Colunistas / Tempo de Vinho
Maurício Ferreira

Três vinhos que encantam os paladares

VINHOS, ELES AINDA TÊM MUITO A REVELAR.
mauriciocostaferreira@hotmail.com
23/07/2015 às 10:37
Com toda a popularização do vinho em nosso país nos últimos anos, é elementar deduzirmos que o consumo desta bebida tenha aumentado na mesma proporção. De fato, isso vem ocorrendo, com o
Brasil tendo aumentado a média de consumo per capita de 1,46l em 2008, para quase 2,2l por habitante em 2014.

  Se você pensa que são números insignificantes se comparados à média de consumo per capita de outros
países, como os 45l da França, ou dos estonteantes 74l consumidos por cada um dos 836 habitantes do Vaticano em 2014 (números aproximados), saiba que a taxa de crescimento do consumo de vinhos no Brasil nos últimos seis anos chegou a patamares próximos dos 50,6%. Muito acima do índice médio de 2,7%, alcançado pelo consumo mundial, no mesmo período. 

   Além disso, devemos lembrar que o Brasil é um país que possui mais de 206 milhões de habitantes, o que nos dá uma ideia do quanto é promissor esse mercado.

  Talvez por isso se explique a quantidade de ações promocionais que vem sendo executadas pelos principais países produtores de vinhos e a proliferação de cursos de formação de profissionais da área.

   A Bahia não poderia estar excluída deste processo, tendo nos últimos meses recebido eventos como o da Academia de Vinhos de Portugal, o Grand Tast de Vinhos da Grand Cru ou o Malbec World Day, dentre outros.

   No campo acadêmico, desde 2014, as cidades de Salvador e Feira de Santana tem sediado desde cursos da Eno Cultura, que oferece certificação WSET (Wine and Spirits Education Trust), qualificação inglesa para sommeliers reconhecida no mundo todo, até cursos básicos para iniciante, porém não menos gratificantes, como os ministrados pela conhecida sommeliere Andressa Noitel, da Picolla Madame.

   Para quem quiser conhecer o mundo do vinho mais a fundo, a Faculdade Ruy Barbosa, que faz parte do grupo americano Devry, oferece aos amantes do vinho e a quem deseja investir em uma carreira na área, o curso de sommelier profissional, com aulas teóricas e práticas, nos finais de semana e duração de 10 meses.

   Trata-se de um curso de extensão, que se dedica a formar sommeliers profissionais, profissão recém regulamentada pela Lei 12467/2011, que executa serviços especializados de vinhos em empresas de
eventos gastronômicos, hotelaria, restaurantes, supermercados, enotecas e em comissariaria de companhias aéreas e marítimas, dentre outras atividades.

  Como podemos perceber, o hábito de consumir vinho no Brasil, pouco a pouco, tem deixado de ser apenas um hobby ou uma paixão para alguns, e se transformado em um democrático e promissor mercado de trabalho. Contudo, sem perder seu lado lúdico e nostálgico.

   Talvez por isso, sempre que bebemos ou falamos dessa tão cativante bebida - sobretudo com os novos apreciadores, nos vem à mente os primeiros vinhos que tivemos oportunidade de beber, produzidos
com uvas americanas, não viníferas (vitis lambruscus), quase sempre adoçados artificialmente e servidos em garrafão. Os chamados “vinhos de mesa”, que se popularizaram através de rótulos como o Dom Bosco, Frei Vinícius e Capelinha, dentre tantos que existem no país, e que ainda são consumidos largamente.

   Estes vinhos, que ainda estão tão presentes nos hábitos locais, são responsáveis pela “fixação” de grande parcela da população brasileira por vinhos doces ou suaves, o que os leva muitas vezes
a resistir aos vinhos finos, quase sempre secos, por não conterem o dulçor aguardado.

   O que muitos não sabem, é que os vinhos finos, produzidos com uvas viníferas (vitis vinífera), podem ser doces como mel, apenas controlando o processo de fermentação ou utilizando-se de frutos adequados. São os chamados vinhos de sobremesa.

   Geralmente doces e licorosos, quase sempre são destinados a premiar o gran finalle de um bom jantar, servindo de sobremesa por si só, ou se prestando a acompanhar, de forma harmônica, sobremesas de
todos os tipos, seja ela à base de frutas, caramelos, ovos, chocolate ou pâtisserie.

   São geralmente produzidos com uvas colhidas tardiamente, com altos índices de açúcar residual ou fortificados como os Porto, os Jerez, os Madeira, em que a fermentação alcoólica é interrompida,
preservando o açúcar da fruta e adicionando aguardente vinífera. Há ainda, os que utilizam uvas passificadas (em ponto de uva passa), como o italiano Vinho Santo (Vin Santi) e os obtidos a partir de uvas atingidas por um fungo conhecido como Botrytis Cinerea, também chamado de “podridão nobre”, no qual, quase todo o líquido da uva é extraído, restando uma fruta de baixo rendimento e com elevadíssima
concentração de açúcares, a exemplo dos valorizadíssimos Sauternes, produzidos a 40 km do sul da cidade de Bordeaux, na França e os místicos Tokaji Aszu, produzidos na região de Tokai na Hungria, conhecido como o “vinho dos rei e rei dos vinhos”.

   Para o test wine de hoje, escolhemos 3 vinhos que encantarão os paladares ávidos pelo dulçor do néctar mais puro e que farão par perfeito, não apenas com a sobremesa de sua preferência, mas, sobretudo, com queijos fortes, salgados e azuis, servidos ao final de uma refeição “prá lá de especial...”.

Vamos as taças:

Morandé Late Harvest 2009, produzido no Vale de Casablanca, no Chile, pelo conceituado enólogo Pablo
Morandé, que trabalhou na Concha Toro, quando foi responsável pelo premiadíssimo Don Melchor; é feito integralmente com a casta Sauvignon Blanc, que estagia um ano em barris de carvalho, auferindo grande complexidade e estrutura. 

É um belo vinho amarelo ouro, levemente cítrico e muito vibrante, com notas florais de jasmim e aroma pronunciado de mel, papaia e frutas cristalizadas, que se confirmam no paladar. Denso e bem estruturado, na boca é bastante aveludado, equilibrado e com elevada persistência.

Uma excelente opção para ser degustado sozinho ou com uma deliciosa tábua de queijos salgados.

Grand Renaissance Sauterne 2010, produzido pelo Château La Fleur na região de Sauterne, a partir das castas Semillon (69%), Sauvignon Blanc (28%) e Muscadelle (3%), que lhe confere o aroma floral, é simplesmente surpreendente, superando vinhos bem mais caros. 

É delicioso e democrático, tendo o melhor custo benefício, dentre os Sauternes existentes no mercado. De cor amarela palha dourada, é intenso e untuoso, com notas de damasco, pêssego, frutas brancas, glacê, baunilha e mel de Uruçuca, alia doçura impar com a elegante acidez dos vinhos botritizados. Sirva levemente gelado e, certamente, terá um dos momentos mais saborosos de sua vida.

Royal Tokaji Aszú 5 Puttonyos 2008, produzido pela Royal Tokaji, na região de Tokaj ou Tokai, na Hungria, com as uvas Fumint, Hárslevelú e Yellow Muscat, típicas daquele país (autóctones), estagia por 30 meses em barricas de carvalho húngaro de segundo uso. Possui coloração amarelo ouro, intensa e brilhante, com aromas de laranja, frutas cristalizada, damascos secos, flores e especiarias. Na boca, a doçura e a acidez se equilibram à perfeição, com toques de amêndoas adocicadas, abricot, baunilha e maracujá, que gradativamente evoluem e cedem espaço para notas mais intensas de abacaxi em calda, manga, minerais, defumados e, principalmente, mel. Aliás, muito mel! 

Tudo isso envolto em uma textura densa e untuosa, revelando um néctar de estrutura licorosa e muita expressividade. Sem sombra de dúvidas é um vinho seletivo e diferenciado.
De certa forma, os Tokajis são sempre especiais. Saber de todo o processo que os envolve, com os bagos Aszú (afetados pela podridão nobre) colhidos à mão, um a um, após uma rigorosa seleção ainda no pé. A oportunidade de conhecer o que significa os “putônios” (uma medida utilizada para medição da doçura dos vinhos Tokaji, e que corresponde a uma cesta típica da região com capacidade para 25 Kg de uvas Botrytizadas, utilizadas no preparo do vinho), etc. Tudo é muito interessante e único. Mas, o que encanta mesmo é sua complexidade aromática e o seu charme como um todo. É um vinho evoluído e elegante, quase que mágico, e que vale a pena experimentar pelo menos uma vez.

Os vinhos aqui degustados podem ser encontrados na www.grandcru.com.br  (Morandé Late Harvest 2009, 375 ml), por R$ 64,00; na www.wine.com.br
(Grande Renaissance Sauterne 2010, 375ml), por R$ 55,00 e na www.sonoma.com.br
(Royal Tokaji Aszu 5 Puttonyos 2008, 500 ml), por R$ 229,90.