Colunistas / Música em Cena
Maurício Matos

Rock in Rio é a versão carioca do Festival de Verão

E a cada edição, mais e mais artistas estranhos ao mundo do rock passaram a frequentar o palco do Rock in Rio
30/09/2017 às 11:21
É triste constatar, mas o Rock in Rio se tornou uma versão carioca do nosso Festival de Verão. Uma 'salada de frutas' indigesta de atrações musicais, que em nada ou quase nada tem a ver com rock. Se compararmos ao primeiro evento, realizado em 1985, posso dizer sem medo: transformaram o que um dia foi o maior festival de rock do Brasil num verdadeiro 'circo dos horrores'.

   No andar da carruagem, não será surpresa se na próxima edição o ‘cast’ do festival estiver infestado de duplas sertanejas e de bandas de pagode. Tudo isso me remete ao ex-governador da Bahia, Octávio Mangabeira, que, numa de suas célebres frases, constatara: “pense num absurdo, na Bahia tem precedente”. A mesma coisa vale para o Rock in Rio, que, este ano, primou pelos absurdos musicais.

   Justiça seja feita, não é de hoje que o Rock in Rio vem se 'deteriorando' musicalmente. As aberrações na grade de atrações existem desde a estreia, quando as coisas foram feitas de forma empírica. Nunca um evento daquela magnitude acontecera em terras tupiniquins. Tudo era experiência, tudo estava valendo.  

   Na primeira noite daquela edição os 'inteligentes' que fizeram a programação colocaram Ney Matogrosso, Erasmo Carlos, Pepeu e Baby juntos com as bandas inglesas ‘Whitesnake’, ‘Iron Maiden’ e ‘Queen’. Não questiono o talento dos artistas brasileiros, a mistura é que não foi apropriada. Ou alguém acharia legal degustar um prato de caruru com catchup, mostarda e maionese???  É mais ou menos por aí.

    A segunda edição, ocorrida seis anos depois, foi ainda mais degradante. Pense que uma das principais atrações foi a banda americana ‘The New Kids on The Block’ - uma espécie de 'Menudo' dos anos 90. Além disso, houve aquele incidente com o cantor Lobão, que o colocaram (e ele aceitou) para tocar no mesmo dia de bandas como ‘Sepultura’, ‘Judas Priest’, ‘Megadeth’ e ‘Guns and Roses’. Resultado:  foi escorraçado do palco pelos headbangers, que promoveram uma “chuva” de copos e garrafas plásticas. Para agravar a situação, Lobão ainda teve a infeliz ideia de convidar a bateria da Mangueira para se apresentar junto com ele. O público não perdoou.

   Da terceira edição em diante, foi que a coisa degringolou por completo. O evento foi tomando 'cara e forma' do nosso Festival de Verão, com presença constante de cantores da axé music, como Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Claudia Leitte e Carlinhos Brown. Esse último, foi duramente hostilizado pelo público do ‘metal’, que o expulsou do palco, assim como fizera anos antes com Lobão. Tenho certeza que o 'Cacique do Candyall', autor da música ‘Água Mineral’ nunca viu tanta garrafa e copo plástico na vida como naquela fatídica apresentação.

   E a cada edição, mais e mais artistas estranhos ao mundo do rock passaram a frequentar o palco do Rock in Rio, como Sandy & Junior, 'Britney Spears', 'Rihanna', 'Shakira', 'Beyoncé', 'A-Ha' e 'Fergie'. Nesse último festival, encerrado domingo (24), boa parte da imprensa (não especializada em música, diga-se de passagem) fez questão de salientar que esse foi o Rock in Rio da diversidade de gênero, da pluralidade e de um bocado de coisa que nada tem com música, muito menos com rock.

   Para os mais desavisados, o Rock in Rio sempre teve, entre as atrações, artistas declaradamente homossexuais, a exemplo de 'Freddie Mercury', 'Elton John' e Ney Matogrosso, que se destacaram pelo talento e não pela sexualidade, como estamos vendo nos dias hoje.