segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

LOBISOMEM DE SERRINHA quer louraça para apurar crime de Mário do Judô

Só neste 2014, mais de 25 pessoas já foram assassinadas em Serrinha, antes, um local pacato e onde as familias prosavam sentadas em frente das casas
15/09/2014 às 18:20
   Quando comentei com minha querida esposa dona Ester Loura que gostaria de ir à Holanda, mais precisamente a Wassenar, pra fazer uma arruaça e ser detido (apenas detido) pela policial delegata, louraça como Ester, vi às garras da mulher crescerem, os pelos se eriçarem, os olhos de mel se transformarem em bolas de fogo e presenti o pior, que poderia até ter um duelo entre nós. 

   Mas, depois de tomar um suco de maracujá que ela havia me servido e comer um pacote de beijus de dona Danda, falei que era brincadeira e ela, ainda irritada, vociferou: - Quer trocar essa loura aqui que você tá casado há quase 200 anos com aquela loura empapuçada é isso? - perguntou.

  - Nada, tava só brincando com você porque tava todo mundo comentando na barbearia de Soté sobre essa loura da Holanada, que também vi a foto no Facebook e resolvi lhe arreliar.

   - Eu também vi essa foto porque foi a conversa rolante no Salão de Eurides, agora, não me troco por ela de jeito algum.

   - Tá bom. Nao está mais aqui quem falou. Apenas os meninos comentaram lá em Soté da eficiência da Policia da Holanda que descobriu o autor de um crime em menos de 24 horas.

   - Ah! Holanda! Queria que ele viesse trabalhar era aqui na Serra pra ela ver o que é bom pra tosse. Já contabilizamos mais de 25 homicidios, só neste 2014, e ninguém descobre nada, salvo quando é crime de bandido pé-de-chinelo como os cometidos em duas mortes no Saco do Correio, logo descoberto.

   - Não tô defendo a "puliça" (zombei) loura da Holanda, mas, acho que ela fazia bonito aqui na Serra.

   - Ela podia fazer bonito só se fosse na Vaquejada montada n'algum cavalo e com a barriga de fora paquerando algum peão. Agora, no combate ao crime, que nada!

   - Eu colocaria ela pra desvender o crime de Mário do Judô que já vai completar um ano e a Policia até agora não prendeu ninguém, comentei.

   - Esse vai ficar impune porque essa policia da Serra só sabe fazer pose na rua usando máscara ninja e portando fuzis nas mãos, mas, investigar que é bom, necas de Pitiberiba.

   - Taí, nesse caso, acho que v tem razão. Outro dia fui comprar uma bola na Loja de Doia e tinha dois soldados da PM na esquina da praça Luiz Nogueira, em pleno dia, parecendo até que iam pra guerra do Iraque, falei.

   - É isso...pose eles têm. Agora, descobir o crime de Mário do Judô que é bom nada. Ficam dizendo que tem uma suspeita que mora no povoado da Isabel e pimbas, tudo conversa fiada.

   - Então, seria interessante falar com o alcaide Cardosão pra solicitar ao nobre secretário da Segurança e trazer a louraça da Holanda para analisar esse crime.

   - Ah! você só pensa nesse diabo dessa loura. Essa mulher iria apenas charlar aqui, não sabe sequer falar serrinhês, e não duvido nada era ela ficar no Bar de Teco tomando cerveja com Pinguinha ou no Bar de Cal jogando dominó.

   - Você está subestimando a capacidade dela. Daria uma ajuda sim. Se infiltraria no povoado da Isabel como agente de alguma ONG religiosa estrangeira que iria ajudar os pobres e prenderia a tal da suspeita do crime.

   - Ah! Essas ONG só fazem é roubar os pobres, se usufruir da pobeza em nome de alguma instituição religiosa e iria era contrabander crianças adotivas para a Holanda ou pra Itália como já teve muitos casos por aqui.

   - Aqueles foram casos que se passaram e garanto a v que os meninos das roças que foram pra Itália graças aquele bondoso pároco estão homens formados e melhores do que os que estão aqui nas roças ou na periferia da Serra fumando maconha.

   - Que maconha! Você tá doida!

   - É o que se fala lá no salão onde relaxo meu cabelo que tem maconheiros como tais na Santa, na Bomba, nas quebradas da Cidade Nova e assim por diante.

   - Se tivesse a Policia já teria reprimido.

   - Que Policia! Outro dia furtaram uma bolsa de dona Conceição professora na feira livre, em pleno meio dia. O moleque mostrou foi um canivete pra ela, cortou a alça da bolsa e se empirulitou no meio da feira levando tudo.

   - É. Tá demais. No tempo do cabo Júlio Picão não havia nada disso. No tempo do delegado Euvaldo Campos, nosso John Waney, nada disso acontecia.

   - Mas agora o tempo é outro. A modernagem tomou conta de tudo. É mulher vestida de homem pilotando moto. É homem  vestido de mulher e unha pintada. É gente de fora que a gente não sade donde vem pra feiras da quarta e do sábado, que tudo tá é diferente, sem segurança alguma.

   - Por isso mesmo que seria bom trazer a delegata...

    Dona Ester nem deixou eu completar a frase: - Se você insistir com essa policia holandesa iremos à luta e vou lhe dar um troco.

   Aquetei-me e fui cuidar da fabricação dos maus tachos de cobres. Passei o restante do dia trabalhando feito um louco, suando em bicas. No final da tarde fui comprar o pão na Padaria de Sêo Hamilton, passei em frente ao Pé na Cova pra tomar um trago com meu amigo Pernambuco, comprei um presunto no Chama e segui pra casa. 

   Dona Ester fez um café de primeira com beijus de coco de dona Danda e um saduiche caprichado. Depois fui assistir a novela Império, que gosto muito.

    Lá pras tantas fui dormir e já encontro Ester na cama toda enrolada. Parecia uma múmia. 
  Seria a vingança contra a loura da Holanda? 

   - Ester, Ester, falei pra vê se ela acordava. 

    Nada. A múmia não respondia. Tava enrolada da cabeça aos pés, o ar condicionado ligado e assim ficou a noite toda.

    Fazer o que! 

    Eu é que não vou mais falar do diabo dessa policia loura senão vou ficar o resto dos meus dias dormindo com uma múmia. 

    Nisso minha neta Sol apareceu pra dar a benção ao vovô e perguntou por Ester.

    - Cadê minha avó? - perguntou.

    - Tá dormindo. Vá lá acordar ela - respondi.

    Em pouco tempo Sol retorna e diz: - Meu vô...ela tá parecendo Tutankamon.