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Maurício Ferreira

TEMPO DE VINHO: A hora e a vez do Douro

*Maurício Ferreira é bacharel em direito, professor universitário, sommelier profissional filiado a ABS-SP e colaborador do Bahia Já, onde assina a coluna Tempo de Vinho.
21/09/2017 às 09:11
   O mundo do vinho tem coisas interessantes, por exemplo, de tempos em tempos, alguma região produtora de vinho que parecia estar acomodada em um determinado nicho de mercado, passa a apresentar um súbito destaque diante das demais, seja por seu jeito particular de vinificar, seja pela qualidade do que produz, seja por sua reconhecida tradição, o que faz com que seus produtos sejam extremamente valorizados e a comunidade de enófilos passe, cada vez mais, a desejar seus rótulos.
 
   Hoje o mercado dos vinhos abre os olhos com admiração, para o que é produzido na Região do Douro, não que isso seja uma novidade, afinal desde 1756, por iniciativa do Marquês de Pombal, então Primeiro Ministro do rei D. José I, promoveu a primeira demarcação de origem com a criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro e da Região Demarcada do Douro, com o intuito de proteger o Vinho do Porto, o mais importante produto de exportação de Portugal, e que há séculos já encanta o mundo, mas estamos falando da DOC Douro, mais voltada à produção de vinhos tranquilos, tintos e brancos, que hoje contam com enorme prestígio internacional em razão da sua indiscutível qualidade.
 
   Movimentos como o New Douro ou ainda o Douro’s Boy, surgidos nos primeiros anos deste século  e nomes como Paul Symington, Dirk Niepoort, Cristiano Van Zeller, Francisco Olazabal e Dorli Muhr, se destacam em meio à comunidade internacional e se colocam como protagonistas da transformação daquele que é, sem dúvida, um dos melhores terroirs do mundo, capaz de produzir vinhos como o Barca Velha da tradicional Casa Ferreirinha, e hoje produzem pérolas como o Chryseia, o Quinta do Vale Meão, o Quinta do Vallado ou o Pintas Douro, consagrados internacionalmente.
 
    Curiosamente, um conhecido brasileiro vem se destacando dentre um dos mais importantes produtores da Região do Douro, o João Carlos Paes Mendonça, dono do Grupo JCPM, que atua fortemente nos segmentos varejista, imobiliário, shopping center e comunicação, e que, atendendo ao apelo de uma paixão, resolveu entrar fundo no mundo dos vinhos e já há alguns anos adquiriu a Quinta Maria Izabel, propriedade de 130 hectares, que se estende por uma das zonas mais privilegiadas da região duriense, no que considera “mais que um Sonho Brasileiro, em Terras Lusas, mas sim uma ideia transformada em um grande projeto.”
 
  Tendo como Consultor de Enologia, ninguém menos que o genial Dirk Niepoort, um dos Douro’s Boys, a Quinta Maria Izabel segue a filosofia de trabalho, de que são elementos subjetivos como a origem, a autenticidade, a tradição, e, às vezes a vontade de arriscar e ser diferente, que traz um novo valor agregado ao que se produz, estejamos falando tanto do vinho do Porto, estejamos falando do vinho tranquilo da região. 

   Isso cria uma enorme diferenciação, já que a Região do Douro tem claramente um enorme potencial para se distinguir dos outros locais do mundo, afinal de contas, hoje o consumidor procura uma experiência diferente e o Douro é essa experiência diferente e autêntica, que se traduz em seus magníficos vinhos.
 
   Hoje, a coluna Tempo de Vinho traz para o seus leitores a degustação de três sensacionais vinhos produzidos na Região do Douro, o Quinta Maria Izabel 2012, o Quadrifolia da Quinta do Vallado 2014 e o Vinho do Poeta 2012, vamos às taças:
 
    O Quinta Maria Izabel Douro 2012, apesar de relativamente jovem no mercado, já pode ser considerado um rótulo consagrado, já que carrega uma enorme carga do que de mais tradicional e criativo é feito em Portugal. Produzido a partir de vinhas com idade entre 20 e 30 anos, o tinto é um corte no qual predominam o Touriga Nacional e a Touriga Franca, duas castas icônicas da região. 

   Requintado, sofisticado e acompanhado de esmerada vinificação, de início se apresenta ma falsa impressão de rusticidade, comum aos Douros, mas em poucos minutos na taça se mostra complexo e bem estruturado, com belíssima cor rubi intenso e reflexos granada e notas de marcantes frutas vermelhas maduras, toques florais, o aconchego da baunilha, alcaçuz, café, especiarias e vigorosas tostas que denunciam os 18 meses de carvalho francês. Bem estruturado e intenso, possui taninos macios, equilibrados e um final marcante e longevo, em síntese, um vinho de muita nobreza, ou melhor dizendo, realeza, como o próprio nome acentua.
 
   O segundo vinho a ser apresentado, o Vinho do Poeta 2012, também produzido com a assessoria de Dirk Niepoort pela Quinta Maria Izabel, é um vinho com leve toque rústico, mas com ótima evolução. Feito com tradicionais castas portuguesas estagia em carvalho francês por nove meses. De cor violeta e tons com certa profundidade, é um vinho onde se destacam aromas de frutas negras, noz moscada, canela, café com leite e discreto apimentado. Na boca possui corpo médio, taninos macios, boa acidez e final de média persistência.
 
    Por fim, o Quadrifolia by Vallado 2014, produzido pela Quinta do Vallado, um vinho de pegada mais contemporanea, vinificado em cubas de aço a partir de uvas provenientes de vinhas de aproximadamente 20 anos, predominantemente das castas Touriga Franca e Tinta Roriz, e amadurecido por 12 meses em cubas de aço inox, sem a troca com madeira ou outros elementos que influenciem as características naturais da uva. Resultado, um vinho jovem e frutado, de corpo médio e taninos macios, uma verdadeira explosão de frutas vermelhas como amoras, cerejas, framboesas e groselhas, obra do enólogo Franciso Olazabal, um dos mais importantes da atualidade e também integrante do Douro’s Boy.
 
Esperamos que os leitores da Coluna Tempo de Vinho tenham apreciado essa breve imersão numa das mais belas, senão a mais bela região vinícola do mundo.
 
Agenda do Enólogo:
 
No dia 30 de setembro, as 20:00 horas, acontece o Sarau Poético Musical Brasil X Portugal no Restaurante Cedro, no Hotel São Salvador, localizado na rua José Peroba, 244, Stiep. O evento que contará com um show da cantora Thati e recital do poeta Fernando Henrique Dantas, contará ainda com a presença dos convidados Igor Tosta, Polyanna Assis e Rafaela Tugores. Para maiores informações o telefone é (71) 99325-7419.
 
No próximo dia 28 de setembro, às 20:30 horas, o Bistrot Du Vin, uma das tradicionais adegas de Salvador, promove um Jantar Harmonizado com vinhos da Grécia e Eslovênia, com um fino cardápio traduzindo uma releitura contemporânea da culinária mediterrânea utilizando ingredientes nordestinos, como  mandioquinha e  castanha do Brasil. A anfitriã Viviane Mendonça promete uma noite inesquecível em seu restaurante, com pratos à base de lagostas, camarões e carré de cordeiro, sempre harmonizados com vinhos gregos e eslovênios, elaborados com as castas Furmint, Pinot Blanc, Chardonnay e Syraz. Uma experiência que deixará os enófilos baianos com água na boca, promete. Para maiores informações, o telefone é (71) 3231-1933.
 
Após o sucesso do evento sobre vinhos do Vale do Loire, com a sala de degustações da Enoteca Decanter literalmente lotada, o sommelier Alexandre Takey  anunciou para outubro, uma nova turma de Master Class para apreciação de vinhos da região, o telefone para contato é (71) 99981-7151.
 
Espero que nossos leitores tenham gostado desta matéria, ao tempo em que convido para que curtam nossa coluna, também no instagram @tempodevinho.