Colunistas / Vida de Gordo
Otto Freitas

JEFFINHO, o rei gordo dos salões e festinhas de garagem

Mais vale um gordo que sabe dançar do que um magro desengonçado
09/10/2017 às 12:23
Ninguém acredita, mas Jeffinho tem mesmo fama de grande dançarino. Aprendeu dança de salão ainda menino, ensinado pelo pai e fazendo par com a irmã mais nova. O pequeno casal chegou a valsar, em trajes de gala, abrindo antigas festas de 15 anos, com toda a tradição dos seus rituais. 

Adolescente no tempo do iê-iê-iê, Jeffinho foi virando um pé de valsa, assíduo frequentador de bailes de clubes sociais e festinhas de garagem, da Barra até a Cidade Baixa. Ainda era um magro fortinho quando se tornou par disputado pelas meninas que gostavam de dançar de rosto colado e mãos entrelaçadas, fosse um bolero ou qualquer outro ritmo que libertasse o corpo e a cabeça. 

A maioria, sobretudo enamorados e afins, gostava mesmo era de música lenta, para dançar agarradinho, de preferência à meia-luz. Nessas horas as moças pudicas transformavam o próprio cotovelo em zagueiro rigoroso barrando rapazes ardentes em suas tentativas de apertos fervorosos para encostar todo o seu desejo e vigor, ultrapassando limites impostos pela moral e tradição da família baiana.  

Nos verdes tempos da juventude, depois de experimentar os últimos movimentos do twist, Jeffinho se esbaldava dançando solto a liberdade do rock n’roll. É certo que nos seus vinte e poucos anos já não era tão magro assim, mas os quilinhos excedentes não o impediam de honrar a fama: dançou muito, dançou alegre e feliz, com Lulu Santos, Tim Maia, Barão Vermelho, Titãs, Ultraje. 

Podia ser em shows nas quadras do Bahiano de Tênis ou nos campos de futebol do Clube Espanhol ou da Associação Atlética. Era bom demais também dançar no democrático Bocapio, na Praia do Forte, ou na área verde do hotel Othon, em Ondina, onde aconteciam divertidos concertos nas tardes de domingo ao por do sol. Tudo acabava sempre em farras homéricas.

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Jeffinho só não gostava de ficar “pulando que nem pipoca”, como diz aquela música famosa, durante o Carnaval. Jamais curtiu, tampouco, o bate-estaca das baladas modernas, com aquele pisca-pisca infernal no meio da escuridão; ninguém vê ninguém, ninguém ouve ninguém, ninguém dança com ninguém; todo mundo pula o tempo todo, feito pipoca maluca. O gordo não gostava, e mesmo que quisesse não aguentaria ficar pulando a noite toda.  

Apesar de tanta dança, Jeffinho não parou de engordar - mas demorou para abandonar o salão. Agora tem peso de mais e fôlego de menos. Mas continua dançando, de vez em quando. Vez por outra, nas noites de sexta, vai à Varanda do Sesi, no Rio Vermelho, ouvir a boa música feita por Alexandre Leão e sua banda. Quando pega pressão, depois de umas quatro doses, o gordinho se entusiasma, levanta da cadeira e dança. Mas é rapidinho, logo volta à posição original. Sentado, se balança o tempo todo.  

Uma coisa é certa: mais vale um gordo que sabe dançar, que tem balanço no corpo, do que um magro desengonçado, todo fora do ritmo, que nunca se encontra com a música, e nem se dá conta disso. É ridículo.