segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

NETA do LOBISOMEM quer levar jegue de calçola para o Bacalhau da Barão

População se queixa de jegues soltos nas ruas e o fim da espécie diante do uso das motocicletas. Até esposa do Lobi usa Bizz.
11/04/2014 às 12:21
 Estava ouvindo o programa de Ferraz na rádio de doutor Lomes, a Morena, quando moradores do Bairro da Rodagem, aqui próximo do meu sítio, se queixavam de que havia jegues soltos nas ruas remexendo o lixo e fazendo cocô nas portas das casas. Alguns animais mais famintos - diziam os ouvites - estavam inclusive ameaçando as pessoas querendo invadir residências.

   Inclusive, segundo uma ouvinte mais espivitada, um jeguinho ronceiro mais ousado com o mastro varonil de fora estaria dando relinchos e se supunha querendo fazer alguma ousadia. Tanto que a senhora fechou a porta da sua residência com uma tranca de ferro e se armou com uma lazarina carregada com chumbo grosso até o meio do cano, pronta para atirar e se defender.

   Aí Sêo Ferraz, locutor popular de categoria, com sua verve própria e tiradas bem ao gosto do povo, disse que o problema era sério, e que a Prefeitura tinha a responsabilidade de mandar prender os animais, chamou a atenção do prefeito Cardosão, mas, fez a ressalva de que um jegue estava valendo apenas R$5,00 na feira livre de burros & jegues, e que ninguém queria comprar um bicho desses diante do custo de sua manutenção, tanto que, no último sábado, na "Liquida Jegue", pior do que o abafa preço da Ricardo, teve jumento sendo vendido a R$3,50 a cabeça.

   Daí que a Prefeitura fechava os olhos para o problema, pois, se fosse recolher todos os jegues soltos na cidade a despesa com manutenção no curral municipal seria muito alta. Abalaria as finanças públicas.

   - Escute minha prezada ouvinte, tá dificil. Ninguém quer mais andar de jegue. Tá todo mundo trocando o uso do jegue por motos que são mais baratas em manutenção, comentou o locutor.

  - Mas, Ferraz, é uma questão de saúde pública - ponderou a ouvinte. Os jegues estão infernizando nossas vidas, com licença da palavra, defecando em nossas portas e comendo tudo o que encontra pela frente, até roupa em varal.

   Nisso, minha neta Sol que também estava ouvindo a rádio, perguntou-me: - Por que minha avó não compra um jegue desses?

   - Aqui no sítio já tem Roxinho, que está capenga e não serve mais pra nada, só dá despesa, e sua avó está tangendo as vacas leiteiras para nosso curral com a Bizz, respondi de bate-pronto.

   - Minha avó Ester tá usando moto! Eu nem sabia!

   - Sim, quando ela liga a Bizz e desce a manga contornando o tanque, buzina duas vezes e as vacas já sabem do que se trata e se dirigem para o curral numa boa. E sabe quanto ela gasta de gasolina por semana? Apenas R$5,00. Enquanto Roxinho, hoje, só come milho com rapadura e gastamos R$10,00 com ele, R$40,00 ao mês, uma fortuna.

   - Que fortuna meu avô! Então vou falar com minha outra avó Antonia para comprar um jegue desses e tirar o povo do sufoco.

   - E sua avó Antonia vai criar o jegue aonde? O quintal da casa dela é pequeno e só tem uma entrada pela porta da cozinha.

   - Não tem problema. Ela leva o jegue pelo corredor da sala, atravessa a cozinha, chama Sêo Teco e Sêo Alirio Vermelho e descem a escada com o jegue até o quintal, comentou.

   - O lugar é apertado minha neta. Jegue não faz curva em escada.

   - Sêo Teco dá um jeito. Se for o caso ela chama também Sêo Tolentino dá um uisque ao jegue, ele fica torto, e pronto desce a escada.

   - Tem outra coisa. Como sua avó vai criar um jegue num local onde ela produz os licores de São João com aquelas bombonas repletas de  álcool com genipapo, com casca de laranja, com jabuticaba?

   - Minha vó tampa as bombonas e pronto. Alimenta ele com milho e rapadura no aió e ainda dá uns docinhos de genipapo na época de João.

   - Não dá minha neta. Já pensou se esse jegue bebe os licores de sua avó pensando que é água e fica bêbado? 

   - O mais que ele pode fazer é ficar sonolento e dormir num canto, frisou Sol destacando que o licor da vovó era fraquinho e já tinha sua clientela cativa.

  - Mas, de repente, ele pode ficar bravo, porque bêbado tem a arte do demo, pular o muro do vizinho e criar um problema para sua avó.
 - Se ele pular o muro da casa de Duda cairá na piscina e curará a ressaca em pouco tempo e aí a gente vai lá e pega ele de volta.

   - E se ele pular o muro da casa de dona Ó Santa, a candomblezeira?

   - Melhor ainda. Ela passa umas folhas nele, joga sal grosso pra descarregar o efeito do licor, e põe pó de pemba nas ventas que ele nunca mais vai pular um muro.

   - Tá muito bem, ponderei.

   - Tem mais se ele abusar muito tomando os licores de minha avó a gente vai levar ele pro Bacalhau da Barão, vestir uma saia nele e colocar pra os meninos arreliarem dele.

-    Eta! Aí os ambientalistas vão cair de pau em sua avó e prestar uma queixa no Ministério Público.

   - Qual é meu vô! Cê tá por fora. Isso é cultural. Jegue de calçola na Serra é cultura, costumes locais.