendo do seu espírito empreendedor e destemido, não ficamos admirados. Alguma surpresa aconteceu, mas, pouco.
    
   Todos, em tese, concordamos com a idéia, Diego, como sempre balançou a cabeça como se dissesse 'meu Deus lá vem outra loucura de Pedro'. Ponderamos que para sua candidatura tivesse sucesso era preciso agregar politicos ao grupo. Na realidade, existia o grupo do eu sozinho. 

   A essa altura, Aroldo Cedraz, eleito deputado federal pelo PRN já tinha aderido a ACM, então governador do Estado, e Marcos Medrado, outro eleito pelo PRN, estava independente e manifestava desejo de também ser candidato a prefeito. E agora? Com Pedro restavam Marcos Cidreira, deputado estadual, e Geraldão, liderança popular na capital, em Cajazeiras.
    
   Havia, de fato, um vácuo na capital, e Pedro entendia que poderia ocupar esse espaço. O prefeito Fernando José, eleito com sua ajuda, em 1988, pela legenda do PMDB, terminava o mandato de forma melancólica, isolado, com administração mal avaliada e fazendo muitas viagens ao Rio, mais para diversão do que qualquer outra coisa. 

   Fernando já tinha rompido com Pedro e com Mário Kértész, a quem sucedera na Prefeitura, e perdera muito de sua popularidade. Portanto, mesmo se quizesse, não faria o sucessor. Depois, não tinha nome para isso. Politicamente, a cidade estava à deriva.

    O governador ACM, de sua parte, na época bastante popular, também não tinha um nome com empatia mais forte com a população restando-lhe como opção Manoel Castro, personalidade respeitadíssima, mas, sem jogo de cintura com o povo. Ademais, ACM tinha se vinculado a Collor, então na presidência e enfrentando um impeachment, e essa polarização Collor e os antiCollor se espalhou pelo Brasil e contaminou as sucessões municipais. Manoel era deputado federal pelo PFL, portanto um 'collorido'.
    
   No front antiCollor surgiu a candidatura da deputada constituinte Lidice da Mata, pelo PSDB, ainda sem a marca tucana que só aparece pós FHC na presidência, porém, partido mais leve do que o PCdoB, legenda que disputara o governo do Estado, em 1990, e estava com nome vivo, fresco, popular, oxigenado com a chapa "Rosa Choque", do Lidice/Salete/Beth de 1990. Lidice então agregou Beth para vice e ficou dona da ordem politica antiACM e antiCollor. Foi com esse naipe que ganhou o pleito.
   
   A campanha partiu com os seguintes nomes: Lidice da Mata (PSDB); Manoel Castro (PFL); Marcos Medrado (PDC); Mário Kértész (PST); Pedro Irujo (PRN); Maria Del Carmen (PMDB) e Waldir Régis (PSC). O menos politizado junto a opinião pública era Pedro. Lidice representava a esquerda e o anticarlismo; Manoel a direita e o carlismo; Kértész a visão empreendedora moderna; Del Carmen a esquerda peemedebista; Medrado a independência liberal e saiu na frente na largada; e Régis, sem diretriz clara. 

   E tomou esse rumo com Lidice detonando Kértész, não pisando nos calos de Pedro e praticando o anticarlismo e o anticollorismo. Pedro incorporou a sua campanha Galdino Leite, um politico com viés de esquerda moderada, respeitado.
   
   Restava a Pedro organizar uma campanha que fosse competente em ideias e criativa no marketing. E foi exatamente isso que fizemos. Irujo então convidou os profissisonais da DS2000, Claudio Barrêto à frente e mais Carlos Verçosa e Roberto Duarte; Genildo Lawvinsk (para o programa de rádio); Sidney Rezende (na retaguarda do financeiro da agência); Wolney Ortiz (Barba), um carioca que tabalhava em urbanismo em Madrid, Espanha (onde mora até hoje) e partimos tendo como suporte (nosso estúdio) a VideoGrave, de Valdemar Simões. A DS2000 ainda tinha na sua estrutura Sérgio Amado e Zilmar.
   
   Passamos então a usar um apartamento de Pedro no Ondina Aprt como uma espécie de comitê de ideias (o Baby Beef era o comitê informal) e lançamos, em boa parte, graças a Barba e seus planos urbanisticos, a campanha mais criativa que esta cidade já viu. O slogan, de cara, surpreendeu a todos: Mais empregos; Menos impostos. 

   "Algo tão diferente - comenta hoje Claudio Barrêto - que pegou nossos adversários de calças curtas e surpresos, pois, representou um enorme sucesso". Em marca de slogan agregado: Pedro Irujo, administrador competente.
   
   Agregamos a Bigraf com Tadeu Feitosa para produzir o livreto e folhetos com nossas ideias e aliamos ao marketing televisivo e do rádio, algo novo que era percorrer os bairros da cidade distribuindo o livreto com as ideias de PI e folhetos em papel couchê com ilustrações coloridas. 

    Tadeu lembra o dia em que foi ao 1000, escritório politico e financeiro de Pedro na entrada do Horto, negociar os valores dos fotolitos e impressões e conheceu Irujo e Diego. "Eles falavam uma lingua que eu não entendia e acharam caro o nosso trabalho de produção e impressão, mas negociamos e fizemos". Tadeu lembra: "Ele (Pedro) ainda me disse: vou ganhar a eleição. E tomei um susto".

   Quando iamos às ruas com os folhetos e ideias do Barba, de Claudio, as nossas, de Irujo, de toda equipe, as pessoas ficavam admiradadas, boquiabertas. 

   Entre os projetos estavam Projeto Peixe Vivo, Rua Noite e Dia na Librdade, Nova Orla da Barra ao Rio Vermelho, Barra Noite e Dia, Pólos de Pequenos Negócios Industriais, Escolas de Emprego, Projeto Horta Viva, Abrigos Noite e Dia, Mercado de Artesanato do Bonfim, Projeto Pintar Salvador, Projeto Marinas, Projeto Esporte e Lazer; Projeto Dique do Tororó, Projeto Orla da Baía de Todos os Santos; e para cada bairro grande um projeto especifico: Cajazeiras, Sao Cristovão/Malvinas, Subúrbio Ferroviário, Cajazeiras, etc.
   
   No programa de rádio do horário eleitoral Genildo (Pedro gostava muito de GL e pediu para ele integrar o núcleo da campanha) e ele comandou um programa de entrevistas com PI no modelo que fazia na Rádio Sociedade. Um sucesso.
   
   De repente, a campanha de Pedro decolou e assustou os adversários. O Programa de maior sucesso lançado pela equipe foi o Teleférico que ligava os Aflitos a Liberdade pela enconsta e ficou conhecido, popularmente, como Bondinho Voador. Os adversários diziam que era uma maluquice. Mas, na real era uma coisa simples, já existente na Europa e hoje com muitos deles em La Paz, Rio, Quito, Medelin e outras cidades. 
   
   Na TV, como vocês sabem, Pedro era basco e nunca aprendera o português. Desenvolvemos, então, um glossário especial para ele no momento de gravar os programas de televisão via teleponto. Onde era o colocava u; onde era j colocava l. Para ele falar Mais Empreo; Menos Impostos eu escevia "mais empregus". Era fantástico. Claudio Barrêto, que comandava o marketing arrancava os cabelos da cabeça". Trabalho demorado, persistente, no estúdio de Valdemar, irmão do ex-deputado Bdeto Smões. O âncora do programa era Roberto Duarte. PI nunca usou as estruturas da Rádio Sociedade e da TV Itapoan.
  
   Foi nesta campanha que PI popularizou o bairro Cajazeiras cuja maior liderança comunitária da época era Geraldão (seu correligionário, radialista) chamando-o de "Cachaceira". Não teve glossário que resolvesse essa parada e Cajazeiras ficou como Cachaceiras. E vocês pensam que a população se irritou com isso? Nada. Adorou. Mediamos muitas das nossas propostas com Nicia uma pesquisadora do Sistema Nordeste e que realiza as pesquisas para a empresa. 
  
   Claudio Barrêto tinha ligações politicas pessoais com Lidice da Mata e Domingos Leonelli (seu ex-colega publicitário) conta, hoje, que a turma da esquerda ficou assustada com nossas ideias "e das gozações iniciais que faziam viraram preocupações e pedidos de apoio no segundo turno". Barrêto diz, ainda, que até hoje, as idéias do Programa de PI são atuais e as obras de ACM Neto no projeto Barra/Rio Vermelho "são uma fiel atualizada do nosso programa".
   
   Resultado final do primeiro turno (foi a primeira eleição em dois turnos do país): Lidice teve 32% dos votos; Manoel Castro 21%; Pedro Irujo 15% (terceiro lugar com mais de 100.000 votos); Marcos Medrado 8%; Mário Kértész 2%; Maria Del Carmen 2%;  Waldir Régis 0%; em branco 10%; não sabem 11%. No segundo turno, Lidice teve apoio de Pedro e ganhou o pleito. Isso foi fundamental para Lidice, pois, se PI apoiasse MC, adeus Lidice.
   
   E por que PI não apoiou Manoel? Porque ele havia rompido com ACM na campanha de 1990 para governador (vide primeiro artigo desta série) por conta das agressões ao seu filho Luiz Pedro Irujo.