Colunistas / Tempo de Vinho
Maurício Ferreira

BEBENDO A BORDO – A SEDUÇÃO vinhos em alto mar, por MAURÍCIO FERREIRA

Tignanello 2012, Marchesi Antinori, um vinho que dispensa apresentações, produzido pela mais importante vinícola italiana
10/03/2016 às 12:23
  Quem já teve oportunidade de ver um transatlântico passando à noite em alto mar, por certo jamais esquecerá. É uma visão realmente deslumbrante, com todas aquelas luzes brilhando... e se você estiver na beira de uma praia como o Porto da Barra ou Copacabana, então...  É magnífico!

   Não é de hoje, que os cruzeiros de navio passaram a ocupar um importante lugar na lista de desejos de qualquer pessoa, independentemente de sua classe social. Seja para proporcionar um relaxante período de férias familiar ou, até mesmo, como uma vantajosa opção econômica para quem deseja realizar viagens turísticas, afinal, na maioria das vezes inclui, além da hospedagem e lazer, todas as refeições a bordo.

   O que muitas pessoas não sabem, é que os cruzeiros de navios, sobretudo os de bandeira italiana, são ótimos lugares para se degustar bons vinhos, isso porque no navio eles são vendidos com muito menos encargos do que em terra firme.

   É possível, na maioria das vezes, encontrarmos vinhos de excelente qualidade, tanto do Velho Mundo, como do Novo Mundo, pela metade do preço do praticado no varejo. É só pesquisar as Cartas de Vinho dos diversos restaurantes existentes no navio. 

  Vale a pena, também, conhecer as promoções oferecidas a bordo, quando geralmente 4 ou 7 vinhos pré-selecionados são vendidos com descontos extras de até 30%, tornando ainda mais vantajoso o consumo dessa bebida.

   Apenas para se ter uma ideia, o pacote de 4 garrafas de vinhos e 7 garrafas de água é vendido nos transatlânticos da MSC por US$ 69,00 + Taxa de serviço de 15% (se considerarmos que o pack inclui um Pinot Grigio Colli Orientali del Friulli DOC, produzido em Vêneto, que custa nas lojas de Miami, uns 12 dólares, um Cabernet Sauvignon Friuli Grave Tesis DOC Fantinel, que custa uns 14 dólares, um Pinot Nero DOC Torti, produzido na Lombardia, que custa, mais ou menos, uns 30 dólares e um Crianza espanhol, Barón de Pardo, da Bodegas Navas-Rioja, que sai por baixo, por uns 12 dólares), podemos afirmar que se trata de um valor bastante razoável, sobretudo se considerarmos que os preços nas lojas brasileiras, em função dos impostos e frete, são praticamente o dobro dos praticados no exterior. 

   Caso você opte por consumir vinhos que não façam parte dos pacotes pré-selecionados, você poderá escolher dentre uma razoável Carta de Vinhos oferecidas nos bares e restaurantes existentes, que incluem vinhos de diversas nacionalidades e preços, inclusive modernos vinhos orgânicos (Vino Libero, como chamam os italianos), feitos a partir de
colheitas em que não houve uso de agrotóxicos. 

  Também nesses casos, é possível negociar um bom desconto na compra de um pack personalizado, isso é, na compra de cinco ou mais vinhos, escolhidos pelo próprio passageiro ou com a ajuda do Sommelier. Pérolas da vinicultura italiana, como Amarones, Brunellos de Montalcinos, Nobilis de Montepulciano, Rossos Dell’abazia, Chiantis Clássicos e até mesmo Supertoscanos, como o Tignanello (o vinho preferido de Barack Obama), podem ser adquiridos com descontos de até 30%, a depender da quantidade comprada.

   Ainda é possível adquirir excelentes Bordeaux, Chablis, Montrachet, Malbecs Argentinos, California Wine’s de Napa e Sonoma e vinhos de outros países, por preços mais em conta.

   Alguns navios dispõem de restaurantes especializados em vinhos ou de altíssimo padrão, onde o passageiro poderá desfrutar do serviço de um Sommelier de nível internacional, nesse caso, é um espetáculo à parte ver aquele profissional trabalhar, desde o momento em que nos apresenta o vinho escolhido com toda a “pompa e circunstância”, passando pela cuidados abertura da rolha, preparação das taças para que não fiquem resíduos que interfiram no aroma, a decantação ou aeração do vinho, para, ao final, servi-lo aos passageiros.  

   Dá gosto ver o entusiasmo e o orgulho destes profissionais trabalhando, sobretudo quando o vinho escolhido é um ícone italiano, como um Sassicaia 2007 ou um Brunello Biond Santi DOCG 2008.

   Não à toa, que a Associação Brasileira de Sommelier de São Paulo, nos últimos anos, tem produzido cruzeiros temáticos para os seus associados, no qual alguns poucos felizardos podem participar de degustações dos principais rótulos existentes.

   A essa altura o leitor deve estar perguntando: “essa é uma coluna sobre turismo ou sobre vinhos, e os test wine, será que não vamos ter hoje? ”

   Fique tranquilo, que reservamos uns bons vinhos para vocês. Vamos as taças!

   Nero d’Avola IGT “Calatrasi & Miccichè” 2014, produzido pela família Miccichè, com dois séculos de tradição, é um vinho jovem e simples, que não descuida, contudo, da qualidade. Produzido na Sicilia com 100% de uvas Nero
d’Avola, uma das castas de maior sucesso atualmente na Itália. De cor vermelho intensa, brilhante e sem halos, possui aromas de frutas negras, groselha e cerejas maduras e adocicadas, é macio e muito agradável. Na boca, as frutas se
repetem, com notas de cerejas e chocolate em pó, amêndoas e pistache. Um vinho saboroso, leve e fácil de beber. Taninos macios e pouco acentuados, combinam com a estrutura contida e a boa persistência. Um final despretensioso de final adocicado e fácil de beber.

   Il Rosso Dell’Abazia 2008, da Serafini & Vidotto. Produzido pelos enólogos Francesco Serafini e Antonello Vidotto, na região de Montello, foi recomendado pessoalmente pelo Sommelier do MSC Splendida, como o mais interessante vinho a bordo, não poderia ser melhor. Produzido a partir de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot, engana quem espera encontrar um vinho feito aos moldes de um Bordeaux ou um Supertoscano, pelo contrário, é um vinho libero (orgânico), com um mínimo de anidridos e bastante premiado internacionalmente.  É um vinho de personalidade própria. Um vinhaço! Envelhecido de 15 a 24 meses em barris de carvalho, descansa pelo menos 30 meses em garrafa para “afinar”, antes de ser colocado à venda. De cor rubi intensa como sangue, com tons granada e bastante volumoso, se apresentou opulento, complexo, cheio de notas de mirtilo, frutas carnosas e maduras, especiarias, papaia, tabaco, folhas, pimentão verde e alfafa, que se descobriram em camadas e se repetem na boca, até alcançar um um final amadeirado e adocicado, com toques de caramelo e melado. Possuidor de taninos macios e untuosos, se mostrou bastante harmônico e equilibrado.

  Tignanello 2012, Marchesi Antinori, um vinho que dispensa apresentações, produzido pela mais importante vinícola italiana, é o responsável pelas maiores mudanças já ocorridas no jeito italiano de se fazer vinhos. Criação do genial
enólogo Giácomo Tachis, falecido em fevereiro deste ano, é um vinho verdadeiramente magnifico, capaz de inovar a indústria vinícola. Produzido a partir das uvas Sangiovese (80%) do vinhedo homônimo, combinadas com o Cabernet
Sauvignon (15%) e o Cabernet Franc (5%), é o responsável pela introdução do conceito dos Supertoscanos. Apreciado por personalidade internacionais, é o vinho preferido por Barack Obama, que vê em seu vermelho intenso brilhante o
ápice da indústria vinícola do velho mundo.

   De aroma frutado e complexo, expõe uma riqueza incomum de frutas vermelhas maduras, como morango, cerejas, framboesas e mirtilo, em meio a especiarias doces, tabaco, baunilha e alcaçuz. Na boca é potente e encorpado como um Bordeaux jovem, agraciado com a típica acidez da Sangiovese. Ao final, apresenta uma persistência rara, mantendo a boca recheada de sabores por minutos. Imperdível.

   Todos os vinhos aqui apresentados foram degustados a bordo do MSC Splendida.