segunda-feira, 24 de julho de 2017
Colunistas / Vida de Gordo
Otto Freitas

Gordinho no poder libera geral remédios para emagrecer

Presidente em exercício, ele aprovou a produção e venda de medicamentos à base de anfetaminas.
16/07/2017 às 19:52

Não se pode dizer que ele agiu em causa própria, mas aquele deputado gordinho, presidente da Câmara, aproveitou-se da posse provisória da caneta de presidente da República e meteu bronca: à revelia da Anvisa, liberou geral a produção e venda de tudo o que é remédio para emagrecer derivado de anfetamina. As substâncias (anfepramona, femproporex e mazindol) estavam proibidas no Brasil desde 2011. 

A Anvisa - Agência Nacional de Vigilância Sanitária, responsável por regular o uso de medicamentos no Brasil, se mantém firme na sua posição: as anfetaminas representam uma grave ameaça à saúde da população, pois o seu uso proporciona mais riscos do que benefícios. Endocrinologistas, nutricionistas, cientistas, pesquisadores, entidades médicas e de pesquisa seguem no debate - uns contra, outros a favor alguns muito pelo contrário -, e não chegam a conclusão alguma. O Conselho Federal de Medicina é favorável ao uso dessas drogas.

As substâncias atuam no hipotálamo, a parte do cérebro responsável pela sensação de fome. Elas reduzem o apetite, o gordo come menos e emagrece rapidamente. Mas como não existe almoço de graça (sem trocadilho!), esse recurso gera efeitos colaterais nefastos, perigosos, como palpitações, irritabilidade, insônia, aumento de pressão arterial e dependência. Segundo a revista Veja (nº 27, de 5/7/2017), dos 100 milhões de brasileiros gordos, 40 por cento precisam da ajuda desses medicamentos, pois não conseguem emagrecer apenas com a mudança de estilo de vida. 

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Aos vinte e poucos anos, Jeffinho se deu conta de que trazia dentro de si, adormecido, um gordinho indisciplinado, sem força de vontade e guloso. Partiu, então, para sua infindável série de dietas malucas e outras nem tanto, originárias nas mais variadas correntes do pensamento endocrinológico. Experimentou de tudo, como sabem os leitores assíduos, menos a dieta em que só se come luz. Logo o gordo foi apresentado a uma novidade no mercado: moderadores de apetite. 

Jeffinho ainda não era muito gordo, estava ligeiramente acima do peso. Mas partiu para um ataque preventivo: depois de consultar o especialista, começou a tomar medicação chamada Moderex, obviamente à base de femproporex. Mais tarde, já obeso, foi a uma endocrinologista mais famosa do que Anita e começou a tomar medicação prescrita e formulada pela própria, com anfetaminas na composição. Mais recentemente, chegou a experimentar Sibutramina, que estava liberada mediante apresentação de receita própria para tarja preta.

Nos três momentos, o tratamento fez Jeffinho sofrer o diabo, coitado! Era uma dor de cabeça sem fim, mal estar, tontura, suadeira, boca seca, uma coisa horrível. Sofreu e nada resolveu, muito pelo contrário. A cada tratamento, emagrecia rapidamente (as anfetaminas reduzem o peso em apenas 5 por cento, na média) e quando suspendia a medicação ficava mais gordo do que antes. E assim Jeffinho foi se tornando um obeso em proporção geométrica.

Acontece que o remédio é tão perigoso que só pode ser usado por três meses. Daí, o gordo fica novamente por conta própria. Sem o controle químico do cérebro, o apetite volta virado na zorra e o gordo cai na real, se dá conta de que era tudo fantasia. 

Resta-lhe, então, reencontrar as próprias forças e recorrer aos amigos, à família e aos santos, e voltar à luta para mudar o estilo de vida, com muita malhação e comida pouca e verdadeira. Anfetaminas e cirurgia bariátrica só mesmo para superobeso em estágio terminal. Aí, meu amigo, qualquer caminho é caminho para se preservar a vida.