segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Tempo de Vinho
Maurício Ferreira

LA VIE EN ROSÉ – Toda a magia dos vinhos Rosé

MIRAVAL 2012: O vinho Côtes de Provence Miraval 2012, desde o seu lançamento, foi
considerado um fenômeno pela crítica especializada
24/03/2015 às 17:53
Não é nenhum segredo a preferência dos brasileiros pelos vinhos tintos. Mesmo nas regiões de clima mais quente, como no nordeste, o consumo destas castas supera em muito os vinhos brancos, mesmo reconhecendo a delicadeza, o frescor e a leveza destes últimos, característica que os tornam muito mais apropriados para o calor dos trópicos.

Penso, que a principal razão para a nossa escolha, é porque nós, tupiniquins – na mais coloquial acepção da língua portuguesa, temos uma verdadeira predileção por sabores fortes. A cor vermelha vívida, o aroma rico e diversificado, a estrutura cheia de personalidade, os taninos intensos e duradouros, tudo isso agrada ao nosso paladar cultural, formado a partir da fusão de sabores da culinária indígena, negra e europeia. Enfim, uma maravilhosa miscelânea, que nos torna único.

O que poucos sabem, é que existe um tipo de vinho, que consegue, dentro do possível, conciliar os sabores intensos dos tintos, com a acidez e frescor dos brancos. Refiro-me ao vinho rosé, obtidos através de diferentes tipos de vinificação, e que, a depender da proposta do enólogo, poderá resultarem vinho de extrema qualidade e elegância.

Basicamente, o vinho rosé pode ser obtido a partir de 5 processos distintos, a maceração curta, compressão direta, sangria, corte de vinhos e mistura de uvas, os quais, seria enfadonho detalhar.

O que importa, é que hoje podemos encontrar vinhos rosés produzidos a partir das mais diversas uvas ou combinação delas (blends ou cortes). Um rosé de malbec, por exemplo, produzido a partir do processo de maceração curta, costuma ter uma atraente cor de casca de cereja e ser rico em notas de frutas vermelhas como um tinto, porém com a acidez e frescor de um vinho branco, podendo ser degustado com uma temperatura entre 7° a 12°, a depender de sua estrutura.

Aliás as cores dos vinhos rosés são uma atração à parte, quando se busca charme e sensualidade numa bebida. Com uma paleta de cores que pode passear pela pérola, levemente rosada, uma delicada pétala de rosa, pêssego ou salmão, em seus diversos matizes, ou, até mesmo o cereja intenso, quase sempre translúcidos e brilhantes.

Produzidos em quase todas as regiões do mundo, com castas locais ou trazidas pelos produtores, nenhuma se destaca como a região de Provence, situada na França, com rótulos maravilhosos, produzidos a partir das uvas Mouvedre, Cinsaut, Grenache, Syrah e Carignan, e é de lá que trouxemos os exemplares do nosso test-drink: o badalado Miraval, produzido pelo famoso casal hollywoodiano, Angelina Jolie e Brad Pitt, em parceria com o enólogo Marc Perrin, integrante do clã da Famille Perrin, que produzem o Chateau de Beaucastel, hoje sob o comando dos irmãos mais velhos, Jean Pierre e François Perrin, este último casado com uma brasileira, filha do lendário colunista Ibrahin Sued. 

LA VIE EN ROSÉ – UM TESTE MAIS QUE ESPERADO

O vinho Côtes de Provence Miraval 2012, desde o seu lançamento, foi considerado um fenômeno pela crítica especializada, tendo sido imediatamente classificado pela publicação especializada americana Wine Spectator, como o melhor Rosé do Mundo, fazendo com que as primeiras 6.000 garrafas colocadas à venda, esgotassem em apenas cinco horas pela internet. Felizmente, por um golpe de sorte, consegui adquirir 12 garrafas deste lote histórico em um navio italiano. Um verdadeiro achado.

Elaborado com um blend das tradicionais castas tintas de Provence, Cinsault, Grenache e Syrah e, a branca Rolle, é o único vinho rosé a figurar na lista dos 100 melhores vinhos do mundo em 2013. O sucesso junto ao público, fez com que suas vendas e preço aumentassem, fazendo com que o mercado absorvesse rapidamente as 100.000 garrafas que passaram a ser produzidas em 2013, sendo 20.000 exclusivamente para exportação.

Na nota de degustação de hoje, tentaremos descrever o máximo de impressões sobre as safras de 2012 e 2013, para os nossos leitores, em uma inédita vertical de dar água na boca. Preparem as taças:
MIRAVAL 2012 – De imediato, percebe-se que a bela garrafa, de formato exclusivo e o discreto rótulo, se prestam a valorizar o precioso líquido, de cor um tanto quanto alaranjada, com nuances salmão e de um brilho e transparência, que denotam o zelo na vinificação. No nariz, um festival de aromas complexos, de flores brancas, pêssego, cítricos, como a tangerina e a pitanga, morango fresco, toques herbáceos e minerais, que se alternam à medida que a bebida se volatiza. Na boca, uma estrutura com certa untuosidade e uma acidez bastante presente, com destaque para notas de tangerina, pêssego, baunilha, glicerina, especiarias delicadas e chá verde. O final de boca é longo e com boa acidez, lembrando exóticas frutas tropicais. Simplesmente, primoroso! De fato, um dos melhores rosés que já provei.

MIRAVAL 2013 – Apesar de grande parte da crítica ter considerado a safra de 2013 ainda melhor, achei que faltou um pouco da intensa expressividade encontrada na safra de 2012. Nessa o ponto forte é a sutileza. De cor salmão intenso e com bastante brilho, repete toda a elegância e refinamento da primeira safra, porém cedendo um pouco das notas cítricas em favor do aroma de pêssego e morango, bem comum em regiões temperadas. Ainda mais adaptado ao gosto europeu, perdeu um pouco em acidez e refrescância, em relação ao ano anterior. Final de boca com boa permanência, lembrando cascas de laranjas cristalizadas.

Indiscutivelmente é um grande vinho, produzido com esmero e competência por um grande Chateau que, ao invés de, simplesmente, se beneficiar da fama de seus proprietários, lhes empresta prestigio e sofisticação.