ter?a-feira, 21 de novembro de 2017
Colunistas / Música em Cena
Maurício Matos

O que esperar do Carnaval de Salvador em 2018

Se os camarotes, que ultimamente são os únicos negócios rentáveis da folia, estão de mudança, é porque algo se encontra errado
12/11/2017 às 10:28
    O Carnaval de Salvador de 2018 se tornou uma grande incógnita. Não bastasse a ausência de uma das maiores atrações, a cantora Ivete Sangalo, grávida de gêmeas, os principais camarotes do circuito Dodô (Barra/Ondina) estão se mudando de mala e cuia para a Arena Fonte Nova, conforme anunciou esta semana o jornalista Osmar Martins, o sempre bem informado 'Marron', do Correio*.

   Se isso vai dar certo (ou não) só o tempo dirá. Entretanto, como a falta de criatividade desse povo é muito grande, tenho convicção de que em 2019 a Arena Fonte Nova vai ficar pequena para tanto camarote. Para quem não lembra, quando o designer Pedrinho da Rocha, em parceria com o Bloco Eva, lançou o abadá no Carnaval de 1993, no ano seguinte quase todos os blocos aposentaram as antigas mortalhas e passaram a utilizar esta nova vestimenta como fardamento oficial da folia momesca.

   É essa falta de criatividade que preocupa ou, pelo menos, deveria preocupar aqueles que vivem e fazem o Carnaval de Salvador. A festa, já 100% descaracterizada, se confirmada a transferência dos camarotes, tem tudo para se transformar num evento ‘in door’, nos moldes das micaretas que acontecem Brasil à fora, a exemplo do Carnatal, Fortal e Micarande.

   Na minha avaliação, essa também é uma grande oportunidade dos blocos se reinventarem e tentarem recuperar os foliões, que há anos não veem mais as agremiações carnavalescas como opção para curtir a festa em Salvador. Que reengenharia precisa ser feita? Não sei, embora entenda como essencial, antes de mais nada, extirpar da festa momesca qualquer música que não seja de Carnaval. A exemplo do que fez a cidade de Olinda, em Pernambuco, que, durante os dias de folia, só permite tocar frevo.

   Por aqui, diversos ritmos estranhos ocuparam o espaço, que um dia foi de Armandinho, Dodô & Osmar, Luiz Caldas, Chiclete com Banana, Ademar e banda Furta Cor, Olodum, Jorge Zarath, Netinho, Márcia Freire, Asa de Águia, Banda Mel, Cheiro de Amor e tantos outros artistas responsáveis pela criação e ascensão da ‘axé music’.

   Se os camarotes, que ultimamente são os únicos negócios rentáveis da folia, estão de mudança, é porque algo se encontra errado. Talvez seja necessário regressar ao passado para planejar o futuro do Carnaval de Salvador, arriscado a acabar como algumas famosas festas de largo da cidade, que foram se descaracterizando, minguando até desaparecerem.      

   A ida dos camarotes do circuito Barra/Ondina para a Arena Fonte Nova também tem o lado positivo. Ela nos remete aos tempos dos carnavais de clube, de inesquecíveis bailes no Bahiano, Yatch, Associação Atlética, Português, Espanhol, Fantoches e Cruz Vermelha. Naquela época, a festa de rua terminava cedo e à noite era exclusivamente dos clubes. Como a vida é cíclica, pode ser que, com uma outra roupagem, uma nova configuração, esse tempo esteja retornando.

   Os camarotes podem se tornar os novos clubes e com isso trazer de volta – se é que isso é possível – a época áurea dos bailes carnavalescos. Torço muito para que isso aconteça e que as atrações musicais não sejam formadas por duplas sertanejas, Djs, bandas de forró nem por cantores de arrocha.