Colunistas / Vida de Gordo
Otto Freitas

VERÃO ACABA, mas sorvete é prazer para o ano inteiro

O jornalista Otto Freitas escreve quinzenalmente a coluna Vida de Gordo
20/03/2017 às 08:04
O verão acabou, mas na Bahia faz sol e calor o ano inteiro. Sol e calor chamam sorvete e sorvete em Salvador remete ao tempo das casas com quintais cheios de fruta no pé, nas antigas fazendas e roças que se transformaram em bairros da cidade, como Brotas, Garcia, Cabula, Pernambués, Cidade Baixa e Subúrbio. Tinha fruta para todo gosto e com fartura. Dava para comer in natura, presentear amigos, parentes, e ainda sobrava para os doces e sorvetes. 

Foi assim que Jeffinho aprendeu a gostar dessa maravilha cremosa e gelada que não faltava em sua casa na Ribeira, desde pequeno. Era no lanche da tarde, ou à noite, quando as famílias colocavam cadeiras na porta, para tomar uma fresca, ver o movimento da rua, conversar fiado e tomar sorvete. 

Era assim o ano inteiro, mas principalmente no verão, com os quintais carregados, porque é tempo das frutas, de vários sabores e texturas, inclusive as que vão bem como sorvete: cajá, mangaba, manga, coco, abacate, abacaxi, pitanga, goiaba, só para citar algumas. Fora isso, só de chocolate, caseiro, como o de Amelinha de Itapuã, o melhor de todos, de fazer inveja aos italianos, os melhores do mundo.

Não foi à toa, aliás, que Jeffinho engordou tanto. Na falta de sorvete, tinha abafabanca, “fruta que entra no liquidificador... sorvete de peão”, como diz o cantor e compositor Geronimo, na sua música Abafabanca, dos anos 1960. É a fruta batida com água e açúcar despejada na cuba de gelo e congelada. Abafabanca foi a precussora do atual geladinho (fruta batida com água e açúcar e congelados dentro do saquinho plástico, imitando o picolé), inclusive como complemento de renda das famílias pobres. Como acontece hoje com o geladinho, nas comunidades carentes era comum se ver nas portas e janelas das casas o aviso escrito à mão: “Vende-se abafabanca”. 

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Se faltasse sorvete em casa, havia as inúmeras sorveterias artesanais espalhadas pela cidade. Algumas ficaram famosas, como a Sorveteria da Ribeira, que há 86 anos continua no mesmo lugar, em frente ao mar, oferecendo mais de 60 sabores, a maioria de frutas, mas também os tradicionais, tudo de acordo com as receitas originais. 

Nos anos 1960/1970, as sorveterias reinavam no Centro Histórico e nos bairros. Como A Cubana, que desde 1930 está na parte alta do elevador Lacerda e outros pontos turísticos, e a Primavera, que resiste há mais de 50 anos no mercado. Mas se a gente não ia ao sorvete, ele vinha a nós: a Primavera lançou a kombi amarela, cor da marca. Todo mundo ficava esperando o sino da Kombi tocar, chamando para o sorvete da tarde. 

A kombi da Primavera chegou, nos anos 1960, para concorrer com o antigo sorveteiro mercador com sua cantimplora na cabeça, apoiada em uma rodilha de pano. Era uma caixa redonda de madeira que continha um recipiente de metal com o sorvete em cima e o gelo na base, para conservar; a boca era protegida por um acolchoado de tecido; e a tampa de alumínio, às vezes até mesmo uma calota de carro niquelada, era quase um espelho de tanto brilhar.

Depois vieram os carrinhos da Kibon, multinacional alimentícia, vendendo sorvete e picolé. Chegaram para acabar com o velho sorveteiro e concorrer com sorveterias de comunidades populares que espalhavam vendedores de picolé pela cidade, usando caixas de isopor, uma novidade na época. Algumas ficaram famosas, como a Capelinha, do bairro de São Caetano. A fama era tamanha que todo vendedor de picolé mercava como se fosse um produto Capelinha.

Hoje, as casas não têm mais quintais. Além das três marcas sobreviventes e algumas fábricas pequenas, que só fazem picolé, sorvete só nos shoppings, em lojas de franquias nacionais e internacionais, oferecendo produto industrializado de sabores exóticos; de frutas tropicais, raramente. São saborosos e caríssimos. 

Talvez por tudo isso, mesmo com tanto calor e um verão que dura quase o ano inteiro, o Nordeste represente somente 10% do consumo nacional de sorvete, que é de apenas seis litros por pessoa/ano. O Brasil é o 29º colocado entre os principais consumidores de sorvete no mundo.

Seja como for, em Salvador da Bahia ou em qualquer outro lugar do mundo, sorvete será sempre lúdico, guloseima de criança, doce gelado com jeito brejeiro de passeio no parque, namoro de mãos dadas, gosto de beijo na boca ao por do sol, no sabor preferido de cada sonhador.