segunda-feira, 20 de novembro de 2017
Colunistas / Vida de Gordo
Otto Freitas

DE MULHER PARA MULHER: Beleza cabe em todos os tamanhos

Gorda ou magra, a mulher precisa entender que é muito mais do que um rosto bonito ou um corpo desejável.
14/05/2017 às 19:41

Depois de muito tempo ausente, a jornalista Andreia Santana envia uma nova colaboração para esta coluna. É um texto primoroso ao qual ela deu o título certo: a beleza cabe em todos os tamanhos. Andreia Santana é jornalista, master em jornalismo online e escreve para os sites Conversa de Menina (www.conversademenina.com.br) e Mar de Histórias (www.mardehistorias.wordpress.com). Ela fala do assunto com propriedade e conhecimento de causa, por ser mulher e por ostentar medidas acima dos padrões convencionalmente aceitos, em peso e altura. Leia a crônica integral a seguir:

“Duas moças conversavam animadamente, na sala de espera do consultório médico, quando a palavra 'gorda' chamou minha atenção. Apurei os ouvidos e então compreendi que gorda era uma terceira pessoa. Entre exclamações e acenos de cabeça, em sinal de concordância, as duas amigas discutiam a obesidade de uma conhecida com ares de especialistas em endocrinologia - o que, aposto, nenhuma das duas era. 

Lugar-comum daqui, chavão dali, concluíram que a moça não tinha namorado porque, ora essa, estava muito gorda para ser desejável! Uma delas, confirmando minhas previsões mais sinistras, emendou com a célebre frase já ouvida por boa parte das mulheres que vestem manequim acima de 48: ‘Ela tem o rosto lindo, um cabelo maravilhoso, o problema é aquele corpo’.

Fico triste quando ouço esse tipo de comentário, por ser gorda e por me solidarizar com todas as amigas gordas como eu, ou com as gordas anônimas. Felizmente, depois da maturidade, esse tipo de frase já não afeta minha autoestima, porque a gente aprende a blindar o coração com o passar dos anos. 

Hoje eu sei que é tudo mentira. Mas quando era adolescente e me diziam que eu nunca 'arrumaria quem me quisesse' por ser gorda, eu acreditava. Ainda hoje tem muita menina que também acredita nessa bobagem, mesmo com tantas gordas blogueiras e fashionistas divando nas passarelas e catálogos de moda plus size. 

O bom é que a gente cresce. E se você conhece as pessoas certas e lê os livros certos, começa a se libertar dessas neuras. Não só arrumei quem me quisesse, como também deixei de querer um monte de gente, na dinâmica típica das relações afetivas, o que, acreditem, não tem qualquer relação com nossos manequins GG.

A primeira coisa importante que as mulheres devem perceber, independente do tamanho que vestem, é que esse negócio de ‘arrumar alguém que te queira’ é antiquado e machista. Relações são construídas por duas pessoas. Então, é preciso que a querência seja recíproca para o negócio engrenar. Emagrecer para encontrar uma cara metade não deve ser meta de felicidade para ninguém. Até porque, convenhamos, se a cara metade gosta mesmo da gente está pouco ligando para o nosso tamanho.
 
A verdade é que a beleza cabe em todos os tamanhos e não tem padrão, embora nas últimas décadas tenham tentado nos fazer acreditar que tem. Gordas ou magras, precisamos entender que somos mais do que um rosto bonito ou um corpo desejável. Nosso potencial não tem de ser medido pela simetria da cintura com o quadril. Podemos ser bem mais do que meros enfeites do mundo.

Cuidem-se, gordas queridas. Visitem o médico e façam dieta, se assim desejarem. Mas façam tudo por vocês mesmas. Vocês já são bonitas, só não se encaixam no padrão vigente, que nem sempre é interessante. Pessoalmente, acho que um mundo padronizado é bastante entediante. Quanto mais diversidade, melhor!”.