quarta-feira, 18 de outubro de 2017
Colunistas / Crônicas de Copacabana
Nara Franco

Mais amor e esfirra do Mohamed

Sábado próximo tem evento comer esfirras no Mohamed
07/08/2017 às 22:05
   No mundo colaborativo, onde passamos todo o tempo conectados uns aos outros, ligados em tudo que acontece nos lugares mais remotos do planeta, bons exemplos não faltam. Outro dia quase chorei vendo um vídeo no Facebook onde o irmão mais velho conta para o mais novo que é gay e o mais novo responde: "Love is love (Amor é amor)" e diz que não há mal nenhum em ve-lo casado com outro homem. 

   Fiquei emocionada. Logo eu, que defendo ferozmente a tese que a humanidade deu errado e que precisamos de um novo meteoro para explodir a Terra e começar do zero. Logo eu, me rendi ao ser humano. Mas durou pouco. 

    A opção de copiar o pior ou de imitar o que todo mundo repulsa ao invés de acolher o que é bom, me causa espanto. Você pode ser como o menino e acreditar que Love is Love. #SóQueNão. Como se não bastasse o surrealismo carioca de dormir ouvindo tiros de fuzil e de ter de escolher passar pela Linha Vermelha antes ou depois do arrastão, agora temos ataques de xenofobia. 

    Era tudo que o cotidiano nada ameno da cidade precisava para ganhar tons de comédia pastelão. Porque diante disso tudo, só rindo. Semana passada, o sírio Mohamed, que vende esfirras em uma esquina de Copacabana, foi agredido a pauladas por um outro ambulante. O homem gritava para ele ir embora para seu país, enquanto jogava o carrinho de Mohamed no chão. 

    Para o mundo que eu quero descer, ok? Mohamed fugiu da guerra da Síria, veio parar em uma cidade 24h em guerra e está ali batalhando a esfirra nossa de cada dia na paz de Alá. Do nada, vem um malandro com dois pedaços de pau e agride o pobre Mohamed dizendo que ele "explode crianças". 

   Vamos só lembrar que em 2017, mais de 30 crianças morreram vítimas de bala perdida no Rio de Janeiro. Uma, dentro da escola. Amigo, nem do talibã a gente pode falar mal. 

   Copacabana não combina com intolerância. Na verdade, lugar nenhum combina. Mas Copa? Deu um baixo astral... Na praia tem angolano vendendo tênis Adidas e pau de selfie na areia. Tem índio peruano domingo no calçadão cantando e vendendo CD. Tem um português por padaria. Copacabana tem o único restaurante de comida polonesa do Rio de Janeiro. 

   Além do Mohamed, tem uma família libanesa quase na minha esquina que vive de esfirra e quibe, numa lojinha onde só toca música árabe. Tem um quiosque na praia que vende empanadas argentinas, administrado por um casal de argentinos. 

   Custa acreditar que alguém tenha agredido Mohamed apenas por ser sírio. Desconfio que sua esfirra deva ser realmente boa para incomodar os vizinhos. Aliás, seu ponto é próximo a uma padaria de um português super carrancudo e de um café de comida kosher. 

   Ah! Logo ali ao lado fica a Galeria Menescal, um prédio comercial da comunidade judaica onde todas as lojas e salas pertencem a judeus. 

    Como diz Zé Simão na Bandnews, o "brasileiro não é cordial". Não dá para aturar xenofobia. Já basta a homofobia, a baixaria política, a gritaria bolsonaresca, a histeria PT x PSDB. Mais amor, por favor! Daqui a pouco até um país em guerra (de fato) vai ser melhor que o Brasil. Paulo Coelho já até cantou a pedra: "Pior só a Coréia do Norte". 

    Sábado irei ao evento "Comer esfirra na barraca do Mohamed". Fui convidada pelo Facebook (link do evento: https://www.facebook.com/events/337037873419092/?acontext=%7B%22ref%22%3A%22108%22%2C%22action_history%22%3A%22null%22%7D) e, junto comigo, 5 mil pessoas já confirmaram presença. 

   Vou comer esfirra e tirar foto com Mohamed para mostrar aos intolerantes que o Brasil tem jeito. Não é possível que tem espaço para piorar, gente! E para não perder a viagem, vou tentar comprar a sensação do comércio ambulante do Rio de Janeiro: os cavalinhos do Fantástico.