ter?a-feira, 18 de junho de 2019
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

LOBISOMEM DE SERRINHA tem recaída e se atraca com uma galinha de bozó

Depois de voltar de Paris, o lóbi tem recaída e come um bozó colocado às margens do Rio Sapato
05/01/2013 às 10:17

Convidado por meu compadre fui passar os festejos do réveillon no balneário de Vilas do Atlântico, em Lauro de Freitas, yo que havia chegado de Paris onde realizei as compras natalinas de casa, champagne francesa, peru de Gales, presunto de Parma, queijos de Siena, dulces cristalizados de Suiça, salmão de lagos suecos e outros delicias que aprecio com a família.


    No dia 1º de janeiro, após retirar a inhaca ao mar, limpar os fluidos maledicentes, eis que, de retorno à casa do compadre passei por um momento de recaída e devorei uma galinha de bozó com farofa de dendê do Baixo Sul que estava no meu caminho embaixo de uma amendoeira às margens do Rio Sapato. 

   De quebra, ainda comi de sobremesa um arroz doce temperado com canela que se encontrava numa cumbuca de melão amarelo e levei comigo dois ou três charutos de vintém, um dos quais sai baforando até a casa distinto, me benzendo pelo caminho e pedindo a proteção do frade Lopez.

   Em lá chegando, eis que o compadre cheio de modos disse que minha boca estava estranha com um amarelo de dendê e se queixou do odor do aprazível charuto.

   - Seu moço isso é coisa que se faça, se sua esposa ver vai ser um panavoeiro. Toma esse guardanapo e limpa essa fuça - recomendou-me querendo saber o que havia acontecido.

   - Olha compadre eu adoro um faisão à moda do chefe, mas tenho meu instinto animal, e quando vi a galinha de bozó, com dendê, acarajé, caruru e pipoca não resisti e cai de boca. E lhe digo mais, a galinha estava uma delicia e a farofa um primor de textura, sequinha.

   - Você deveria era ter vergonha nessa cara, ainda mais sabendo, que se trata de uma comida de feito, de encruzilhada, de fecha caminhos e pode dar um nó em suas tripas - confidenciou-me.

   - Dá nada compadre. Pior do que isso tenho comido naquela seca medonha do sertão e se essa bendita galinha me der um nó nas tripas vou ao Jorro e bebo aquela água quente e fico bom - respondi.

   - Fica bom mais nunca. A moela misturada com esse dendê de Taperoá é morte certa - assustou-me.

   - Eu não acredito em nada disso - dei uma baforada com meu bode na cara do compadre.

   - E ainda vem com esse charuto de vintém fedorento para minha residência - advertiu-me.

   - Tudo bem, vou fumar lá no deck da piscina - consenti.

   Nisso chega minha santa esposa e pede que tenha bons modos. 

   -Ranulfo, que miséria é essa meu bem, você está todo lambuzado de amarelo e ainda com esse charuto mau cheiroso - questiona.
 
    E aí ouço ela falar com o compadre: - Liga não. Ele de vez em quando tem essas racaídas.
Instantes depois ouço a voz da comadre entrando na conversa: - Este também não é flor que se cheire, se dirige ao meu distinto compadre, e quase tem uma confusão maior, logo no dia primeiro do ano.

   Diante de tal confusão, peguei o compadre pelo braço, numa boa, nos dirigimos a um quiosque de sua casa, saquei da espada e abri uma Chandon. Foi o que acalmou. Brindamos assim a entrada do ano.

   E ainda palpitei: - Essa Chandon é de primeira, melhor do que a servida pelo meu conpatriota Colberzão.