segunda-feira, 20 de novembro de 2017
Colunistas / Música em Cena
Maurício Matos

AXÉ MÚSICA na UTI abre espaços aos sertanejos,

Fenômeno passa por fase decadente a espera de uma renovação que não aconteceu
13/05/2017 às 19:54
Que o fenômeno da ‘axé music’ agoniza há algum tempo esperando apenas a extrema-unção não é novidade. O ritmo baiano, criado na década de 1980 e cujo primeiro expoente foi o cantor Luiz Caldas, já não figura mais no ‘playlist’ da juventude, que tem preferido ouvir outros gêneros musicais, a exemplo do pagode, funk e sertanejo. 

   Este último, sem sombra de dúvidas, tem ocupado todos os espaços da mídia, inclusive o lugar que um dia foi dos cantores baianos.

   Muitas são as teorias para a derrocada do ‘axé’. A falta de renovação de artistas, o esgotamento da fórmula musical, a ambição dos empresários e a queda vertiginosa nas vendas de CDs, fato que afetou sensivelmente toda indústria fonográfica. Pode ser tudo isso e mais um pouco. 

   A realidade é que o ritmo baiano, que teve o auge comercial nos anos 90, sobrevive apenas de seu maior expoente: Ivete Sangalo. A cantora, cujo talento e carisma são inegáveis, carrega sozinha o ‘axé music’ nas costas pelos quatro cantos do país.

   Nem mesmo o Carnaval de Salvador, palco de inúmeras revelações do ‘axé’, se manteve fiel. Há tempos, a festa de Momo foi invadida por outros gêneros musicais, como forró, funk, arrocha, sertanejo e eletrônico. Há quem diga que a festa se tornou mais democrática com a diversidade musical e coisa e tal. Há também quem ache que o que acontece hoje em 'feverê' nem deva ser mais considerado Carnaval.

    A verdade é que essa invasão musical alijou o ritmo baiano do seu território. As festinhas, promovidas pelos blocos carnavalescos e que outrora arrastavam multidões para o Clube Espanhol, Bahiano de Tênis, Português e, mais recentemente, ao Parque de Exposição, nem existem mais. 

   Hoje, o grande público quer ver e ouvir os novos artistas da música sertaneja e as cantoras de funk, Anita e Ludmila. São eles as grandes atrações, inclusive em shows em Salvador, e donas dos espaços nas rádios, nas televisões e nas redes sociais.

   A sensação que se tem é que os grandes nomes do ‘axé music’ só fazem shows na capital baiana no verão. Basta acompanhar os sites dos grupos para constatar a escassez de shows, principalmente em Salvador. A crise econômica que atravessa o país tem influenciado? 

   Até certo ponto sim, mas não tem atrapalhado, por exemplo, a cantora Marília Mendonça - maior expoente da atual música sertaneja - que, nesse mês de maio, fará 23 shows, inclusive por aqui.

   O ‘axé music’ parou no tempo e não se renovou. Se fosse um time de futebol, diria que os dirigentes deixaram de valorizar a 'prata da casa' e, em contrapartida, supervalorizaram os jogadores de fora. Resultado, muitos dos que poderiam vir a ser grandes valores do ritmo baiano, sequer ascenderam à 'equipe profissional'.

   “É um caminho sem volta”, dirão alguns. “É só uma fase”, argumentarão outros. O certo é que o moribundo ‘axé music’ está na UTI, em coma profundo, entubado e desenganado. Muitos acham que ele ainda pode melhorar. Tomara que não seja a 'melhora da morte', como se diz, com frequência, no interior da Bahia.