quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Colunistas / Tempo de Vinho
Maurício Ferreira

YES, NÓS TEMOS BANANAS e bons vinhos nacionais

Para falar com Mauricio é só usar o e-mail mauriciocostaferreira@hotmail.com
10/04/2015 às 17:56
Desde quando iniciamos nossa coluna sobre vinhos, temos colecionado muitos elogios, alguns pela forma descomplicada de tratar do tema ou, até mesmo, pelo original test wine, que aguça o imaginário dos assíduos leitores para o maravilhoso mundo da enocultura. Contudo, um misto de crítica e indagação tem sido recorrente: “quando, finalmente, serão avaliados vinhos brasileiros?”.

   Em parte, os leitores têm razão - ainda que entenda que quando o assunto é vinho não podemos ter pressa. 

   O vinho para ser degustado com calma, deixando que os sentidos apreciem a bebida, para que, ao final, possamos compreende-la. E isso vale também para as castas, regiões produtoras e nacionalidades, que no momento certo serão desbravadas, sem pressa...

   Mas, como a voz do povo é a voz de Deus, não poderíamos deixar de atender aos nossos leitores, por isso o tema de hoje será Brasil.

    Mesmo com dimensões continentais, a viticultura no Brasil ocupa um espaço muito inferior a de países vizinhos, como a Argentina ou o Chile, que ultrapassam facilmente os 200.000 hectares cultivados cada, com vinhos renomados e de grande aceitação no mercado mundial.

    Nesse aspecto, ainda somos modestos, com pouco mais de 45.000 hectares, distribuídos em estados como o Rio Grade do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Paraná, Bahia, Mato Grosso e Minas Gerais ou em regiões específicas, como Serras Gaúchas, Região da Campanha, São Joaquim e Vale do São Francisco, produzindo no ano passado (2014), algo em torno de 57 milhões de litros,  pouco se comparado aos mais de 72 milhões de litros que importamos, mas que, mesmo assim, nos coloca como o décimo maior produtor mundial. Pouco, se considerarmos nosso potencial, mas bastante alentador, se compararmos com duas décadas atrás, quando erámos apenas coadjuvantes neste mercado.

   Hoje produzimos vinhos excelentes e para todos os bolsos, produtores como Lídio Carraro, Vinícola Miolo (Miolo Wine Group), Casa Valduga e a centenária Don Laurindo, não fazem feio se comparado com rótulos de outros países e não me refiro apenas aos espumantes nacionais, já consagrados internacionalmente, mas sim a vinhos finos, tintos ou brancos, que hoje frequentam as cartas dos melhores restaurantes.

    Quintas do Seival Castas Portuguesas, Miolo Merlot Terroir, Lídio Carraro Quorum e Salton Septimum são vinhos surpreendentes e empolgantes, e que devem ser considerados em sua próxima escolha, mesmo se comparados com seus hermanos chilenos e argentinos, e até mesmo rótulos do velho mundo, na mesma faixa de preço.

   Aliás, a comparação com o velho mundo nos deixa bem mais à vontade do que com os vinhos sulamericanos, isso porque as técnicas de nossa vinificação, a escolha das castas e mesmo as características de nossos terroir, se assemelham a vinhos italianos, portugueses e franceses, quase nunca com a potência de um Malbec(ão) argentino ou um Cabernet Sauvignon chileno. Não por acaso, a uva Merlot é a mais emblemática casta da viticultura brasileira, mesmo convivendo com a enorme
variedade experimentada pelos produtores locais.

   Para ilustrar nossa experiência pelos vinhos nacionais, escolhemos dois dos mais expressivos rótulos já produzidos, o icônico Lote 43, safra 2005 e o Seival Estate Sesmaria, safra 2011.  O primeiro, vinho top produzido pela Vinícola Miolo e o último, principal rótulo da Seival Estate, ambas integrantes da Miolo Wine Group, que nos últimos anos investiu 120 milhões de reais na expansão e aprimoramento de sua produção.

Vamos às taças:

DOIS VINHOS IMPERDÍVEIS. 

Inicialmente degustamos o exemplar do Lote 43, safra 2005, com quase 10 anos de cave. Sem dúvidas, foi um dos melhores vinhos nacionais que já provei! 

Blend de 50% Cabernet Sauvignon e 50% Merlot, com passagem em barris de carvalho americano e francês (70/30) por 12 meses, possui padrão internacional e características do velho mundo. 

De coloração vermelha purpura, reflexos granada, demonstrava, quando da análise visual, possuia ainda grande potencial de guarda. Rico em notas de frutas negras maduras, defumados, figos secos, chocolate, café, couro e discretas tostas de carvalho, é potente e bem estruturado, com taninos macios e evoluídos. 

Com final de boca elegante e sofisticado, merecia ter uma maior persistência em boca, para fazer jus ao título de melhor vinho brasileiro, pela imprensa internacional.

O Seival Estate Sesmaria Safra 2011 é um vinho soberbo, mas não espere dele o perfil dos sulamericanos típicos, pesadões e com sabores exuberantes. Nada disso! Esse é leve, sofisticado, complexo, lembra um Saint Emillion. 

Elaborado na Região da Campanha Gaúcha, com a consultoria enológica do conhecido Michel Rolland, a partir de vinhas de baixíssimo rendimento, com o propósito de ser o principal vinho da Miolo Wine Group, representa um marco na vinicultura brasileira, e traz soluções só oferecidas em vinhos de primeiríssima linha e de altíssimo padrão. 

A começar, toda a fermentação (tanto a alcóolica, quanto a malolática), ocorrem em tanques de madeira.Os cuidados se estendem ao desengace, que é totalmente manual, sem prensagem ou
meios mecânicos, evitando os efeitos do esmagamento dos caroços, na produção do mosto. A remoagem é feita por rolamento e o vinho não sofre qualquer tipo de filtragem ou clarificação. Um primor!

O uso de leveduras indígenas, a seleção manual dos cachos e o estágio de 18 meses em barricas de carvalho francês de primeiro uso, o tornam muito especial e membro de um clube exclusivíssimo.

O melhor de tudo está na taça, bastante complexo, com notas de frutas negras amadurecendo, antes do ponto de passa, figos secos, minerais, resinas vegetais, especiarias finas e forte expressão do terroir, que predominam sobre o carvalho, e se apresentam em camadas, que evoluem na taça de maneira sutil e elegante. A cor rubi, nem tanto translúcida e taninos macios ao primeiro gole é um verdadeiro convite a apreciá-lo lentamente. A média persistência é compensada pela delicadeza e sofisticação. É top mesmo!
Como todo grande vinho, este também é cercado por mistérios e curiosidades. Blend formado por seis castas, a partir da seleção de 10 vinhos bases, tem sua composição guardada em segredo, e que pode ser alterada a depender do ano, tendo como única regra, a utilização de seis varietais. 

A safra de 2011, possivelmente contemplou as variedades Touriga Nacional, Tempranillo, Cabernet Sauvignon, Tannat, Merlot e Petit Verdot, que podem ser percebidos pela cor, maciez, taninos intensos e a complexidade, que traz o melhor do velho mundo.

Tanto o Lote 43, quanto o Seival Estate Sesmaria podem ser comprados diretamente do site da
Miolo (www.miolo.com.br).