segunda-feira, 26 de agosto de 2019
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

2018 e carnaval da politica: Sapucaí resgata sua essência

Foi um carnaval memorável. E, como sempre, a briga já começou com prós e contras. Unanimidade só a Tuiuti com seu vampiro e "manifestoches"
14/02/2018 às 10:12
Não sou especialista em desfile de escola de samba. Já desfilei, já vi pela televisão e ao vivo. Emoções diferentes para cada momento. Só posso dizer que há muito tempo um carnaval não rendia tanto tititi quanto o desse ano. Depois de um longo período de enredos patrocinados onde tivemos que aturar até samba sobre iogurte, a Sapucaí voltou a fazer uma crônica do dia a dia do brasileiro e do carioca. Evoé!

Talvez isso explique o verdadeiro alvoroço que a Tuiuti causou nas Redes Sociais. Durante todo o ano foi esnobada pela imprensa. Pela Globo, sejamos claros, porque é essa emissora que domina o carnaval carioca. Ela só tem olhos para as chamadas "grandes". Portela, Mocidade, Grande de Rio, Beija Flor. 

Quando a escola de São Cristóvão esfregou na cara de todos o vampiro de faixa presidencial, o desfile da Tuiuti virou catarse e todo mundo ficou de queixo caido, inclusive a TV Globo. Finalmente as escolas quebraram o gesso e reviveram os tempos do genial Joãozinho Trinta. Nos anos 80, o então carnavalesco da Beija Flor colocou mendigos na avenida e teve o Cristo maltrapilho censurado. Já colocava o dedo nas feridas do Brasil que até hoje não cicatrizaram. 

E a mesma Beija Flor de Joãozinho Trinta, muitos anos depois, carregou a mão na crítica ao atual estado do Rio e do país colocando nos carros alegóricos  PMs assassinados, balas perdidas em escolas, a gangue do guardanapo do Cabral. Tudo isso ao som de um samba que pegou. 

Foi um carnaval memorável. E, como sempre, a briga já começou com prós e contras. Unanimidade só a Tuiuti com seu vampiro e "manifestoches". Isso sem falar na Mangueira que mirou no prefeito Bispo e o colocou de Judas em um gigante carro alegórico. E vamos combinar que Crivella está fazendo o que pode para estragar a festa. 

Na minha humilde opinião, o carnaval de 2018 resgatou sua essência de retratar e homenagear ícones brasileiros. Os sambas ficaram mais lentos, as baterias voltaram a fazer samba e não apenas bater tambor. As músicas ficaram mais interessantes e os carnavalescos tiveram que se virar para colocar as escolas na avenida. Na crise, a gente se reinventa. 

Mas o "bicho vai pegar" mesmo na apuração. Paixões políticas a parte, o desfile é julgado por uma séries de quesitos e regras. A cada ponto perdido da Tuiuti, Mangueira ou Beija Flor, a choradeira e gritaria serão generalizadas. Já há um movimento em defesa da Tuiuti, independente do que ela apresentou como escola de samba: harmonia, evolução, enredo, fantasias etc. Isso não é bom.  

Amigos que entendem muito mais que eu de desfiles de escola de samba já escreveram que, ao vivo, a Beija Flor estava bem pobrinha; que a Portela não empolgou e que a Mangueira também não levantou a galera. Na briga estão Mocidade e Salgueiro, que falaram respectivamente da Índia e das mulheres negras. E se a Tuiuti cair? Porque todos sabem que a Liesa jamais rebaixará a Grande Rio, que entrou sem um carro abrindo um buraco enorme no desfile. 

O campeão nunca é uma unanimidade e durante semanas vamos debater se a escola que levou o título mereceu ou não o primeiro lugar. Dessa vez, no entanto, vamos inserir mais caldo nesse feijão com o item crítica política. Vai ser um tititi sem fim. Como eu disse, memorável.