quarta-feira, 26 de junho de 2019
Colunistas / Causos & Lendas
Lobisomem de Serrinha

Dia em que houve um enterro de pedras na gloriosa Tucano

Conto esse causo porque Vivi, a moça vitimada, hoje é minha nora
01/11/2012 às 13:41

Um causo puxa outro. Todo mundo sabe disso. Estava lendo o centenário A Tarde este episódio que aconteceu em Alagoinhas de uma família que participou do velório de um “defunto” sem analisar o corpo do dito e, como o tal se parecia com o lavador de carros Gilberto Araújo, 41 anos, um chororô enorme, esperneio, a família já rezando para todos os santos quando eis que, aparece Araújo, vivinho da Silva e foi aquele auê, virando manchetes dos jornais, blogs e sites nacionais e internacionais. A notícia correu o mundo.

  Então, causo parecido ocorreu aqui entre meus parentes, os lapões de Quijingue e os penedões de Tucano, vampiros da melhor linhagem européia, sendo que o acontecido inicial deu-se numa festa junina de Euclides da Cunha, lugar que promove um São João maravilhoso, casa cheia, quando um penedão, salvo melhor juízo chamado Soté, se engraçou com uma moça dos lapões, a virgem Viviane, sem saber que ela também tinha poderes divinatórios da transformação, e assim passaram a noite naquela forró mais animado do mundo.

  Foi quando lá pras tantas ele perguntou de qual família ela pertencia e a tal disse ser parente do povo dono do Hotel de Piliu, no Jorrão.

  E assim seguiram a noite dançando e se beijando, pudicamente, e quando o dia tava começando a aparecer no horizonte o lapão, dizendo que morava num assentamento perto do Tucano, na Fazenda Cuia do Lapão, lhe ofereceu uma carona e a pobre da moça aceitou deixando sua turma de lado para seguir com o guapo.

  Quando chegaram na altura do Povoado do Cajueiro, numa estradinha vicinal, a moça sem entender nada porque o dito fez aquele desvio, o lapão quis apalpar a “bacurinha” da jovem e ela se encrespou e deu um rugido tão estranho, os olhos se transformando de negros para esverdeados, duas presas enormes de dentes aflorando na sua boca, não havendo dúvida que se tratava de um ser anormal.

  O lapão de imediato se transformou num lobisomem e como era bem mais forte do que aquela loba cravou-lhe suas garras mortais no pescoço da dita deixando-a desacordada, morta, diria assim, embaixo de um pé de umbuzeiro estendida no chão.

  Nesse mesmo dia, cedinho, lá vem Sêo Iôiô esquipando em sua mula Esmeralda quando se depara com aquela beleza de mulher, com um fio de sangue no pescoço, petrificada. Iôiô disparou a mula até o povoado pedindo socorro e uma ambulância do SAMU vinda do Tucano, depois que o vereador Peleléu insistiu muito.

  Em sendo o caso muito grave, a moça respirava, mas estava igual uma pedra, dura que nem rocha do Monte Santo, levaram-na para a Santa Casa de Misericórdia de Serrinha e quando chamaram o melhor médico da cidade, Dr Poró, o mesmo fez os exames que tinha que fazer, mas, recomendou que o caso só poderia ser resolvido em Salvador.

  Organizou-se, então, uma nova ambulância dirigida por Martônio do Padre e com assistência de uma auxiliar de enfermagem de nome Todinha para ir ao lado da jovem, imobilizaram a menina e lá se foram. Na saída de Serrinha, o carro nem tinha chegado ainda na cerâmica de Sêo Queiroz, Todinha verificou que a paciente tinha parado de respirar, portanto, tinha morrido, e solicitou ao motorista que a levasse de volta para novo exame de Dr Poró.

  Reavaliada, eis que o doutor assinava em baixo que a dita estava morta, morrida mesmo, e providenciou-se, então, já com o adjutório de sua família, de um camarada chamado Zemito de Zipriano, que a mesma fosse enviada ao Jorão para o devido sepultamento sendo contratada a funerária de Sêo Eufrádio, a São Vicente de Paula, para os devidos ajustes num caixão formoso.

  Foi então que o tal de Zemito ligou para seus parentes no Jorro pra preparar a sala da casa com o fito de receber o corpo e fazer o sepultamento. E, tal como aconteceu na casa de Sêo Antonio Araújo, em Alagoinhas, o chororó disparou de todos as bandas, uma tia da menina chamada Vanda, desmaiou logo, uma irmã chamada Claudenita deu um xileque, a avó Elohá arrancou os cabelos e assim por diante.

  E lá se foi o cortejo fúnebre em direção ao Jorrão, desta feita no carro mortuário dirigido por Sêo Melquisedeque com auxiliar técnico de Mané Perna Torta. Sêo Zemito e outros parentes da vitima seguiram na frente.

  Na altura da Cabeça da Vaca, Perna Torta deu vontade de mijar e pediu para Melquizedeque encostar o carro assim que fosse possível, num lugar bom para ele fazer o serviço sem mostrar a “piroca” aos passantes. E foi assim que o carro encostou numa entradinha de barro e lá se foi Mané.