terça-feira, 22 de agosto de 2017
Colunistas / Vida de Gordo
Otto Freitas

PRIMEIRO carro do gordo, um Fuscão que fez história

Otto Freitas é jornalista e escreve quinzenalmente a coluna Vida de Gordo. Para contato Otto.freitas@terra.com.br
30/07/2017 às 20:25
    Jeffinho só aprendeu a dirigir e comprou seu primeiro carro quando já passava dos vinte e poucos anos de idade. Não era um Mustang, nem mesmo um Corcel, mas a gloriosa Mula Branca, um Fuscão 1500 (o Fusquinha era 1300, motor menos potente), branco, ano 1972, placa AE-1234. O carrinho se tornou praticamente uma lenda nas ladeiras e estacionamentos do Minhocão, no Politeama, onde o gordo morava, nas filas do ferry boat e nas estradas da ilha de Itaparica e de muitas outras regiões da Bahia e do Nordeste.

  Com quatro anos de uso, a Mula Branca - assim batizada afetivamente por Jeffinho - tinha personalidade própria. Em geral, só precisava de gasolina para andar. Aparecendo um defeito ou outro, qualquer pedaço de arame resolvia. Mas Jeffinho cuidava do seu Fuscão, mesmo não encarnando aqueles que botam o carro na cama e a mulher para dormir no chão. Contava com a ajuda preciosa de Otavio, amigo de fé, mestre pescador com embarcação própria ancorada lá pelas bandas da Ribeira. Para regular o motor, o velho mecânico recorria a tecnologia sofisticada e particular: o ouvido e uma chave de fenda. 

   Aliás, consertar o fusca na oficina de Otávio tinha gosto de diversão e prazer nas manhãs de sábado. É que havia a barraca de Luzia, indefectível cacete armado pé-sujo onde não faltavam um feijão de currute, um sobe-e-desce ou um assado de boi no almoço PF (prato feito) que a criatura vendia aos mecânicos. Para Jeffinho, Naninho e Paulo Coco, era tira-gosto caprichado para acompanhar cervejas resfriadas na temperatura certa garantida por uma geladeira velha. Esperar o conserto do fusca virava uma farra.

   Na boemia, o Fuscão sempre foi parceiro leal, jamais deixou Jeffinho e seus amigos na mão. Naqueles bravos anos 1970, bebia-se e dirigia-se, não era ilegal, nem politicamente incorreto. Mesmo assim, como seguro morreu de velho, nessas horas Jeffinho buscava um motorista sóbrio ou entregava as rédeas da Mula Branca ao Irmão Emmanuel - Ele é infalível, nunca lhe faltou!

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    Naquele tempo o Fusca Volkswagen era o carro de quase todo mundo. Jeffinho teve três, mas o Fuscão 72 foi o primeiro, o xodó. Bastava um bom bagageiro no teto e o carrinho carregava o mundo - menino, mulher, sogra, babá, gato, cachorro, papagaio, bagagens e muitas lembranças. O fusca ia todo arregaçado, com as rodas traseiras se abrindo com o peso, que era maior ainda por causa de Jeffinho. 

  O gordo tomou algumas providências para caber no carrinho, como trocar o volante original por um esportivo, pequeno, de modo a encaixar direito seu barrigão. Mesmo assim, quando ia sozinho no carro, a Mula andava toda de banda, empenada para o lado do motorista. Com o tempo Jeffinho foi se adaptando ao aperto; não foram poucas as vezes em que o banco de trás se transformou em caliente ninho de amor, sob os coqueirais de Itapuã ou no antigo Jardim dos Namorados à beira-mar, durante as “corridas de submarino”.  O fusca se balançava todo, indecorosamente.

   Em tempo de aguaceiro, o carro virava uma barquinha e navegava pelas ruas alagadas da cidade da Bahia que, naquele tempo, quando chovia, praticamente virava uma Atlântida negra. Mas o valoroso Fuscão seguia em frente - boiando, mas seguia -, com o motor soprando pelos seus dois tubos de descarga. Só não se podia tirar o pé do acelerador; senão, perdia-se a propulsão, o motor interrompia e aí já era!

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   A primeira viagem foi para o Sul da Bahia. Jeffinho ainda era um motorista-aprendiz. Tremia mais que vara verde. Pegou a estrada com o cu no ponto, mas seguiu viagem. Na ida, a Mula tremia mais do que vara verde. Um cabo de vela se soltara, mas o Fuscão venceu 400 quilômetros com menos um dos quatro cilindros do motor. Na volta, cabo de vela no lugar, a Mula fez de tudo para restaurar a reputação abalada e arregaçou. Andou tão bem que o carona recomendou: “Não faça vontade, senão ela voa”. 

   Como aconteceu em uma tarde de verão: depois de algumas pingas e geladas, salada de aratu afogado no azeite de oliva com pão fresco e uma peixada humilhante, em Mutá, Jeffinho e Paulo Coco resolveram adiantar o lado para tentar pegar o ferry boat das 17 horas para Salvador. 

   Abriram o gás. Na estradinha de chão batido, cruzaram com uma caçamba, a poeira levantou grossa e embaçou tudo. Quando desanuviou, bem à frente havia uma ponte estreita e curta. Jeffinho segurou o volante com firmeza, tirou o pé do acelerador, evitou o freio para não capotar, e entregou o assunto ao Irmão Emmanuel. 

   O desnível rampado da cabeceira da ponte arremessou o Fuscão, que saiu mais do chão do que as plateias dos cantores de Axé. Na aterrissagem bateu forte com o lastro no piso de concreto. Jeffinho aprumou o bicho e acelerou, mesmo com a carcaça da caixa de marcha rachada e o cambio todo molengo. Mas a danada da Mula Branca não se fez de rogada: pegou o asfalto, toda poderosa, e chegou ao terminal marítimo a tempo de pegar o ferry das 17 horas. 

    Tirando Pégasus, o cavalo alado da mitologia grega, sabe-se que equídeos e muares não voam. Mas a Mula Branca voou. Foi um voo curto, mas que a Mula Branca voou, voou. Irmão Emmanuel está aí de testemunha.