segunda-feira, 23 de setembro de 2019
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

LOBISOMEM DE SERRINHA admirado com higiênico para fiofós palacianos

E nossa comunidade é produtiva, trabalha, gera emprego e renda, participa de cooperativas e paga impostos em dia, inclusive IPTU e ISS.
10/02/2014 às 11:40
  Diante dos meus 280 anos, a completar 281 em abril próximo, não me surpreendo mais com nada. Vê esse caso dos "mensaleiros" que arrecadaram mais de R$1 milhão numa "vaquinha", normal; Elthon John exigir camarim com 19 graus em Fortaleza, normal; Professora fazendo boquete num aluno de 13 em Palmas do Monte Alto, anormal. 

   De vez em quando dou risadas com algumas coisas como agora ao ler que o Palácio está disposto a gastar R$50 mil em papel higiênico para limpar o "fiofó" dos barbudinhos, com especificações em edital que deve ser "matéria prima virgem" com pacotes contendo "papel branco, macio, resistente e com folhas intercaladas", rolos de qualidade e sem perfume. 

  O edital também exige apresentar amostras para teste de qualidade. Qual será o "fueiro" a ser testado são outros quinhentos e não vou entrar nessa seara. 

   Agora, entendo que a exigência de um papel macio tem sentido porque eu mesmo quando acá cheguei na Serra, faz um tempão, limpava o meu "bendito" com folha de velame escolhida a dedo e só usava umas felpudas, bem macias, daí que nunca tive problemas com o "tal". 

   Certa feita, por erro de perspectiva, acho que utilizei umas folhas de cansanção no meu "nobre" e tive que ser medicado por doutor Miguel Nogueira, o qual passou uma pomada refrescante no "donzelo" e ainda levei uma reprimenda mandando que eu observasse melhor o papel que estava usando no asseio.

   Mal sabia doutor Miguel que, na Serra, naquela bendita época, lá se vão mais de 60 anos, a população não usava papel higiênico simplesmente porque não existia à venda nas mercearias. 

   Quando muito se encontrava na venda de Sêo Manoel Carneiro era papel de embrulho que se fazia passar pelo higiênico. No mais, todo mundo usava era água, folha, papel jornal, capuco de milho, etc, e tá todo mundo vivo até hoje, não demorando como eu porque não sendo humano vivo mais do que outros, e ninguém teve urticária, hemorroida, doença de próstata.

   Novidade mesmo creio que se deu quando Sêo Zé do Alho colocou o primeiro supermercado na Serra e passou a vender papel higiênico em rolo. 

   Apressei-me logo a comprar um pacote com 6 unidades para minha toca e diria que dona Ester Loura cismou no início com a novidade, mas, adorou. Tanto que deixava um rolo do dito na penteadeira, sabe Deus porque, certamente por achar bonito. 

   No início, no banheiro lá de casa, não havia local para colocar o rolo no seu devido lugar. Então cortei um pedaço de cabo de vassoura, prendi dois fios de arame em cada uma das pontas, e espetei o rolo do papel higiênico que parecia uma gangorra. 

   Na hora do uso era só puxar a ponta do papel medir meio metro, a depender do "barro" que alguém da casa havia soltado, cortar e usar. Ainda não havia serrilha nem era macio com folhas intercaladas como os requerido pelo Palácio, mas era bom, melhor do que folha de velame. 

   Depois, uma vizinha de dona Ester Loura ensinou-a a também usar o papel higiênico na parte externa da "beatriz" toda vez que fizesse xixi, dando dois ou três tapinhas na "florzinha" para melhor higienização.

   Muito bem que assim fosse para civilização da glosiosa Serrinha tanto que a evolução foi chegando do papel higiênico apareceram os vasos sanitários para substituir os urinós, os banheiros ladrilhados e assim por diante. 

   Agora, que todos estamos chiques, Dona Ester Loura mesmo só usa papel Neve, mas, creio que nesses meus todos anos de vida nunca gastei R$ 50 mil como o Palácio na compra do higiênico, gasto que me parece um absurdo. Mas, em se tratando dos barbudinhos tudo com eles podem e aí que o Supremo venha a reclamar que eles debocham, que eles erguem os punhos, quiçá façam um protesto com "fiofós".

   Queria também conclamar aos irmãos de São Gonçalo dos Campos, pelo que lí em A Tarde, hebdomedário que sou assinante há anos desde quando essa folha chegava na Serra no trem na Leste, que acolham o Lobisomem que por lá apareceu para residir naquela comunidade, pois, sendo nosso irmão deve ser de paz como todos nós da familia Lobi.

   Aquela história de lobisomem do passado, que comia galinha nos poleiros, que foi objeto de um filme recente Eclipse, isso é coisa do passado, da história, da Romênia antiga, do Casaquistão, porque somos uma familia moderna e estamos espalhados no Sertão, com os Colberzões da Feira; os Lapões do Quijingue; eu mesmo tenho uma nora que é descendente da Vampira do Araci; os Salamins do Coyté; os Cedrazões do Valente; os Luisões do Lamarão.
 E nossa comunidade é produtiva, trabalha, gera emprego e renda, participa de cooperativas e paga impostos em dia, inclusive IPTU e ISS.

   Eu mesmo pago meu IPTU aqui na Serra sem reclamar do prefeito Cardosão, vou a missa religiosamente na catedral do bispo todo domingo, dona Ester Loura comunga e colabora com o altar de São Joaquim na igreja Matriz, a nossa familia frequenta o Trem da Alegria, nossa contabilidade é feita por Sêo Edmundo Bacelar; e, recentemente, fomos convidados de honra para ir ao Bacalhau da Barão uma festa que tem aqui durante a Semana Santana padrocinada pelo cabeluodo Jorge Matos, o qual, na época da Semana Santa (dizem) também vira Lobisomem.

   Então, o povo de São Gonçalo deveria era receber o Lobisomem com festa e lhe conferir um título de cidadão assim como fez o vereador Joanício comigo em tempos idos, diploma que está à mostra num quadro em nossa sala de estar.